COBERTURA ESPECIAL - Crise - Naval

16 de Fevereiro, 2015 - 15:33 ( Brasília )

Sete Brasil - R$ 1,5 Bi a Receber e Possível Perda R$ 28 Bi

Cinco estaleiros que têm contratos com a empresa, que gerencia a construção de sondas para a Petrobrás, estão sem receber desde novembro; na Bahia, unidade das construtoras Odebrecht, OAS e UTC está com as obras paradas

 


JOSETTE GOULART 
O Estado de S.Paulo


Com uma carta aos funcionários dizendo que a indústria naval vive uma crise sem precedentes e que os atrasos de pagamento da Sete Brasil tornaram sua situação insustentável, o estaleiro Enseada, no Recôncavo Baiano, demitiu na sexta-feira 350 trabalhadores. O número de demitidos acentua ainda mais a queda de empregados no setor de construção naval. Segundo o Sindicato da Indústria Naval, só em janeiro deste ano, foram cortados três mil postos.

A situação é crítica para os cinco estaleiros que têm contratos com a Sete Brasil, empresa criada para gerenciar a construção das sondas a serem usadas pela Petrobrás na exploração do pré-sal. Segundo fontes ligadas à empresa, a Sete deixou de pagar aos cinco estaleiros entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões desde novembro. E é no estaleiro da Bahia que a situação parece mais grave.

O estaleiro Enseada, que pertence às construtoras Odebrecht, OAS e UTC, além do grupo japonês Kawasaki, começou a ser construído em 2012 para atender a demanda do pré-sal. O estaleiro já está 82% concluído, mas as obras foram paralisadas desde que a Sete Brasil começou a atrasar pagamentos e três mil trabalhadores foram desmobilizados. As demissões alcançam o estaleiro, que informou a suspensão da produção, assim como outros fornecedores da Sete. A empresa está desde novembro sem pagar o Enseada e a dívida já chega a R$ 500 milhões. Com a inadimplência de seu único cliente, está impossível obter crédito.

Também sem receber, o estaleiro Rio Grande, da construtora Engevix, reduziu o ritmo da produção e a empresa só não demitiu porque tem outros contratos em andamento e conseguiu transferir seus funcionários para trabalhar em outras embarcações. Os atrasos da Sete com o Rio Grande chegam a R$ 180 milhões, e a estimativa é de que atinjam R$ 250 milhões.

Montante parecido é devido ao estaleiro Jurong, do grupo SembCorp de Cingapura, segundo informou o presidente mundial na semana passada. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, na semana anterior, o presidente do estaleiro no Brasil chegou a ameaçar processar a Sete na Justiça.

Segundo fontes próximas à companhia, outros R$ 900 milhões estão em atraso com os outros dois estaleiros, o Atlântico Sul, que pertence à Camargo Corrêa e Queiroz Galvão, e o estaleiro BrasFels, do grupo Keppel de Cingapura. E as demissões também já começam a ser percebidas no Atlântico Sul.

Nenhum dos estaleiros quis conceder entrevistas sobre o assunto. O estaleiro Jurong informou apenas que as atividades estão normais. O Enseada confirmou as demissões. E o Rio Grande disse que teve de realocar pessoal. Atlântico Sul e BrasFels, não quiseram comentar.

Lava Jato. Há menos de duas semanas, vieram à tona os termos da delação premiada do ex-diretor da Sete, Pedro Barusco, e todos os estaleiros foram envolvidos na Operação Lava Jato. Eles teriam pago propinas à empresa para fechar os contratos. Isso vai dificultar a liberação do financiamento do BNDES, de cerca de US$ 3,2 bilhões. O dinheiro serviria para garantir a construção do primeiro bloco de sondas. A Sete informou que "está em constante negociação com os estaleiros e que confia que, em breve, terá aprovada a liberação dos recursos contratados com o BNDES".

As dificuldades da Sete começaram quando Barusco, em novembro, fez o acordo de delação premiada. Como além de ex-funcionário da Petrobrás, era ex-diretor da Sete, surgiu a dúvida se haveria implicação da empresa. Em dezembro, a então diretoria da Petrobrás ameaçou desistir do contrato de sete sondas, que faziam parte do contrato do Atlântico Sul.

Sem ele, a Sete, controlada pelos bancos BTG, Santander e Bradesco além de fundos de pensão, iria à bancarrota. Em janeiro, com a intervenção do governo, a diretoria da Petrobrás voltou atrás e assinou o termo. Mas o BNDES fez ajustes, e quando a Petrobrás iria novamente assiná-lo, a diretoria da empresa mudou.


Em PE, Atlântico Sul demitiu 620 em 7 meses

Sindicato afirma que estaleiro chegou a ter 11 mil funcionários em 2011; no ano passado eram 5,6 mil e atualmente 4.975


ANGELA LACERDA
CORRESPONDENTE /RECIFE - O Estado de S.Paulo


Desde agosto do ano passado, 620 trabalhadores do Estaleiro Atlântico Sul (EAS) foram demitidos em Pernambuco. Cento e vinte deles nos primeiros 40 dias de 2015. "A situação é muito preocupante", afirma o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos (Sindmetal), Henrique Gomes, para quem a crise na Petrobrás, envolta em denúncias de desvios de recursos e propinas, provocou um efeito dominó: o EAS não recebe os pagamentos da Transpetro pelos navios entregues, e, sem receber, o estaleiro reduz o número de funcionários e também não paga seus fornecedores, que, por sua vez, começam a demitir. "Quem paga o pato são os trabalhadores", lamenta.

