COBERTURA ESPECIAL - Crise Militar - Defesa

07 de Maio, 2018 - 09:00 ( Brasília )

Gen Ex Silva e Luna - 'não é mais o momento de se omitir'


 

 
Primeiro oficial no comando do Ministério da Defesa desde a criação da pasta, há quase duas décadas, o general-de-exército quatro estrelas Joaquim Silva e Luna relativiza o crescente protagonismo dos militares no atual momento político do Brasil, mas afirma que os oficiais da reserva que lançaram pré-candidaturas foram chamados para participar desse processo.

"As pessoas que lançaram candidaturas na verdade foram buscadas, procuradas, estimuladas a participar", diz sobre a participação mais expressiva de militares nestas eleições. "Não é mais o momento de se omitir", avalia em entrevista exclusiva ao Valor.

Silva e Luna cita o "elevado índice de credibilidade" das Forças Armadas e sua aceitação pela sociedade como razão para que a população comece a identificar nos militares os valores de que está carente.

Ele justifica nesse contexto a polêmica postagem do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, na véspera do julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula, que foi a público nas redes sociais expor como se posicionava a força terrestre nesse assunto. "Estamos inseridos na sociedade, e precisamos estar, ninguém veio de outro planeta, e esse tema da impunidade está deixando nossa gente vulnerável, com receio de que o crime compense", afirma.

Embora minimize qualquer protagonismo das Forças Armadas neste momento, os militares contam com dois representantes no primeiro escalão do governo Temer: o outro ministro é o general Sergio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, que integra o núcleo mais próximo do presidente.

Silva e Luna foi empossado no comando da Defesa no fim de fevereiro, quando o então titular da pasta, Raul Jungmann, foi remanejado para o novo Ministério da Segurança Pública.

Há quase três meses no cargo, ele não foi efetivado no posto na esteira dos dez novos ministros nomeados por Temer há um mês. Mas o general afirma que não se incomoda com a interinidade, embora não diga o mesmo sobre as Forças Armadas.

"A mim não incomoda, até porque a interinidade diz respeito a um espaço temporal, eu diria que todos os ministros em tese são interinos, porque a qualquer momento podem ser substituídos", diz. Mas, complementa, "pode não soar bem para as três Forças Armadas, que talvez não fiquem confortáveis ao saber que o seu ministro não é um ministro, tem que ter um qualificativo de interino do lado dele".

Do aval dos militares também depende a associação da Embraer à Boeing, uma transação sigilosa que segundo Silva e Luna, avançou nas últimas semanas em meio às negociações para garantir assento a um brasileiro no conselho de administração da terceira empresa a ser constituída, e os percentuais de 80% para a companhia americana e 20% para a fatia brasileira.
"Os grupos de trabalho têm se reunido, há propostas mais diferenciadas, o que se busca logicamente é que tem que ser uma operação de ganha-ganha".

Também cabe aos militares o comando da intervenção na segurança pública no Rio de Janeiro, delegada ao general interventor Walter Braga Netto, enquanto as tropas brasileiras executam decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na capital fluminense e garantem ajuda humanitária aos refugiados venezuelanos em Roraima.

O general que tem no currículo cursos de guerra na selva e de combate básico em Israel, que comandou uma brigada de infantaria na Amazônia e o batalhão de engenharia e construção em Roraima, tem uma percepção peculiar sobre o reconhecido desempenho das forças brasileiras em missões de paz das Nações Unidas no exterior.

Recentemente, o general Elias Rodrigues Martins Filho foi nomeado para comandar a missão de paz na República Democrática do Congo. "É a mais complexa e mais difícil de todas", diz Luna. O Brasil passou 13 anos chefiando uma missão de paz no Haiti, e já enviou mais de 50 mil militares para o exterior.

