COBERTURA ESPECIAL - Brasil - EUA - Defesa

12 de Dezembro, 2016 - 12:00 ( Brasília )

Exclusivo – Entrevista Embaixadora Americana Liliana Ayalde

A diplomata Americana Liliana Ayalde enfrentou enormes desafios. Substituir um peso pesado do Departamento de Estado, o Emb. Thomas Shannon, na Embaixada Americana, em Brasília, e recuperar a relação bilateral Brasil-EUA do seu mais baixo ponto.




Entrevista concedida a
Nelson F Düring
Editor-Chefe DefesaNet

 
A Diplomata Liliana Ayalde enfrentou enormes desafios ao chegar no Brasil. A começar por substituir um “peso pesado” do Departamento de Estado, o Emb. Thomas Shannon, no posto de Embaixadora Americana, em Brasília DF, e encontrar o ponto mais baixo na relação bilateral Brasil-EUA.

Também encontrar pela frente, oportunidades únicas, que soube explorar de forma excepcional para reconstruir as pontes com o Governo Brasileiro: os Grandes Eventos.

Em dado momento, com os problemas de continuidade do Governo Brasileiro, a Embaixadora Ayalde assumiu a liderança, na discussão de assuntos críticos (informações, colaboração militar, forças especiais, etc.), para a segurança dos grandes eventos.

Isto sempre com seu estilo suave e até meigo em conduzir as negociações.

Consta que ao ser comunicada sobre a opção decisão do governo brasileiro pelo caça sueco Gripen NG, preterindo o americano Boeing F/A18-E/F Super Hornet, talvez como rescaldo do affair  Snowden, ela reuniu os membros da Embaixada e disse: “O caça sueco tem muitas empresas americanas como fornecedoras, portanto também vencemos”. Esta ótica e forma de atuar foi o seu ponto forte.   

No mês de dezembro termina sua missão, à frente da Embaixada Americana, em Brasilía DF, após 3 anos e 3 meses, como representante do Tio Sam no Brasil.

Em princípio deverá ter um posto no Departamento de Estado, em Washington DC., no seu retorno.

Leia a entrevista concedida à DefesaNet com exclusividade
, na sede da Embaixada Americana. 

DefesaNet: Como foi o início da sua missão no Brasil?

Embaixadora Liliana Ayalde: Foram 3 anos e 3 meses bastante intensos. Quando eu cheguei (16SET2013), um dia depois os presidentes Barack Obama e Dilma Rousseff falaram pelo telefone, e ela decidiu adiar a visita aos Estados Unidos. Com este episódio, dizia-se ser o pior momento da relação bilateral.

DefesaNet: Isso foi na sua chegada? Uma boa recepção....

Embaixadora Liliana Ayalde: Exatamente. O meu predecessor saiu num momento muito tenso (Embaixador. Thomas A. Shannon, Jr.). Eu cheguei quando a relação política bilateral estava bastante constrangida, tensa, estressada. A relação governo a governo é super importante, mas o que também é muito importante é a relação entre as pessoas: entre o brasileiro e o americano e as instituições, que trabalham juntas de longa data. Temos militares que trocavam experiências, cientistas que trabalharam juntos para encontrar soluções para desafios de saúde pública, turistas, que viajavam aqui e lá para conhecer o nosso país - comida, cultura, cinema.

O fato dos dois países terem tanta coisa em comum é muito importante para termos uma base. Eu achei que trabalhar sobre isso seria muito relevante. Porque neste momento, politicamente, tinha um processo eleitoral (2014), então tínhamos que ser realistas também. Naquela ocasião, uma relação muito próxima, talvez não fosse adequado em um momento imediatamente após o Caso  Snowden.

Trabalhei sobre isso, um trabalho meticuloso, mantendo uma agenda de trabalho ampla, que capturava a essência da embaixada aqui no Brasil. Isso incluiu o trabalho com a sociedade brasileira, falar sobre a Embaixada Americana, o trabalho na educação, do inglês com os jovens também era importante. A medida que a relação bilateral se normalizava.

Em 2015, com a visita oficial da presidente Dilma Rousseff à Washington DC e a reunião dos dois presidentes, finalmente conseguimos dizer: bom, agora vamos avançar com uma agenda de trabalho, com temas de: energia, mudanças climáticas, assuntos da área de defesa e comércio.

Mesmo com situações de muita turbulência, o fato de termos uma agenda, permitiu-nos trabalhar. Ainda com muitos percalços: da situação fiscal bem complicada, o processo político doméstico continuava complicando a situação, o impeachment, mas a agenda era além de uma pessoa, além de um momento, a agenda era para o bem dos dois países.

Nós tínhamos a agenda mutuamente acordada e isso nos deu a oportunidade de avançarmos bastante nos temas sobre comércio, defesa, etc. Hoje temos uma agenda muito rica, que engloba inúmeros temas, por mais que a situação continue difícil economicamente. Estamos fazendo um balanço dos momentos e avaliando a sorte de que tivemos nas oportunidades de reorientar a relação. Neste momento, temos muito trabalho, com resultados concretos e avanços muito positivos no que se refere à relação bilateral.




