COBERTURA ESPECIAL - Brasil - EUA - Aviação

23 de Novembro, 2015 - 09:50 ( Brasília )

Controladores da FAB fazem intercâmbio com US Navy


"É uma Base Aérea e um CINDACTA (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo) junto". É assim que o Sargento Ismael Trindade, da Força Aérea Brasileira (FAB), descreve o porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) USS George Washington. Ao lado do Suboficial Rossi Nogueira, ele embarcou no navio no último dia 12 e até a próxima segunda-feira (dia 23/11) irá trabalhar lado a lado com os militares norte-americanos durante o exercício UNITAS.

Os dois são controladores de tráfego aéreo e estão a bordo para ajudar na coordenação das missões de treinamento realizadas entre os caças da FAB e da US Navy. Ambos foram selecionados pelo nível de inglês e também pela experiência na condução dos combates além do alcance visual, conhecidos pela sigla inglesa (BVR - Beyond Visual Range). "A integração é, sem dúvida, o maior aprendizado nesses dias", resume o Sargento Ismael.

Segundo o Suboficial Rossi, os dois brasileiros se adaptaram bem à operação. "Não temos nada a dever em termos de combate BVR. Na parte de controle, as táticas e as técnicas são praticamente as mesmas", explica. Para ele, um fator positivo do intercâmbio é a intensidade: por dia, são cerca de 75 decolagens diárias, tanto para exercícios com a FAB, quanto para a parte aeronaval do exercício UNITAS, ao lado da Marinha do Brasil e de outros países.

Cidade flutuante

Se o trabalho tem corrido bem, a vida dos dois brasileiros não foi fácil nos primeiros dias. "São mais de 20 andares. É muito fácil se perder!", diz o Sargento Ismael. Já o Suboficial Rossi tem um elogio: "A comida é espetacular ".

Os dois brasileiros se integraram a uma tripulação de cinco mil pessoas, duas mil somente para conduzir as operações aéreas. O USS George Washington leva um grupo aéreo composto por aproximadamente 40 caças F-18E/F Super Hornet, EA-18G Growler e F-18C/D Hornet, além de aviões-radar E-2 Hawkeye, aeronaves de transporte C-2 Greyhound e helicópteros HH-60 e SH-60 Sea Hawk.

Com peso máximo de deslocamento de 97 mil toneladas, o USS George Washington tem 332 metros de comprimento e 76 metros de largura máxima.  O sistema de propulsão é formado por quatro hélices, com 6,70 metros de diâmetro e peso 30 toneladas cada. O porta-aviões tira sua propulsão de dois reatores nucleares e leva também um máximo de 3,5 milhões de galões de combustível de aviação a bordo, a ser utilizado por uma frota de até 80 aeronaves.

Em atividade desde 1992, o USS George Washington estava no Japão até maio desde ano, quando começou sua rota com destino a costa atlântica dos Estados Unidos, onde irá passar por uma revisão geral e reabastecimento de combustível nuclear. No caminho, realiza exercícios com nações amigas, como a UNITAS.

Desvendando o USS George Washington, o porta-aviões norte-americano¹

Você deve estar acompanhando que a Força Aérea Brasileira e a US Navy (a Marinha dos Estados Unidos) estão em pleno treinamento de combate aéreo, o Exercício UNITAS, que acontece até o próximo dia 22.

Pois bem, a operação acontece durante a passagem pela costa brasileira do porta-aviões norte-americano USS George Washington, que está em deslocamento do Sul para o Sudeste do Brasil, contornado o continente Sul-Americano durante viagem do Japão até a costa leste dos Estados Unidos.

Como isso não acontece todo dia, o Tenente Jornalista Humberto - na cobertura do Exercício - veio hoje por aqui para nos contar como é a experiência de conhecer o porta-aviões. E, acredite, é uma experiência para a vida inteira! Olha só, duvido que você não fique aqui curtindo até o último parágrafo... Aperte os cintos, porque a viagem é instável e emocionante.

Quando alguém te diz isso com um imenso sorriso nos lábios, é certeza de que a coisa vai ser tensa. E foi. Estou falando de decolar de um porta-aviões, algo que vivi poucas horas atrás e vim aqui no blog compartilhar com vocês.

Mesmo que o porta-aviões seja ENORME, a pista simplesmente não é grande o bastante para a decolagem. Então existe um equipamento cujo nome explica a função: catapulta. Vamos de 0 a 300 km/h em apenas três segundos. Desculpa aí os fãs da Fórmula 1, mas ser catapultado é muito mais radical.

