COBERTURA ESPECIAL - Crise - Pensamento

18 de Setembro, 2016 - 23:40 ( Brasília )

AZEDO - Desafio à Lava-Jato

O ex-presidente Lula radicaliza o discurso, numa guinada à esquerda, para fugir à vala comum dos envolvidos na Operação Lava-Jato


Luiz Carlos Azedo
Jornalista, colunista do Correio Braziliense


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso de mais de uma hora, em São Paulo, se colocou à disposição da Justiça e desafiou a força-tarefa da Operação Lava-Jato a provar as acusações que tem contra ele, principalmente a de que é o verdadeiro proprietário do tríplex do Guarujá, principal acusação da denúncia feita contra ele pelo Ministério Público Federal.

Caberá ao juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal, de Curitiba, aceitar ou não a denúncia. Repeliu a acusação de ser o “comandante máximo” do esquema de corrupção investigado pela Lava-Jato, além de ter recebido R$ 3,7 milhões em propina. “Provem uma corrupção minha que irei a pé para ser preso”, disse.
 
Durante o discurso, Lula se emocionou e chegou a chorar três vezes, ao falar de sua trajetória pessoal; da mulher, Marisa Letícia, também denunciada; e da fome que passou quando criança, junto com os irmãos. Na essência, porém, fez um discurso político, voltado para os militantes do PT e seus eleitores tradicionais, no qual fez um balanço de seu governo e nenhuma autocrítica em relação aos escândalos dos quais é acusado.

“Tenho a consciência tranquila, e mantenho o bom humor, porque me conheço, sei de onde vim, sei para onde vou, sei quem me ajudou a chegar onde estou, sei quem quer que eu saia, sei quem quer que eu volte.”
 
Lula adotou a mesma estratégia do PT em relação ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, no qual o mantra foi negar a existência de crime de responsabilidade. O ex-presidente nega ser proprietário do tríplex e de ter recebido propina da OAS. “Construíram uma mentira”, disse. A acusação foi politizada.

“Vão agora dar o desfecho, acabar com a vida política do Lula. Não existe outra explicação para o espetáculo de pirotecnia que fizeram.” Também defendeu seu partido — “O PT é tido como partido que tem que ser extirpado da política brasileira” —, comparando ao que aconteceu ao PCB de Luiz Carlos Prestes na década de 1950, quando a legenda comunista teve seu registro cassado.
 
A comparação é fora de contexto, porque a proscrição dos comunistas a partir do governo Dutra foi consequência da guerra fria e de declarações de lealdade de Prestes à antiga União Soviética, e não do envolvimento do chamado Partidão em escândalos de corrupção, muito menos de Prestes. Além disso, o PCB ficou reduzido de 200 mil a 3 mil militantes, em 1958, não apenas por causa da ilegalidade e das perseguições políticas, mas porque a legenda entrou em confronto com os trabalhistas e o governo Vargas, a ponto de ter suas sedes e jornais incendiados por populares por ocasião do suicídio de Getúlio, em 1954.
 
Outra comparação despropositada foi em relação ao presidente Juscelino Kubitschek. Candidato às eleições previstas para 1966, a esquerda não queria apoiá-lo às vésperas do golpe de 1964, porque considerava sua volta ao poder um retrocesso e o acusava de corrupção. JK apoiou a deposição de Jango, porém, quando as eleições presidenciais foram suspensas, se arrependeu e lançou a chamada Frente Ampla, com Carlos Lacerda, em oposição ao regime. Ambos tiveram seus mandatos cassados pelos militares.
 
Margem estreita
 
O ex-presidente Lula radicaliza o discurso, numa guinada à esquerda, para fugir à vala comum dos envolvidos na Operação Lava-Jato, o que parece ser impossível por causa das delações premiadas e de provas reunidas pelos investigadores. Lula trafega numa margem muito estreita institucionalmente.

Acusa o governo Temer e o Congresso de golpistas; o Ministério Público, de persegui-lo politicamente, para afastá-lo da disputa eleitoral. Caso a denúncia seja aceita pelo juiz Sérgio Moro, como tudo indica, também entrará em rota de colisão com o Judiciário.
 
No discurso de ontem, Lula transformou a candidatura a presidente da República em 2018 numa trincheira de defesa contra a Lava-Jato, disse que enfrentará as denúncias nas ruas. Conclamou os militantes do PT a vestirem camisa vermelha e defender o partido. Foi muito significativa a preocupação do presidente do PT, Rui Falcão, durante a entrevista coletiva, para que Lula não esquecesse de agradecer aos senadores do PSB, PSol, PCdoB e Rede que votaram contra o impeachment, e reforçar essas alianças. Lula também fez muitas referências aos jovens estudantes que engrossam as manifestações do “Fora, Temer!”, conclamando-os a saírem em sua defesa.
 
A denúncia na íntegra:
http://www.mpf.mp.br/pr/sala-de-imprensa/docs/DENUNCIALULA.pdf