COBERTURA ESPECIAL - Brasil - China - Geopolítica

06 de Fevereiro, 2012 - 18:45 ( Brasília )

Os chineses que vêm aí


Por Sergio Leo

Para quem está acostumado a ver a China apenas como o gigante manufatureiro que ameaça a indústria nacional, será uma experiência instrutiva acompanhar a reunião, nesta semana, da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível (Cosban), em Brasília, comandada, pelo lado chinês, por um dos mais influentes dirigentes do país, o vice-primeiro-ministro Wang Qishan.

De fumo a aviões, a agenda de interesses do Brasil a ser levada aos representantes chineses ultrapassa facilmente a casa do bilhão de dólares. Os brasileiros se equilibrarão entre defender as mais recentes medidas protecionistas no Brasil e demandar parceria aos asiáticos.

A Cosban, criada para garantir fôlego às conversas dos dois países e evitar que sejam abafadas pelos atritos comerciais, tem 11 subcomissões distintas, que tratam de temas como finanças, comércio, cooperação espacial, agricultura e educação. Algumas dessas comissões não conseguiram sequer se reunir, como a de cultura. Outras avançaram, como a de educação, que pode levar ao envio de estudantes brasileiros aos centros tecnológicos chineses, e a de finanças, que abençoa a cooperação entre a BM&F Bovespa com a bolsa de Xangai.

China faz anúncios e diversifica áreas de investimentos

Brasil e China vão discutir um plano para orientar a relação dos dois países nos próximos dez anos, e há muito em jogo para certos setores nesses encontros de alto nível. Os produtores de fumo, por exemplo, já têm na China, que lhes comprou US$ 380 milhões em 2011, seu maior freguês, e grande investidor no país.

No ano passado, durante a viagem da presidente Dilma Rousseff, foi anunciada autorização de venda de fumo da Bahia e Alagoas ao mercado chinês. Mas a venda, mesmo, depende de análises técnicas, cuja demora será discutida agora em Brasília.

Os exportadores de carnes também enfrentam problemas com a burocracia na China. Paciência e construção de confiança são duas das exigências sempre lembradas pelos especialistas para quem se interessa em fazer negócio com o mercado mais vibrante do mundo, hoje. A Embraer poderia ministrar seminários sobre esse tema.

Depois de montar uma fábrica em sociedade com os chineses para construir lá seu EMB 145 e ser golpeada com a decisão chinesa de não mais comprar aeronaves daquele tamanho, a companhia brasileira tentou sem sucesso autorização para fazer na China seu avião de maior porte, o EMB 190, que concorreria com uma aeronave chinesa e, claro, não teve sinal verde das autoridades locais.

Durante a viagem de Dilma a Pequim, negociou-se a permissão para fabricar, lá, jatos executivos da Embraer. Mas falta a isenção de taxas para importação de componentes, o que viabilizaria a fábrica - tema para a Cosban.

Também vai se pedir aos chineses para apressar a burocracia, que retém a compra, por duas companhias chinesas de aviação, de 20 aviões 190 da Embraer, anunciada também durante a visita da presidente.

Outra multinacional brasileira, a Marcopolo, também exercita sua paciência oriental à espera de autorização chinesa para instalar fábricas numa zona especial de processamento de exportações, em Changzhou.

Na sexta-feira, Dilma reuniu seus ministros com interesses nas 11 subcomissões da Cosban, para decidir o que será prioritário e o que nem entrará nas conversas com a missão liderada por Wang Qishan, a " pessoa a quem os líderes chineses recorrem para entender os mercados e a economia global", nas palavras do ex-secretário do Tesouro americano Henry Paulson, ao comentar sua eleição como uma das cem pessoas mais influentes de 2009, pela revista "Time" (esse detalhe faz parte das instruções para a Cosban recebidas pelos integrantes do governo brasileiro). A Vale, e suas atribulações com os chineses, foi citada na reunião do Planalto.

Após investir US$ 2,35 bilhões na compra de 19 supercargueiros Valemax, 12 dos quais encomendados a um estaleiro chinês, a Vale foi golpeada com a notícia de que seus barcos de 400 mil toneladas de capacidade não teriam autorização para atracar nos portos chineses, para onde destina quase metade de suas vendas ao exterior.

Será difícil contornar o problema, justificado por preocupações ambientais e ancorado no temor dos cargueiros chineses em relação ao que consideram uma tentativa de domínio do mercado de fretes mundiais de minério.

Os chineses vêm anunciando investimentos bilionários no Brasil, e diversificaram sua área de atuação, antes concentrada em mineração, agricultura e petróleo. Pretendem fabricar carros, caminhões e motocicletas e entram pesadamente no setor de linhas de transmissão de eletricidade. É crescente a presença econômica dos chineses, que em janeiro foram momentaneamente ultrapassados como maior mercado brasileiro pelos Estados Unidos.

É ingenuidade imaginar que se pode ganhar a boa vontade dos chineses escancarando o mercado brasileiro a seus produtos baratos; mas demonizar a China e editar medidas abertamente concebidas e anunciadas para prejudicar empresas chinesas - como o recente aumento do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis - é uma maneira também pouco madura de administrar uma parceria, que já é um fato, não uma invenção ideológica ou diplomática.

A existência da Cosban pode dar instrumentos para acordos ou aumentar a insatisfação de lado a lado, caso seja incapaz de se sobrepor ao ritmo natural das forças do mercado e ao peso dos interesses particulares em jogo.

Instalada em 2006, a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível deveria reunir-se a cada dois anos, mas só agora faz sua segunda reunião, quando deverá avaliar o que se conseguiu no plano de metas dos dois países para 2010 a 2014. O tom da autoridades deve ser otimista. Mas as medidas concretas que anunciarem darão a medida das atuais relações entre China e Brasil.



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