COBERTURA ESPECIAL - Expansão Chinesa

04 de Junho, 2019 - 11:10 ( Brasília )

Tecnologia substitui tanques, 30 anos após massacre da praça da Paz Celestial


Trinta anos depois da repressão, os tanques da praça da Paz Celestial (Tiananmen) deram lugar a um arsenal mais discreto, mas igualmente efetivo para o regime chinês: milhares de câmeras atentas ao menor indício de protesto social.

Na imensa esplanada do coração de Pequim, as câmeras observam os turistas que admiram o gigantesco retrato de Mao Zedong, o fundador da república popular.

Essas câmeras penduradas nos postes de luz são o lado visível do arsenal tecnológico à disposição do Partido Comunista Chinês (PCC) para impedir um movimento pró-democracia como o de 1989, que foi severamente reprimido em 4 de junho de 1989.

De norte a sul do país, foram criados postos de polícia nos últimos dez anos para prevenir o crime e qualquer perturbação da ordem pública.

A obsessão do regime com inteligência artificial e reconhecimento facial sofisticou essa complexa rede de vigilância. Permite que a polícia bata na porta de qualquer suposto desordeiro, denunciam vários dissidentes à AFP.

Outros estimam que a onipresença do partido nas universidades e a redução dos poucos "espaços de liberdade", como livrarias independentes, dificultam qualquer tentativa de debater reformas políticas hipotéticas.

"Graças à melhoria das tecnologias de vigilância, seria muito mais difícil hoje realizar manifestações como as da Praça da Paz Celestial em 1989", observa Patrick Poon, da Anistia Internacional.

Nos últimos anos, tem havido pequenas "manifestações espontâneas" no país, lançadas por sindicalistas, estudantes, ou famílias afetadas por escândalos alimentares, ou vacinas defeituosas.

Estes protestos esporádicos também estão diminuindo, porque Pequim se esforça para "cortá-los pela raíz" e censura qualquer referência a eles nas redes sociais, explica Poon.

"Cada vez que saio da cidade, tenho que informar a polícia", afirma Yi Wenlong, um empresário da província de Shanxi (norte), cuja filha sofre epilepsia como consequência de uma vacina adulterada.

"Se sequer podemos falar dos problemas concretos como vacinas, como vamos agitar cartazes pedindo grandes mudanças?", questiona.

176 milhões de câmeras

Desde a chegada do presidente Xi Jinping ao poder em 2012, Pequim reduziu o espaço das liberdades civis, atacando advogados, dissidentes e até estudantes "marxistas" defensores dos direitos dos trabalhadores.

Os censores do regime reforçaram o controle das redes sociais, monitoram as conversas entre milhões de indivíduos e bloqueiam qualquer conteúdo politicamente sensível, em particular a repressão de 1989.

Em vista da proximidade da data de 4 de junho, a enciclopédia virtual Wikipedia foi bloqueada no país em todos os idiomas.

Para o militante Hu Jia, "a liberdade de expressão é a pedra angular de todas as liberdades" e, "sem ela, outra Tiananmen é inimaginável".

O novo arsenal policial inclui softwares de reconhecimento de voz para identificar pessoas por telefone e um programa para coletar amostras de DNA, segundo Xiao Qiang, um físico.

Vários dissidentes afirmam à AFP terem recorrido a aplicativos de mensagem instantânea criptografado como Telegram, ou por WhatsApp para se comunicar.

De acordo com um dissidente preso de 2013 a 2016, "o espaço das liberdades civis está diminuindo". As reservas de hotéis, ou de transporte, também são usadas para perseguir indivíduos. Para fazer uma viagem de trem na China, você precisa digitalizar o documento de identidade.

Em 2015, Pequim lançou o projeto de vigilância "Sharp Eyes" (Olhos Afiados), que este dissidente descreve como "onipresente".

A China tinha cerca de 176 milhões de câmeras de vigilância em 2016 contra 50 milhões nos Estados Unidos, de acordo com o gabinete do IHS Markit. Em 2022, subirão para 2,7 bilhões em um país de 1,4 bilhão de habitantes, ou seja, duas câmeras por pessoa.

Com o enriquecimento exponencial do país e a contínua propaganda, o regime até conseguiu erradicar o desejo de protestar, lamenta Li Datong, ex-editor-chefe do Diário da Juventude de Pequim, que está sendo vigiado desde o ano passado por criticar Xi Jinping.

China diz que repressão na Praça da Paz Celestial foi uma política "correta"

Ministro da Defesa chinês, o general Wei Fenghe, em Singapura em 2 de maio de 2019

A China defendeu neste domingo (2) a sangrenta repressão aos protestos na Praça Tiananmen (Paz Celestial) de Pequim em 1989, classificando-a como a "política correta".

No começo de junho de 1989, a Praça Tiananmen de Pequim era o epicentro, há semanas, de inéditas manifestações de estudantes e trabalhadores a favor da democracia e pedindo o fim da corrupção. A repressão do exército em 4 de junho deixou centenas mortos.

Trinta anos depois, este período da história da China continua a ser um tabu. Nas raras vezes em que autoridades mencionam os acontecimentos, especialmente diante de estrangeiros, justificam-no como uma "decisão correta". Com o ministro chinês da Defesa não foi diferente.

"Este incidente foi uma turbulência política e o governo central adotou medidas para deter as turbulências, o que é uma política correta", afirmou o general Wei Fenghe durante o fórum regional de segurança Diálogo de Shangri-La, em Singapura.

Em um discurso para ministros da Defesa, militares de alta patente e especialistas, o general Wei questionou por quê o mundo sempre diz que a China "não administrou o incidente de forma correta".

"Estes 30 anos demonstraram que a China viveu grandes mudanças", afirmou, antes de acrescentar que graças à ação do governo a "China goza de estabilidade e desenvolvimento".

Atualmente, graças à "Grande Muralha digital" e aos censores do partido, qualquer referência à repressão desapareceu da internet na China.

China se mantém firme sobre Taiwan

O general Wei fez esses comentários um dia após seu equivalente americano, Patrick Shanahan, pedir para a China "deixar de minar a soberania de outros países" vizinhos e alertar que os EUA vão investir para manter sua supremacia militar na região.

A luta de influências na região asiática entre Washington e Pequim, com potenciais conflitos no Mar da China Meridional, no estreito de Taiwan, ou na Coreia do Norte, foi o principal tema dos debates do fórum, ocorrido ao longo deste fim de semana.

Mas o ministro chinês não se abalou pelos comentários de Washington, e disse que seu país não renunciará ao uso da força para a reunificação com Taiwan.

A China considera Taiwan parte de seu território. A ilha é governada por um regime rival, que se refugiou ali após os comunistas chegarem ao poder no continente, em 1949, após a guerra civil.

"Nos esforçaremos por um processo de reunificação pacífica com a máxima sinceridade e os maiores esforços, mas não fazemos promessas de que renunciemos ao uso da força", anunciou o general Wei.

"Subestimar a determinação e a vontade do ELP [Exército Popular de Libertação] é extremamente perigoso", alertou, e considerou que o "dever sagrado" do exército é defender o território chinês.

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