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Jornal
inglês ataca a pecuária brasileira
Artigo de produtor britânico
no "Telegraph" alega que criadores usam trabalho
escravo e desmatam floresta; embaixada protesta
( Veja o artigo original em inglês
Link)
Fábio
Victor
de Londres
Um
relatório produzido por um fazendeiro britânico
e que será publicado neste ano no Reino Unido afirma
que boa parte da carne bovina consumida no país vem
de propriedades brasileiras que usam mão-de-obra
escrava, acorrentam trabalhadores a árvores e foram
desmatadas para dar lugar a pasto.
O
influente diário londrino "Daily Telegraph"
publicou ontem reportagem (sob o título "Carne
barata brasileira importada é "subsidiada por
trabalho escravo" ") em que o autor do estudo,
o produtor rural David Ismail, descreve as condições
que diz ter encontrado em fazendas do "Brasil central",
sem especificar que Estados foram visitados.
"Fiquei
chocado quando descobri como o crescimento [das exportações]
da carne brasileira para a Europa estava causando tantos
problemas no Brasil", disse.
O
fazendeiro afirmou que, em áreas remotas onde a floresta
está sendo derrubada para dar lugar a pasto, verificou
relações entre empregados e patrões
"similares às piores cenas do apartheid".
Segundo
o relatório, nesses lugares trabalhadores analfabetos
e sem-teto, em sua maioria do Nordeste, não têm
acesso à assistência médica, são
acorrentados a árvores ou até baleados. Obrigados
a desmatar a floresta, não recebem salário,
pois as despesas que têm com alimentação
e acomodação, pagas aos empregadores, superam
seus ganhos, alegou.
Segundo
a reportagem, a viagem de Ismail foi bancada por uma bolsa
da fundação Nuffield.
Críticas
à carne bovina brasileira têm aparecido com
freqüência na mídia britânica, na
esteira do aumento nas exportações brasileiras.
O Brasil é o maior produtor do mundo e nos últimos
anos registrou recordes de crescimento das exportações
-interrompido após o surgimento de focos de febre
aftosa em Mato Grosso do Sul, em outubro, que provocou o
embargo de vários países, Reino Unido incluído,
à carne brasileira.
A
reincidência da aftosa deu mais munição
aos produtores rurais britânicos, que promovem manifestações
sistemáticas contra a compra de carne brasileira.
O
Reino Unido importa 35% da carne que consome. Em 2004, comprou
35 mil toneladas do produto ao Brasil, seu maior fornecedor
fora da União Européia.
Também
em outubro, após o surgimento dos novos focos, o
ativista Georges Monbiot escreveu um artigo no diário
"Guardian" sob o título "O preço
da carne barata: doença, desmatamento, escravidão
e assassinato", com argumentos semelhantes aos descritos
por Ismail.
Na
ocasião, o embaixador brasileiro no Reino Unido,
José Maurício Bustani, publicou uma resposta
no mesmo jornal a Monbiot, afirmando ser enganosa a associação
do desmatamento ao aumento da exportação de
carne (pois a maior parte da produção está
concentrada fora da Amazônia) e que o problema do
trabalho escravo é bem menor do que o alardeado e
tem sido combatido pelo governo brasileiro.
Deste
vez, a reação da Embaixada Brasileira em Londres
foi tão ou mais furiosa. Oficialmente, os diplomatas
atribuem o conteúdo do relatório publicado
pelo "Telegraph" à desinformação.
Mas a Folha apurou que a reportagem foi interpretada como
uma peça de propaganda dos produtores britânicos,
que estariam assustados com o que foi definido por um deles
como "as conquistas e a posição forte
do Brasil na OMC [para reduzir os subsídios agrícolas
dos países ricos]".
Diplomatas
também se queixaram que o "Telegraph" distorceu
declarações do chefe do setor de promoção
comercial da embaixada, Alberto Fonseca. Segundo a reportagem,
ele declarou ser impossível garantir que a carne
vinda de áreas com floresta derrubada por escravos
não estivesse chegando ao Reino Unido, algo que ele
afirma não ter dito.
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