Ele lembra que o Atlântico Sul chegou a ter 11 mil funcionários em 2011. No ano passado, eram cerca de 5,6 mil e atualmente 4.975. O fato de a empresa ter muitas encomendas - um total de 22 navios petroleiros e o casco P-55 dentro do Processo de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro (Promef) - não acalma o sindicalista. "A Transpetro é da Petrobrás e, dependendo das circunstâncias, pode vir a cancelar pedidos", adverte, ao frisar que muitas empresas fornecedoras do estaleiro instaladas em Pernambuco poderão fechar. "É um momento delicado."

Segundo ele, um desses fornecedores, a Máquinas Piratininga, que fazia anéis para o estaleiro, demitiu aproximadamente 300 trabalhadores nos últimos dois meses. Gomes informa que as rescisões ainda não foram pagas e que a empresa mantém no seu quadro entre 30 e 40 funcionários. "Temos todas as homologações aqui no sindicato", assegura.

Sem resposta. Procurada pela reportagem, a direção da Máquinas Piratininga - localizada em Jaboatão dos Guararapes - não quis conceder entrevista. O Estaleiro Atlântico Sul não atendeu à reportagem nem se pronunciou sobre o assunto.

Do total contratado pela Transpetro, o estaleiro entregou os petroleiros João Cândido (2012), Zumbi dos Palmares (2013) e o Henrique Dias (2014). O quarto, o André de Rebouças, foi batizado e deve ser entregue em março.

A secretária de Planejamento de Ipojuca, cidade onde está o estaleiro, Danielle Lima, afirma que "até o momento" as demissões no Atlântico Sul não provocaram impacto ou queda de receita do município. "Vamos acompanhar e analisar e no primeiro quadrimestre poderemos entender como a arrecadação se comporta", disse ela, que espera um ano difícil devido ao cenário econômico do País.
 
A secretária observa que hoje cerca de 10% dos trabalhadores no complexo industrial de Suape - onde se localiza o EAS - são de Ipojuca, e a prefeitura finaliza um estudo que indicará as vocações econômicas e produtivas e as potencialidades do mercado para adotar um programa de qualificação profissional que possa inserir mais nativos nos postos de trabalho.

 

Sete Brasil pode deixar perda de R$ 28 bi

Cálculo da própria empresa aponta que, em caso de quebra, prejuízo deve atingir bancos, fundos de pensão e estaleiros

 

Josette Goulart - O Estado de S. Paulo
08 Fevereiro 2015

 

SÃO PAULO - Um prejuízo de mais de R$ 28 bilhões para bancos, fundos de pensão e estaleiros. A extinção de 150 mil empregos. O atraso da construção das sondas para exploração do pré-sal pela Petrobrás. Este é o cenário traçado pela própria Sete Brasil, empresa criada para gerenciar a construção de sondas do pré-sal, caso o governo não consiga fechar a operação salvamento da companhia. O acordo estava prestes a ser assinado com Petrobrás e BNDES quando a diretoria da estatal pediu demissão e novas informações da Operação Lava Jato surgiram, implicando a Sete Brasil.

Na sexta-feira, o presidente da Sete, Luiz Eduardo Carneiro, conversou com alguns executivos dos estaleiros e informou que a situação era crítica porque a denúncia de que houve pagamento de propinas nos negócios com as 28 sondas contratadas pela Petrobrás, em acordos de US$ 25 bilhões, deixou os bancos em situação difícil de poder assinar qualquer financiamento de longo prazo.

A indicação de Aldemir Bendine, até então presidente do Banco do Brasil, para assumir a presidência da Petrobrás, foi entendida como parte da tentativa de salvar o acordo e evitar que a Petrobrás cancele o contrato ou suspenda negócios, como aconteceu com a lista de 23 companhias acusadas de cartel. Bendine, que chegou a ser cogitado para presidente do BNDES, tinha sido mantido no BB com a missão de salvar as empresas envolvidas na Lava Jato, segundo fontes próximas da instituição.

Desde novembro, a Sete Brasil está sem dinheiro em caixa. Sem crédito na praça, interrompeu o pagamento das sondas para os cinco estaleiros que contratou e que já estão construindo os equipamentos. Os seis bancos que emprestaram US$ 4,3 bilhões, em empréstimos de curto prazo, também começam a ficar preocupados.

Segundo documento enviado no início de janeiro aos acionistas da companhia pela área de relações com investidores, o cenário em caso de quebra é devastador, já que a companhia não tem ativos, pois apenas contratou a construção das sondas. Os bancos perdem os US$ 4,3 bilhões. Os acionistas, entre eles os fundos de pensão Previ, Petros, Funcef e Valia, além dos bancos BTG Pactual, Bradesco e Santander, perdem os R$ 8,3 bilhões que aportaram.

Os estaleiros, três deles liderados pelas construtoras brasileiras e que investiram em função dos contratos, perdem R$ 5,5 bilhões. O FI FGTS perde os quase R$ 2,5 bilhões que emprestou.

No documento, o cenário foi traçado para convencer os acionistas a assinar os termos dos contratos com estaleiros para que a Petrobrás não desistisse da compra de sete sondas, como já ameaçou fazer. Segundo conta um dos acionistas, os executivos que foram demitidos, e agora estão envolvidos na acusação de pagamento de propinas, alteraram os termos dos contratos com os estaleiros, favorecendo as construtoras, sem o aval dos acionistas.

Alguns reclamam ainda que desde o ano passado, quando Pedro Barusco, ex-diretor da Sete, assinou acordo de delação premiada dentro da Lava Jato, era para ter sido feita uma auditoria interna para apurar irregularidades e que até agora nenhuma satisfação lhes foi dada.


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