"É o jeito brasileiro de conduzir as coisas". Um jeito que ele associa à fórmula da empatia: "Nossa tendência é tentar sentir o que o outro está sentindo, ver a realidade do outro, se colocar no lugar do outro". Ele explica que no Haiti foi dessa forma, e até mesmo na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Força Expedicionária Brasileiras (FEB) juntou-se aos aliados para lutar contra o Eixo (Alemanha, Japão e Itália).

Luna acabou de retornar de uma viagem à Itália, onde os pracinhas brasileiros foram homenageados. Lembra que os brasileiros são adorados na Itália, porque durante a guerra dividiam a comida e o abrigo do frio com a população do país.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: O governo tem dois generais no primeiro escalão, um general à frente da intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro, enquanto as tropas militares estão em campo na capital fluminense e Roraima. Um capitão do Exército está no topo das pesquisas para a sucessão presidencial. Há um crescente protagonismo das Forças Armadas no atual cenário político?

Joaquim Silva e Luna: As Forças não buscam esse protagonismo. O militar tem duas características: disponibilidade permanente e dedicação exclusiva, então estamos sempre prontos para servir. Há um preparo permanente, ele faz curso a vida inteira, tem mobilidade nacional, vivência no exterior. As Forças estão presentes em diversas ações em todo o país, a maior parte das estradas, sobretudo na Amazônia, foram construídas pelos militares, a obra da transposição do rio São Francisco começou com os militares, as obras do aeroporto de Guarulhos estavam paralisadas, foram concluídas e entregues num prazo menor e valor abaixo do orçado. Não utilizar esse potencial seria um desperdício.

Valor: Mas o que eles têm a oferecer de diferente em relação aos políticos tradicionais?

Silva e Luna: O que a gente vê hoje é que a sociedade está se ressentindo de valores. Como as Forças Armadas têm um elevado índice de credibilidade e aceitação da sociedade, as pessoas começam a identificar no militar os seus valores, seu potencial de conhecimento, sua capacidade de ser utilizado em diferentes áreas.

Valor: Mesmo não buscando esse protagonismo, é fato que mais militares estão se projetando na campanha eleitoral. Além de um dos líderes das pesquisas para a eleição presidencial, há pré-candidatos aos governos do Distrito Federal e do Ceará, além de vários postulantes a vagas no Congresso. O que motivou essas candidaturas?

Silva e Luna: As pessoas que lançaram candidaturas, na verdade, foram buscadas, procuradas, estimuladas a participar, sabem o que têm a oferecer. O entendimento disso tudo é de que não era mais o momento de se omitir desse processo, se podem contribuir para o país. Mas o número de candidatos militares não chega a 0,1%, é um número pequeno para se falar em protagonismo.



Ministro da Defesa nas comemorações dos 201 anos do Corpo de Fuzileiros.



Valor: Gerou polêmica a postagem em rede social do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, na véspera do julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal. O senhor acha que as Forças Armadas têm que se posicionar politicamente com maior frequência?

Silva e Luna: Não, não é o caso. Até entendo a fala do general Villas Bôas, e talvez por ter saído no momento do julgamento, passou essa percepção [polêmica]. Mas a ideia dele era mostrar que estamos inseridos na sociedade, e precisamos estar, ninguém veio de outro planeta. Esse tema da impunidade está deixando nossa gente vulnerável, com receio de que o crime compensa. A ideia foi chamar a atenção para isso, mas foi uma fala mais voltada para o público interno do que a intenção de tentar influenciar qualquer processo.

Valor: O general Villas Bôas tem 243 mil seguidores em uma rede social. Ele é um exemplo de comunicador que deve inspirar as Forças Armadas?

Silva e Luna: É que o mundo evoluiu, eu me comunicava com meu pai por cartas, depois por telefone. A tecnologia avançou, as pessoas se comunicam com o que se tem disponível, mas há escolhas. Meu celular é o mesmo há 12 anos, só atendo as pessoas que estão lá [registradas]. Valor: Mas o senhor usa aplicativos? Silva e Luna: Eu uso WhatsApp, porque virou instrumento de trabalho, é imediato, hoje eu me comunico com o companheiro que está na Coreia. Houve um incidente [com oficiais na República Centro-Africana] e ficamos sabendo na hora.

