COBERTURA ESPECIAL - Crise

31 de Dezembro, 2014 - 12:33 ( Brasília )

Faltará água em São Paulo?

É possível. Segundo os pesquisadores, atravessamos um período climático imprevisível. Podemos ter mais um verão com chuvas insuficientes

Marcelo Moura
com Raphael Gomide


"Se chover tanto em 2015 quanto em 2014, como ficará o volume do Sistema Cantareira, que abastece metade da região metropolitana de São Paulo? "A pergunta, feita a um representante da Sabesp num debate sobre a crise hídrica, em dezembro, é objetiva. A resposta foi pouco conclusiva. "Olha, reduzimos muito o consumo no Cantareira. Tirávamos 33 metros cúbicos por segundo, no início de 2014. Agora tiramos 18", disse Antônio César da Costa e Silva, assessor da diretoria da Sabesp. "Gerenciaremos mês a mês. Aguardamos as chuvas."

Em alguns países, como a Inglaterra, as chuvas se distribuem uniformemente ao longo do ano. Londres nem sequer precisa de reservatórios. O Brasil tem períodos secos e chuvosos mais definidos. Historicamente, o nível dos reservatórios sobe entre novembro e abril - em especial, de janeiro a março. No resto do ano, de maio a outubro, o país consome mais água do que acumula. O nível dos reservatórios baixa. Desde 2010, o volume máximo alcançado por ano, no Sistema Cantareira, é cada vez menor. Em 2014, as regiões Sudeste e Nordeste enfrentaram o menor volume de chuvas em oito décadas. Passaram o ano gastando mais água do que foram capazes de captar nos reservatórios. No Sistema Cantareira, a Sabesp usa o segundo volume morto - água que precisa ser captada por bombeamento, com maiores gastos com energia elétrica e tratamento. "É como se você começasse o ano já no cheque especial, cheio de dívidas", diz Paulo Canedo, professor do Laboratório de Hidrologia da Coppe-UFRJ.

Se chover tão pouco em 2015 quanto choveu em 2014, São Paulo tem grandes chances de ficar sem água nas torneiras a partir do segundo semestre. A maior metrópole do país poderia enfrentar uma crise como a que ocorreu entre 1951 e 1956. Naquela época, houve rodízio no abastecimento aos bairros, importação de água de cidades vizinhas e empresas fechadas. Atualmente, a Sabesp descarta a necessidade de rodízio. Nas capitais do Nordeste, abastecidas pelo Rio São Francisco, o risco de desabastecimento é menor.

Se depender das chuvas revigorantes de verão, o perigo existe. Em novembro, choveu 20% abaixo da média histórica. Até o Natal, o Papai Noel também não trouxera chuvas para fechar dezembro dentro da média. As chuvas natalinas não bastaram para aliviar a tensão. Segundo Bianca Lobo, chefe de meteorologia do Climatempo, a perspectiva é de chuvas abaixo da média até o fim da estação. Em janeiro de 2015, deverá chover bastante em São Paulo. Em fevereiro, a umidade ficará concentrada no norte de Minas Gerais e não chegará ao sul do Estado e a São Paulo, para repor os reservatórios. Se isso acontecer mesmo, a crise se agravará.

A redução da pressão na tubulação durante a noite- que diminui as perdas por vazamento, mas provoca desabastecimento em parte das casas- deverá continuar, assim como os descontos na conta para quem reduzir o consumo. A multa para quem gasta mais do que a média deverá aumentar. Talvez essas medidas não bastem.

A pior notícia é que passamos por um período especialmente imprevisível. A seca excepcional de 2014 não era esperada. Desde o ano 2000, o planeta enfrenta um fenômeno climático cíclico, a Oscilação Decadal do Pacífico (ODP). Ele muda a troca de calor entre o Oceano Pacífico e a atmosfera. A fase atual da ODP leva à diminuição das chuvas no Sudeste do Brasil. Cada ODP dura de 25 a 30 anos. No meio do ciclo, entre 2013 e 2015, ocorrem quatro anos de chuva imprevisível. Aparentemente, estamos no meio desse período. Em 2016, tudo deverá se resolver. A dúvida é como chegaremos até lá.