É tão radical que esses camaradas fazem graça. São mecânicos do VRC-30, os "Providers", equipados com o avião de transporte C-2 Greyhond, capaz de levar até 26 passageiros (a maioria, assustados) direto para uma pista de pouso que flutua (e balança ao sabor das ondas).

Não é um voo de primeira classe. Você usa um capacete apertado, um cinto de segurança apertado e uma viseira que aperta os óculos (para quem usa). A cadeira não reclina: cadeira não, você vai sentado num verdadeiro forte de metal. Pra complicar mais um pouquinho, todas as "poltronas" são voltadas para trás do avião, e não tem janelinha: a única coisa que resta fazer é sentir cada movimento e tentar adivinhar o que vai acontecer, além de, claro, ouvir as indicações dos nossos amigos.

A dica para a decolagem é a repetição de três gritos: "Here we go! Here we go! Here we go!". Mas não é dito assim, com tanta disciplina. É algo do tipo "Here we go, u-huuuu!!". Parece torcida de futebol. Aí o motor acelera, o avião se treme todo sem sair do lugar e, de repente, você está completamente imobilizado pela força que te joga contra o cinto de segurança.

Dizem que pousar e decolar a bordo de porta-aviões é um "acidente controlado". Claro que não é: mas a posição é a mesma. Sabe aquelas "posições de impacto" que vemos nas instruções de segurança dos aviões comerciais? Pois é exatamente assim que a gente fica no pouso e na decolagem de um C-2 a bordo.

A única coisa que dava uma certa confiança aos passageiros, a maioria brasileiros, fotógrafos civis e militares, era o fato de que algumas horas antes havíamos feito o pouso a bordo. A emoção é parecida. O grito muda: "Landing! Landing! Landing!" (com as mãos girando para cima, como quando a torcida tira a camisa nos estádios). E você não é jogado contra o cinto, e sim contra a cadeira.

Desculpa, leitor, se eu não tenho fotos dos momentos exatos da decolagem e do pouso, mas não pode fazer foto. Nada contra as câmeras: é porque ninguém iria conseguir segurar qualquer coisa em meio a uma aceleração tão grande. Talvez o Hulk conseguisse.

Aliás, deixa eu apresentar direito. Esse é o CVN-73 George Washington. "CV" é a sigla da Marinha dos Estados Unidos para "porta-aviões" e o N revela ser de propulsão nuclear. Sim: mais que um navio, esse colosso de 332 metros de comprimento (o Titanic tinha 269) e 60 mil toneladas só de estrutura de aço tem como fonte de energia dois reatores nucleares.

O George Washington até leva 3,5 milhões de galões de combustível, mas é para suprir a frota de 80 aeronaves a bordo (calma, vamos já falar dos aviões!). A força para mover as quatro hélices de 6,70 metros e mais de 30 toneladas, cada uma, vem dos dois reatores, que também mantêm em funcionamento uma verdadeira cidade flutuante, com 5 mil membros da tripulação, cerca de 2 mil só para pilotar e cuidar das aeronaves.

Não é por acaso que a nossa Marinha do Brasil investe tanto no seu projeto de submarino a propulsão nuclear. No George Washington, a força vinda do urânio permite deslocar um peso máximo de 97 mil toneladas a até 55 km/h. Pode parecer pouco, mas em um dia eles conseguem se deslocar por mais de 800 km. E só precisa reabastecer de 20 em 20 anos.

O problema é que não dá para fazer isso em qualquer porto. Aí o George Washington, que em maio estava lá no Japão, precisa ir até a Virgínia, na costa atlântica dos Estados Unidos, para reabastecer. Como o porta-aviões é grande demais para o Canal do Panamá, e já sabe: o caminho que resta é dar uma volta inteirinha no continente americano.

É durante essa rota que, neste ano, o exercício internacional UNITAS acontece com a participação do George Washington e, principalmente, de suas aeronaves.

Desde manhã cedo até o fim da tarde, as quatro catapultas são intensamente usadas por cerca de 40 caças F-18. A principal missão deles é realizar o combate aéreo simulado contra os F-5 da Força Aérea Brasileira, uma história que você conhece bem acompanhando o site da FAB - e pode começar conferindo o vídeo aí embaixo. Também há exercícios com as marinhas do Brasil, Chile, Peru, México e Reino Unido.