A Embaixadora Liliana Ayalde, na recepção a oficiais da Marinha do
Brasil e US Navy, a bordo do  USS America (LHA 6), em 07 Agosto 2014.
Foto - U.S. Navy



DefesaNet: Embaixadora, sobre a área de defesa e segurança: a senhora conseguiu reconstruir laços, que estavam bastante danificados. Sabe-se, informalmente, que foi muito importante a ação dos Estados Unidos em garantir uma série de apoios para os Jogos Olímpicos RIO2016. A Senhora pode detalhar um pouco, como foi a construção desse apoio?

Embaixadora Liliana Ayalde:  Esse é um dos highlights (pontos fortes), da minha estada aqui. Primeiro, coincidiu com dois megaeventos (Copa do Mundo e JO RIO2016). Na realidade foram mais que dois, pois acho importante a participação nos Jogos Indígenas, onde tivemos a oportunidade de participar. Trouxemos uma delegação dos nossos povos indígenas também.

O Brasil já tinha muita experiência acumulada com vários grandes eventos. Com isso, vimos a oportunidade de compartilhar inúmeras experiências de como nós, Estados Unidos, gerenciamos eventos, que envolvam muitas pessoas, nos quais precisamos de atenção e cuidados especiais. Colaboramos levando pessoas para os Estados Unidos, para acompanharem, por exemplo, o caso da Maratona de Boston – o que aconteceu lá, como a situação ocorreu, quais as atitudes tomadas – e como gerenciamos o Super Bowl.


Embaixadora Liliana Ayalde e indígenas brasileiros nos Jogos Indígenas, que teve a participação de povos indígenas americanso - Foto Embaixada Americana



Realizamos a capacitação, troca de experiências, troca de informações e isso foi aumentando à medida que os jogos Olímpicos aproximavam-se. Começamos com a Copa do Mundo, e com o passar do tempo envolvendo todos os agentes que contribuem para a segurança: militares, comunidade de inteligência, etc. Todos trabalhavam com o mesmo foco: queríamos compartilhar o que conhecíamos.  

O mundo hoje é diferente, o que aconteceu no período dos preparativos dos JO RIO2016, em Nice (França), em Orlando(EUA), demonstraram que atentados podem ocorrer em qualquer lugar. O país também já tem uma legislação antiterrorista. Isso mostrava que as autoridades brasileiras tomavam algumas importantes ações. Acompanhamos tudo isso usando a nossa experiência para que pudesse ser útil para as autoridades brasileiras. Trabalhamos com as forças militares, com as polícias, com a SESGE (Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos- Ministério da Justiça) e outros órgãos de forma muito próxima. Foi uma experiência muito positiva.

As autoridades brasileiras se comprometeram com a segurança. Os turistas, fãs e atletas vieram aos milhares e ouvi muitos relatos de que ficaram contentes com a receptividade e hospitalidade do brasileiro. Todo esse trabalho levou a uma experiência positiva e gostaríamos de continuar avaliando onde podemos reaproveitar essa parceria, pois os jogos terminaram, mas as ameaças continuam a existir no mundo. E é sempre importante analisar as novas ameaças que surgem.

DefesaNet: Não temos um grande evento próximo, mas o que a Sra Embaixadora está prevendo para ações com o Brasil nas áreas de defesa e segurança?

Embaixadora Liliana Ayalde: Neste momento, estamos trabalhando em conjunto com o segmento da indústria de defesa. Temos muito interesse na área militar, tanto nos setores oficiais dos dois países, quanto no privado, também nos dois lados, As indústrias de defesa procuram projetos conjuntos. Assim podemos ligar as redes (networks), porque a tecnologia é sempre crítica para obter essa ligação.

Há outros trabalhos que podemos fazer em conjunto como os trabalhos de detecção de IEDs (Artefatos Explosivos Improvisados), para missões de risco  “Risky Missions”. Devemos trabalhar em conjunto para sermos mais efetivos e pontuais. Há várias tecnologias, que podem ser trabalhadas em conjunto pelos dois países.

DefesaNet: Foi dada a partida do Diálogo da Indústria de Defesa (Defense Industry Dialogue), em  30 setembro. Como foi a receptividade e se já gerou algo concreto neste período?

Embaixadora Liliana Ayalde:  O resultado foi “Beyond Expectations” (Além da Expectativa). Tivemos uma grande delegação dos Estados Unidos, tanto de governo, como das indústrias.



O Ministro da Defesa Raul Jungmann e a Embaixadora Liliana Ayalde na
entrevista coletiva, abertura do evento BR-USA - Defense Industry Day,
30 Setembro 2016. Foto Agência Brasil



DefesaNet: Estavam presentes representantes de todos os grandes players americanos da área de defesa: Boeing, LockheedMartin, RockwellCollins e outros.

