
Charge publicada na The Economist 05 Ago 2005
Falta
defender o interesse nacional
RUBENS BARBOSA
Presidente do Conselho de Comércio Exterior
da
Federação das Indústrias do Estado
de São Paulo (Fiesp).
A
empresa chinesa Lifan Group está interessada na compra
da companhia brasileira Tritec Motors, criada em 1998, no
Paraná, com um investimento de US$ 500 milhões
em uma associação entre a Daimler-Chrysler
e a BMW.
Apesar
dos desmentidos de praxe, as conversações
estão em curso e viraram notícia na imprensa
internacional (Xangai Daily e New York
Times) e nacional (Estado e Gazeta
Mercantil).
A
transação não envolve apenas uma simples
operação de compra e venda. Trata-se da aquisição
de uma sofisticada empresa brasileira, produtora de motores
para automóveis, de alta tecnologia, para exportação,
com o objetivo de ser desmontada e transferida para a China.
Essa
negociação se insere no movimento recente
de aquisições e fusões no mundo desenvolvido,
inclusive por empresas de países em desenvolvimento,
e nos países emergentes mais industrializados.
A
série de aquisições está gerando
forte reação nos países onde estão
localizadas as empresas cobiçadas. Nos EUA, o Congresso,
baseado em considerações de segurança
nacional, evitou que a operação de seis dos
principais portos, entre eles NY e Miami, passem para o
controle da companhia árabe, que recentemente adquiriu
a P&O empresa britânica. A França anunciou
que irá proteger 11 setores contra aquisições
externas; na Espanha, na Alemanha, na Inglaterra e na Itália,
os governos também reagem imediatamente. Nos países
em que a legislação existente não estabelece
restrições à livre circulação
de capital, decretos do Executivo e projetos de lei nos
parlamentos estão sendo elaborados.
Nesse
contexto, observando as medidas que estão sendo tomadas
nestes dias pelos países que se apresentam como arautos
e baluartes do livre comércio, não deixa de
surpreender a reação do governo brasileiro
à tentativa pelo governo chinês de adquirir
a empresa Tritec do Paraná.
O
governo brasileiro não pode interferir. Será
uma grande perda para o Brasil, mas se trata de uma transação
entre empresas privadas. É difícil que haja
qualquer interferência do governo, teria dito
à imprensa uma autoridade ministerial governamental,
aparentemente despreocupada com as implicações
políticas, econômicas e sociais relacionadas
à transação.
Por
que a venda? Em decorrência da perda de competividade
no Brasil pela apreciação do câmbio
e pela alta carga tributária?
Do
ponto de vista socioeconômico, como ficará
a perda de cerca de 500 empregos diretos, de 75% de componentes
nacionais vendidos para a fabricação de motores
e de US$ 250 mi de exportação dessa empresa?
E os incentivos fiscais e as obras de infra-estrutura que
certamente foram oferecidos pelo governo do estado para
a fábrica se estabelecer no Paraná? Esses
incentivos serão devolvidos ao governo se a indústria
for transplantada para a China?
Do
ângulo chinês, segundo se noticia, os entendimentos
estão sendo conduzidos não pela direção
da empresa Lifan, mas por um alto funcionário do
Partido Comunista Chinês, o que mostra o significativo
interesse estratégico da aquisição
e o pragmatismo de Beijin
O
fato de a negociação estar sendo conduzida
pelo Partido Comunista Chinês tornaria mais fácil
uma interferência do governo brasileiro. A regulamentação
das aquisições a fim de resguardar o interesse
nacional é necessária e urgente. No caso da
empresa do Paraná não se trata de proibição
da operação comercial, perfeitamente legítima
no contexto do livre comércio e que poderá
ser feita de acordo com as regras vigentes no país,
nem de manifestação de nacionalismo exacerbado,
como é o caso da Espanha contra empresa alemã,
ou da França contra empresa italiana, mas pura e
simplesmente de contenção de dano.
Há,
sim, muita coisa a ser feita para preservar o emprego e
o interesse nacional, basta ver o que os EUA e a Europa
estão fazendo para defender sua indústria
e seus interesses. Caso a operação se concretize,
o governo deve buscar impedir legalmente o desmonte e a
transferência da fábrica para a China. Na viagem
da próxima semana à China, o vice-presidente
José Alencar poderia iniciar a reação
do governo brasileiro.
Com
a palavra o governo (federal e estadual) e o Congresso no
sentido de defender o interesse nacional, não em
teoria, como muitos gostam de fazer, mas na prática,
o que é sempre mais difícil.
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