Nessa missão, eles têm a bordo os C-2 Greyhound, os aviões-radar E-2 Hawkeye e os helicópteros HH-60 e SH-60 Sea Hawk, a versão naval do nosso H-60 Black Hawk, usados aqui para missões como combate a submarinos e navios. E os caças? Bem, a bordo do George Washington encontramos os F-18 Super Hornet.

Há os F-18E, para um piloto, e F-18F, para dois. Além das missões de combate aéreo, ataque e reconhecimento, os F-18 também cumprem uma missão interessante: reabastecimento em voo. Na falta de um avião de grande porte, como o KC-130 Hércules, os F-18 podem, eles mesmos, reabastecerem seus companheiros. Para isso decolam com um tanque de combustível extra com uma pequena hélice na frente, que serve para bombear o líquido pela mangueira retrátil. Observei que depois de alguns F-18 decolaram para os combates, mais um seguiu nessa configuração de avião-tanque só para apoiar seus companheiros.

A bordo também é possível encontrar o EF-18G "Growler", uma versão do caça especializada em guerra eletrônica. Por fim, a ala aérea é completada pelos F-18C (um piloto) e F-18D (dois pilotos), ambos da geração anterior, chamada de Hornet. Os F-18C/D estão em operação nos Estados Unidos desde 1987, e os F-18E/F desde 1999. Para quem está a bordo do George Washington, não faz muita diferença: quando qualquer um deles decola, o piso treme e o ronco das turbinas é alto (mesmo para quem usa o protetor auricular).

Falando em operações aéreas, uma coisa que chama a atenção a bordo é o "balé muito bem coordenado" (como disse um militar deles) das equipes de convés. Eles vestem várias cores, de acordo com a função: amarelo movimenta aeronaves, vermelho cuida do armamento, roxo reabastece, branco cuida da segurança... É realmente bem interessante ver como todos sabem exatamente o que fazem, e também a preocupação de todos com a segurança. Cada linha no convés é considerada um muro: não pode passar de jeito nenhum! Se você colocar só a ponta de um pé onde não deveria, em segundos se materializa alguém do teu lado para apontar a falta.

Mesmo com essas roupas pesadas, cheias de proteção, a gente consegue perceber uma coisa bem interessante: a presença de mulheres. Simplesmente não há função a bordo que não possa ser feita por mulheres. Tem mulher no comando de aeronaves? Tem. Tem mulher instalando armamento? Tem. Cuidando do combustível? Também.

Aliás, o comandante do porta-aviões é o Captain Timothy Kuehhas. Mas a participação da Marinha dos Estados Unidos na UNITAS vai além do George Washington em si. Ele manda no navio, mas acima dele, hierarquicamente, está a Almirante Lisa Franchetti. Os quatro navios dos Estados Unidos na UNITAS, além das aeronaves, estão sob responsabilidade dela.

Natural do estado de Nova Iorque, a Almirante se formou em jornalismo e ingressou nas Forças Armadas inicialmente como militar da reserva. Daí foi selecionada para a chamada "comunidade de guerra de superfície" e fez uma longa carreira, incluindo o comando do destróier USS Ross. A bordo do George Washington, participou das operações de guerra no Afeganistão.

Conversei com a Almirante Lisa Franchetti. Ela elogiou muito o trabalho dos brasileiros e disse que a UNITAS é uma imensa oportunidade para trocar conhecimentos. Disse ainda ser fundamental a participação da Força Aérea Brasileira nesse exercício, além de se mostrar bem feliz com a ideia de poder desembarcar no Brasil.

Brasil, aliás, muito bem representado no George Washington. Em meio a tantos sotaques de todas as partes dos Estados Unidos, ouvimos a voz cantada do Rio Grande do Norte. É Amanda da Silva (sobrenome mais brasileiro, impossível!), uma potiguar de 20 anos de idade, 14 deles em sua nova nação. Também conhecemos por lá o Lucimar dos Santos (100% brasileiro!), um paulista corinthiano, de 36 anos que, aos cinco, mudou de país.

A aproximadamente 200 quilômetros do litoral norte do Rio Grande do Sul, o porta-aviões nuclear George Washington trazia ainda uma mostra da amizade com o Brasil. Em meio às decolagens e pousos dos caças, no mastro do navio, tremulava uma linda bandeira. As cores dela? Verde, amarelo, azul e branco.



¹ com Força Aérea Blog: forcaaereablog.aer.mil.br