Valor: Falando em protagonismo, sem o aval do Ministério da Defesa, a associação da Embraer com a Boeing não se concretiza. Havia uma expectativa de que o negócio fosse anunciado na semana passada. O que houve?

Silva e Luna: Posso lhe afiançar que não houve nenhum recuo, tem reunião na semana que vem [nesta semana]. Tem havido propostas, entendimentos, e as partes têm um tempo para negociar. O que não é colocado [para o público], é porque há um acordo de confidencialidade. Mas há uma aproximação das partes e haverá um provável encontro.

Valor: As conversas evoluíram? Como estão as negociações para a constituição da terceira empresa, da definição dos percentuais - 80% para a Boeing, 20% para a Embraer -, a garantia de um assento para um brasileiro no conselho de administração?

Silva e Luna: Tem avanço, tudo isso está na pauta. O que se busca logicamente é que tem que ser uma operação ganha-ganha.

Valor: O senhor é favorável a essa joint-venture?

Silva e Luna:Eu vejo que ela é de total interesse do Brasil. Hoje o mundo tenta se globalizar e fazer fusões das grandes empresas, porque elas vão ganhar escala. Quando eu falei que vai dar casamento, é porque há um interesse favorável para o Brasil e para os Estados Unidos. Mas é preciso preservar o que precisa ser preservado.

Valor: Projetos na área civil, como jatos executivos, podem continuar na antiga Embraer?

Silva e Luna:Tudo isso está no pacote.

Valor: Por que um general, Walter Braga Netto, foi chamado para comandar a intervenção na área de segurança pública do Rio de Janeiro, se o processo é civil?

Silva e Luna:Eu vejo pelo princípio da razoabilidade. Havia uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em andamento, sob o comando do general Braga Netto, que é o comandante militar do Leste. Colocar um interventor que estivesse alheio a tudo isso, até ele se inteirar, íamos perder tempo. E o momento foi de clamor, no Carnaval houve uma série de incidentes, me lembro de uma senhora na televisão pedindo "socorro". Ficou no jargão popular que a intervenção é militar, mas é civil.

Valor: Mas as tropas têm poder de polícia para atuar no combate ao crime na linha de frente?

Silva e Luna: Sim, por causa da GLO. As tropas podem fazer tudo. Primeiro foi feita uma operação na Vila Kennedy, que permitiu a entrada das Forças e depois o desbloqueio [das barreiras colocadas pelos criminosos]. Na semana passada, houve operações em 11 morros.

Valor: Que balanço o senhor faz desses 80 dias de intervenção?

Silva e Luna: São duas ações em andamento, uma de reestruturação, a outra é emergencial. Já houve redução da criminalidade, mas a informação não está saindo, porque no ano passado, nos três primeiros meses, a polícia estava em greve e houve subnotificação das ocorrências. Aconteciam 20 crimes, anotavam três. Também houve um incremento da visibilidade da violência, com maior acompanhamento da mídia.

Valor: Em que pontos houve redução da criminalidade?

Silva e Luna:O número de mortes em enfrentamento policial foi reduzido. Houve um aumento do efetivo nas fronteiras do CentroOeste ao Sul, e também em Roraima, reduzindo a quantidade de drogas e armamentos que entram no Rio. Mas isso causa um sufocamento, e em compensação, aumentou o roubo de cargas e a disputa entre facções.

Valor: Quando os resultados mais palpáveis vão aparecer?
Silva e Luna: Esses resultados demoram mais, mas vão aparecer. O policial que estava desmotivado, que se voluntariava para trabalhar na folga, agora voltou a ser pago por esse trabalho, voltou a receber o 13º salário. Com isso ele retorna mais motivado. Além disso, começamos treinamentos, o policial que entrou para o quadro nunca mais tinha voltado aos estandes de tiros, agora está fazendo reciclagem, recebeu coletes de proteção.

