COBERTURA ESPECIAL - Crise - Pensamento

03 de Abril, 2016 - 09:30 ( Brasília )

AZEDO - A cortina da crise

A economia está se desmanchando. A democracia brasileira foi bloqueada. Um pacto perverso garroteou suas instituições

 

Luiz Carlos Azedo
Jornalista, colunista do Correio Braziliense


 

Num antológico ensaio sobre o romance, o escritor tcheco Milan Kundera enaltece a importância da obra de Cervantes para toda a literatura contemporânea: “Uma cortina mágica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes mandou Dom Quixote viajar e rasgou essa cortina. O mundo se abriu diante do cavaleiro errante em toda nudez cômica de sua prosa”. É a invenção do romance, a “marca de identidade” de uma arte.

Segundo Kundera, assim como uma mulher que se maquia antes de sair apressada para o primeiro encontro, quando o mundo corre em nossa direção no momento em que nascemos, já está maquiado, mascarado, pré-interpretado. “E os conformistas não serão os únicos a ser enganados; os seres rebeldes, ávidos de se opor a tudo e a todos, não se dão conta do quanto também estão sendo obedientes, não se revoltarão a não ser contra o que interpretado (pré-interpretado) como digno de revolta.”

Ao fazer um paralelo entre a pintura e a literatura, Kundera destaca o quadro célebre de Delacroix, A liberdade guiando o povo, que retrata “uma mulher jovem numa barricada, o rosto severo, os seios nus inspirando medo; ao seu lado, um revolucionário maltrapilho com uma pistola na mão”. Kundera não gosta da pintura, mas reconhece a obra de arte. Adverte, porém, que um romance que glorifique semelhantes posturas convencionais, símbolos tão gastos, se excluiria da história da literatura. De fato, foi o que aconteceu com a maioria os autores do realismo socialista.

A Operação Lava-Jato se desenrola como um grande romance, pois rasga a cortina de um mundo político maquiado, mascarado e pré-interpretado. Entretanto, nada pode contra a cegueira maniqueísta, causada por um conjunto de ideias que se tornaram anacrônicas após a queda do Muro de Berlim, a dissolução da União Soviética e o fim da guerra fria. Postas em prática, essas ideias levam a economia à bancarrota e bloqueiam a renovação política, além de resultar numa crise ética sem precedentes.

A cortina da política brasileira pode ser bem traduzido pelas palavras do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, numa conversa informal com estudantes de pós-graduação em economia, gravadas sem que ele soubesse pelo sistema de tevê da Corte: “Quando, anteontem, o jornal exibia que o PMDB desembarcou do governo e mostrava as pessoas que erguiam as mãos, eu olhei e, meu Deus do céu, essa é a nossa alternativa de poder. Eu não vou fulanizar, mas quem viu a foto sabe do que estou falando.”
“O problema da política neste momento, eu diria, é a falta de alternativa. Não tem para onde correr. Isso é um desastre. Numa sociedade democrática, a política é um gênero de primeira necessidade. A política morreu. Talvez eu tenha exagerado, mas ela está gravemente enferma. É preciso mudar”, disparou o ministro. Como rasgar essa cortina? Essa é a questão que está posta. Gostem ou não os políticos, para a sociedade, quem está rasgando a cortina é a Operação Lava-Jato.
Ideias anacrônicas
Na raiz do impasse nacional, há duas concepções que tecem a crise tríplice: de um lado, a ideia de que o Estado é o tutor e provedor da sociedade; de outro, a de que os fins justificam os meios, ainda mais se os objetivos são, digamos, (pseudo) revolucionários. O fracasso do governo Dilma Rousseff pode ser atribuído a esses dois aspectos, basta fazer uma retrospectiva dos erros cometidos na condução da economia e agora mesmo, no fragor da batalha, das ações em curso para reorganizar a base do governo contra o impeachment.

A presidente Dilma Rousseff mobiliza correligionários e aliados, montou um palanque no Palácio do Planalto para atacar a Operação Lava-Jato e defender seu mandato. Recorre ao passado e compara a situação atual às crises que levaram o presidente Getúlio Vargas ao suicídio, em 1954, e os militares ao golpe de Estado que destituiu João Goulart, em 1964. Mascara, porém, a realidade e tenta fechar a cortina de seu mundo maquiado e pré-interpretado. Será mesmo essa a alternativa que nos resta?

Fala-se muito em defesa do Estado democrático e das garantias e direitos individuais, embora os militares (protagonistas das rupturas de 1889, 1930 e 1964) estejam quietos no seu canto. A economia está se desmanchando. A democracia brasileira foi bloqueada. Um pacto perverso garroteou suas instituições. Quem pode impedir que a cortina seja remendada pelo Executivo? O Congresso Nacional, se também purgar seus pecados e cortar na própria carne; ou o Supremo Tribunal Federal, se levar adiante a Operação Lava-Jato e iluminar o palco da renovação política.