Cuidado:
estatais chinesas vão comprar tudo
Alberto
Tamer
A China vai às compras e o Brasil deve ficar
alerta. Isso pode parecer notícia velha, mas
não é. Quem anunciou oficialmente essa
nova política, na segunda-feira, foi o primeiro-ministro
chinês, Wen Jiabao, em encontro com diplomatas,
em Pequim. "Devemos implementar a nossa estratégia
de ir para fora e combinar a utilização
das reservas externas com a ida para o exterior das
nossas empresas", afirmou ele. Esse "ir para
fora", ao qual Wen se refere, é a implementação
de uma estratégia que já vem sendo executada
pelos grandes grupos, como PetroChina, Chinalco, China
Telecom e Banco da China, de investir no exterior.
MAIS
BENS E MENOS DÓLARES
O
governo já havia criado um fundo de US$ 200 bilhões
para financiar essas operações, mas considera
pouco, por dois motivos. Primeiro, desse total, US$
143 milhões já foram usados nos dois últimos
anos. E, segundo, as reservas, que chegaram a US$ 2,1
trilhões, criam problemas de dependência
do dólar (70% são nessa moeda). O país
não pode se desfazer muito dos títulos
e outros ativos para não pressionar ainda mais
a desvalorização do dólar - e o
valor de suas reservas.
GRANDES
ESTOQUES TAMBÉM
Ao
mesmo tempo, o governo está usando as reservas
para fazer grandes compras de matéria-prima e
aumentar ainda mais seus estoques. Oportunidade, com
os preços baixos. Ataca, assim, o ponto mais
fraco da sua economia, a dependência do exterior
por petróleo, minerais e alimentos. Vai produzir
lá fora o que não tem ou não consegue
no país. Ou seja, em vez de estocar mais dólares,
prefere estocar petróleo, minérios e alimentos.
Os chineses querem garantir o abastecimento interno
e aumentar sua influência no mercado mundial.
WALL
STREET, NÃO
E
no mercado financeiro? Não, afirma o presidente
do Banco de Desenvolvimento da China, Chen Yuan. "Eu
penso que não deveríamos ir para Wall
Street, mas para lugares com reservas naturais e energia."
ESTAMOS
SENDO INGÊNUOS
E
o Brasil nisso? É hora de atrair investimentos,
sim, mas acima de tudo se precaver contra a agressividade
industrial chinesa. Sempre querem muito em troca. O
professor emérito da Fundação Getúlio
Vargas e da Business School São Paulo Wolfgang
Schoeps alerta para a política industrial chinesa,
que afeta também o Brasil. "Há muitos
anos, a China pratica uma política de desenvolvimento
industrial com a transferência de tecnologia e
na qual, ingenuamente (?), a Embraer acreditou."
E
Shoeps explica a manobra chinesa: "A China estimula
e paga a transferência tecnológica com
a mudança da manufatura para o seu país,
inclusive com participação societária
na implantação de novos empreendimentos.
Mas, depois de conseguir seu objetivo, ela mesma cria
uma nova empresa competidora nessa mesma atividade e
"mata" aquela da qual era sócia. É
um preço do investimento com o qual ela arca
conscientemente. Internacionalmente, essa política
já era conhecida há muitos anos".
Já
caímos nisso? Sim. "A Embraer acreditou
em montar uma planta em Harbin, passou tecnologia, agora
teve encomendas para 50 ERJ 145 canceladas e é
provável que terá de fechar suas portas
lá. Ou ficar apenas com os serviços de
manutenção. Hoje, a China está
implantando a própria manufatura de aviões
dessa categoria e anuncia que pretende ser o 3º
maior fabricante mundial. É outro exemplo dessa
concorrência, que afeta países como Brasil.
Nem tudo é ouro."
TÉCNICOS?
SÓ POR 3 ANOS
Mas
não fica só aí a esperteza chinesa.
Eles se apropriam também de informação
e conhecimento. Como? "A China tem uma lei de imigração
para o pessoal técnico estrangeiro. Eles podem
ficar até 3 anos na função. Depois,
devem regressar ao país de origem. Se a empresa
estrangeira necessita repor a posição
de seu técnico, isso deve ser feito com outra
pessoa. A razão é que o primeiro técnico
teve tempo suficiente para transmitir conhecimento ao
pessoal chinês. Então, espera-se que o
novo elemento traga novos conhecimentos. É informação
com fonte da Siemens alemã", acrescenta
Schoeps.
TEM
MAIS, TEM MAIS
"O
Brasil é hoje um parceiro comercial preferencial
da China e assim tem taxas aduaneiras reduzidas. Os
excedentes de produção da China, em virtude
da atual recessão e consequente redução
do comércio mundial, são agora oferecidos
a preços menores, pois subsídios cruzados
são comuns entre empresas estatais e, assim,
resultam num dumping de preços. Para a China,
porém, essa é uma alternativa muito melhor
do que a de fechar fábricas, pois resulta em
conquistar maior participação em certos
mercados. No caso brasileiro, esse efeito está
sendo sentido em diversos setores, como calçados,
confecções, tecidos e outros", diz
Schoeps.
E,
como exemplo, a venda de calçados para a Argentina,
onde o Brasil teve uma sensível redução,
enquanto aumentaram as importações da
China. O mesmo se dá com os eletrodomésticos.
"É o problema das exportações
do Brasil para terceiros países onde a presença
chinesa é forte."
Esses
últimos fatos já são conhecidos,
mesmo assim continuamos aumentando nossas vendas para
a China, mas, atenção, a grande parte
é de matérias-primas e alguns itens de
alimentos, como soja. Enquanto mais de 70% das exportações
chinesas para o Brasil são de produtos industriais.
Com
a nova agressividade chinesa, impulsionada pelos US$
2,1 trilhões de reservas, vamos acabar sendo
prejudicados. A "nossa festa" do mercado chinês
pode ficar menos alegre.
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