
Charge publicada na The Economist 05 Ago 2005
País
aumenta pressão para que
China cumpra acordo
Governo exige compra de mais aviões da Embraer
Sergio Leo
Dois
compromissos assumidos pelo governo chinês, no ano
passado, são as principais exigências do
governo brasileiro para regulamentar o reconhecimento
da China como economia de mercado. O reconhecimento, quando
regulamentado, irá dificultar a aplicação
de barreiras aos produtos chineses por acusação
de dumping (venda abaixo do preço normal). O Brasil
cobra o credenciamento de maior número de frigoríficos
para exportação de carne para aquele país,
e quer que se concretize a promessa de compra de mais
aviões da fábrica
montada pela Embraer na China, associada a uma empresa
local.
Na
sexta-feira, uma missão chefiada pelo vice-presidente
José Alencar viajará à China, para
conversas com o governo local sobre os projetos de cooperação
entre os dois países. Os brasileiros já
sabem que ouvirão apelos do governo chinês
para acelerar a regulamentação do reconhecimento
do país como economia de mercado, arrancado do
governo Lula durante a visita do primeiro-ministro Hu
Jintao ao Brasil, no fim de 2004, mas até hoje
sem validade prática.
Em
fevereiro, os chineses enviaram ao Ministério do
Desenvolvimento um relatório com a lista de todos
os compromissos assumidos e um balanço de sua realização.
Os chineses alegam que já credenciaram frigoríficos
brasileiros para a venda de carne à China. É
verdade, mas foram apenas cinco, dois para carne de frango
e três de carne bovina. Uma missão chinesa
investiga, no país, a possibilidade de ampliar
a lista, exigência do governo brasileiro, que encaminhou
à China mais de cem nomes de candidatos ao credenciamento,
relação reduzida a 52 pelos chineses.
No
caso da Embraer, o compromisso de comprar dez aviões
anuais foi um dos fatores que levaram a empresa a instalar-se
na China. A relutância chinesa em efetuar as compras
levou o governo brasileiro a incluir um anexo para cuidar
do assunto no memorando de entendimentos assinado em 2004.
Os
chineses argumentam que, após comprar cinco aeronaves
em 2005, a Eastern China Airlines Wuhan, uma companhia
regional, confirmou a compra de mais cinco em janeiro.
O governo e a Embraer respondem que o compromisso era
de, em média, dez aviões anuais, e que isso
foi incluído no plano de negócios da companhia.
No início do ano, o jornal "China
Daily" chegou a noticiar que a Embraer, por falta
de encomendas, pensava em encerrar as atividades na China,
o que foi negado pela companhia.
A
concretização, para efeitos práticos,
do reconhecimento da China como economia de mercado não
será discutida em profundidade por Alencar. Uma
outra missão, criada para acompanhar os resultados
do memorando bilateral de entendimento, acompanhará
o vice-presidente e permanecerá na China para discutir
com as autoridades chinesas. Outros compromissos farão
parte das discussões, como a intenção
da China de participar da concorrência para a continuação
da ferrovia Norte-Sul, e o projeto de atuação
na construção do gasoduto do Nordeste.
Enquanto
os dois governos não chegam a acordo sobre o cumprimento
dos compromissos, o reconhecimento da China como economia
de mercado permanece como manifestação política,
sem efeito sobre os processos anti-dumping movidos contra
os chineses. Produtores brasileiros afetados pelas importações
chinesas já anunciaram a intenção
de entrar com pedidos de processos contra as importações
da China.
Enquanto
não há o reconhecimento prático do
país como economia de mercado, os fabricantes brasileiros
podem usar dados de outros países como parâmetro
para provar que os produtos chineses não estão
sendo vendidos por preços de mercado. Após
o reconhecimento, será necessário buscar
esses dados no pouco transparente mercado chinês.