Valor: Pode haver novas intervenções na área de segurança de outros Estados?

Silva e Luna: Não houve solicitação formal, mas alguns governadores manifestaram esse desejo. Sabemos que o arco fronteiriço do Nordeste é maior que o do Rio de Janeiro. Natal, no Rio Grande do Norte, está no topo da lista de violência, mas não aparece na mídia. Considerados os crimes per capita, Natal é mais violenta que o Rio.

Esse tema da impunidade está deixando nossa gente vulnerável, com receio de que o crime compense" Nosso orçamento, a partir da emenda do teto de gastos, tem sido comprimido"

Valor: Não é um paradoxo que num momento em que as tropas são chamadas para reforçar a segurança por meio das GLOs, o orçamento das Forças Armadas esteja comprometido?

Silva e Luna:Nosso orçamento a partir da emenda do teto de gastos tem sido comprimido, na verdade, desde 2012 tem sido nominalmente reduzido. Fizemos uma reestruturação, trocamos efetivos permanentes pelos temporários, hoje há mais temporários. Isso interfere em vários projetos, como o submarino nuclear, o SisFron [monitoramento de fronteiras], o KC-390 [modelo de avião estratégico da FAB com a Embraer].

Valor: Qual a consequência do encolhimento do orçamento da área de Defesa?

Silva e Luna: Para este ano tínhamos solicitado R$ 6,5 bilhões para os projetos, ficou em R$ 4,5 bilhões. Já tivemos um contingenciamento, renegociamos até o limite do esgarçamento. Os projetos vão se arrastando, e há o risco de que o material adquirido fique obsoleto.

Valor: Foi pela falta de orçamento que o Brasil não enviou as tropas para a missão das Nações Unidas na República Centro-Africana?

Silva e Luna: Sim, mas como não havia previsão na lei orçamentária, foi uma negativa legítima.

Valor: Mas o general brasileiro Elias Rodrigues Martins Filho vai assumir uma nova missão de paz, agora na República Democrática do Congo. Não serão enviadas tropas para essa missão?

Silva e Luna:Essa é a mais complexa e mais difícil de todas as missões de paz que a ONU promoveu. Houve um chamamento [das tropas brasileiras]. Os soldados estão preparados [se forem enviados para a missão].

Valor: Por que o Brasil se tornou referência nessas missões de paz da ONU?

Silva e Luna:É o jeito brasileiro de conduzir as coisas. As relações humanas se dão em três níveis: simpatia, empatia e antipatia, e nossa tendência é se relacionar com as pessoas por empatia, tentar sentir o que o outro está sentindo, se colocar no lugar do outro.

Valor: Esse "jeito brasileiro" ajudou a restabelecer a ordem em Roraima? Falou-se até mesmo em fechar a fronteira.

Silva e Luna:Há desinformação, falam em 40 mil refugiados venezuelanos, mas na verdade há cerca de 5 mil lotados em dez abrigos que construímos, não tem quem esteja desabrigado.

Valor: A situação de interinidade incomoda o senhor?

Silva e Luna: A mim não incomoda porque a interinidade diz respeito a um espaço temporal. Eu diria que todos os ministros, em tese, são interinos, porque a qualquer momento podem ser substituídos. Mas pode não soar bem para as três Forças Armadas que integram a Defesa. Valor: Como assim? Silva e Luna:Talvez as Forças não fiquem confortáveis em saber que seu ministro não é um ministro, tem que ter um qualificativo de interino do lado dele.

Valor: No próximo governo, um civil pode voltar ao comando da Defesa?

Silva e Luna:Tem havido uma preocupação de muitos países de que sejam colocados técnicos que conheçam profundamente o assunto nos ministérios, mas que tenha um trânsito político. Mas se vier um civil, as Forças não vão se sentir afetadas.


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