Embaixadora Liliana Ayalde: Exatamente, e também da parte do Brasil, sem contar as empresas menores. O interessante é que excedeu o que tínhamos pensado. Também foi um trabalho interagências, tanto do lado americano como pelo lado brasileiro. Foi uma prioridade de parte do Brasil incluindo o Ministério da Defesa, do Ministério da Indústria e Comércio e das Relações Exteriores (Itamaraty), que foram os anfitriões.

Após o evento temos trabalhado para concluir e definir os acordos. Existem 4 áreas de trabalho que foram priorizadas com o foco de fortalecer o intercâmbio e facilitar, por exemplo, os acordos que ainda precisam ser finalizados e alinhados para poder fazer o intercâmbio de tecnologias. Agora estamos nos preparando para conhecermos mais as nossas limitações e as da indústria brasileira referente às legislações. Temos que entender o Buy American Act e a implicação da legislação brasileira e as suas limitações. Há outro grupo trabalhando sobre transferências de tecnologias, de reconhecimento mútuo de certificações. Há 4 áreas de trabalho muito específicas.

O que estamos avaliando agora é aproveitar outros eventos que sirvam para criar a plataforma onde as nossas indústrias possam se sentar em conjunto.

Por exemplo, a LAAD, que está programada para abril do próximo ano. Queremos que as indústrias dos dois lados aproveitem a oportunidade. Estamos formando a delegação dos Estados Unidos e o participação do Brasil também.

Há eventos muito concretos sobre temas que a indústria está procurando. Eventualmente podemos chegar a um projeto em conjunto, ou ainda, vários projetos conjuntos. Isso está avançando com muito interesse dos dois lados, tanto na área da indústria dos dois países e também por parte dos governos.

DefesaNet: Para a LAAD, há ações mais definidas?

Embaixadora Liliana Ayalde: Vai depender das demandas da indústria brasileira com a coordenação do Ministério de Defesa, através da SEPROD – que estão trabalhando nisso – e igualmente do nosso lado, estamos trabalhando em conjunto com o SOUTHCOM (Nota: O Almirante Kurt W. Tidd visitou Brasília nos primeiros dias de Dezembro), que vê o tema de ciência e tecnologia buscando interesses e analisando os obstáculos. Então ai definiremos e traremos os especialistas, que possam falar sobre esses temas, para entendê-lo melhor e quais seriam os caminhos a seguir. 



A Embaixadora Ayalde reunida dom o Comando da Aeronáutica,
Brigadeiro Rossato e  oficiais-generais. Foto - CECOMSAER



DefesaNet: E após 3 anos, e três meses recuperando o diálogo, Brasil e Estados Unidos, que andou tão ruim. Quais são as suas palavras finais analisando a sua gestão?

Embaixadora Liliana Ayalde: Tem sido um período extremamente dinâmico. Eu aprendi muito sobre o Brasil. É um povo maravilhoso e com muita diversidade. Consegui viajar, não deu tempo para conhecer mais, mas tentei viajar a cada mês para conhecer uma parte país. Conheci pessoas muito interessantes que não vou esquecer e pode ser um estudante como, por exemplo, os jovens embaixadores que tive a oportunidade de encontra-los e dizer: vocês ganharam a oportunidade de viajar aos Estados Unidos. Pessoas que nunca tinham imaginado que viajariam, mas falavam inglês, faziam trabalho comunitário. Também cientistas que estão pesquisando o zika, vacinas para a dengue. E autoridades que estão comprometidas em melhorar a prosperidade do país. É tão diverso que é difícil resumir, porque como o nosso país que é também continental e tem tanta diversidade pela mesma natureza de suas imigrações. E compartilhamos muitos valores e princípios.

Eu saio vendo que o Brasil é muito mais parecido com os Estados Unidos do que eu tinha pensado. Isso faz com que tenhamos um patamar muito mais próximos, comparando com outros países. Por isso, sei que vamos muito mais longe na nossa relação.

 




_____________________________

 
O Editor agradece a colaboração e atenção do Staff de Comunicação da Embaixada Americana, em Brasília DF: Sra. Marília A. Araujo, Sra Arlissa M. Reynolds, Sra. Abigail L. Dressel e também da Sra. Gabriela de Campos Fontenele
.


Matérias Relacionadas

BR-USA - Defense Industry Day DefesaNet Outubro 2016 Link

Artigo com dados sobre o Defense Industry Day e o Sumário da  DID Letter of Intent (LOI).

EUA e Brasil, relação forte e profícua Folha de São Paulo Link

Artigo de despedida do Brasil escrito pela Embaixadora Liliana Ayalde, publicado folha de São Paulo, 11DEZ2016.



Outras coberturas especiais


Helibras

Última atualização 20 FEV, 11:15

MAIS LIDAS

Brasil - EUA