COBERTURA ESPECIAL - Brasil - EUA - Geopolítica

02 de Junho, 2013 - 14:30 ( Brasília )

BR- USA - Pronunciamentos VPr TEMER e BIDEN




Pronunciamento dos vice-presidentes Biden e Temer em Brasília
Brasília, 31 de maio de 2013


CASA BRANCA
Gabinete do Vice-Presidente

Itamaraty
Brasília, Brasil
13h08 (hora local)

VICE-PRESIDENTE TEMER: Quero dizer que é um grande prazer e uma grande satisfação que o Brasil tem e o nosso governo e eu, particularmente, temos todos em receber o vice-presidente Joe Biden.

Quero, num plano mais pessoal, dizer que a tempos atrás, estando como representante do Brasil na posse do presidente do México, tive a oportunidade, para não dizer a felicidade, de sentar-me ao lado do vice-presidente Biden. E nós intertivemos uma longa conversação naquela oportunidade, um jantar latino-americano, portanto demorado, e pudemos conversar muito sobre temas de interesse do Brasil e dos Estados Unidos.

E, particularmente aí entro com plano pessoal, nós dois somos da mesma área jurídica, direito constitucional, e tivemos a oportunidade de trocar muitas ideias naquela ocasião. E isto, penso eu, estreitou e fez uma relação de amizade entre a minha figura e a figura do vice-presidente Biden.

E é num contexto precisamente de uma aproximação cada vez maior do Brasil com os Estados Unidos que se insere a visita do vice-presidente Biden. Aliás, dando sequência à visita que nos fez o presidente Obama, inicialmente, e posteriormente a presidente Dilma aos Estados Unidos. E, agora em outubro, a presidente Dilma fará uma chamada visita de Estado.

Sabem os senhores que esta visita de Estado é uma visita especialíssima, e nos Estados Unidos se a faz uma única vez por ano, foi a informação que eu tive. De modo que isto revela a importância desta relação Brasil-Estados Unidos e particularmente o apreço que os Estados Unidos têm pelo Brasil e o Brasil pelos Estados Unidos.

E digo isto aos senhores da imprensa porque muitas e muitas vezes se diz que nós no Brasil intertivemos uma relação muito próxima com a África e os países da América do Sul e os países árabes. O que é verdadeiro. Nós fizemos realmente esta grande aproximação, mas não nos desviamos de uma aproximação muito acentuada com os Estados Unidos da América. Até porque o comércio bilateral Brasil-Estados Unidos é intenssíssimo. Depois da China, os Estados Unidos ocupam a segunda posição nesta relação com o nosso país. Então, o interesse que nós temos em estreitar estas relações, que jamais foram distanciadas, se acentua com estas visitas e estes encontros que estou a mencionar.

Ainda agora, conversando com o vice-presidente Biden, tratamos de questões que ele já houvera também tratado com a presidente Dilma, referentemente ao interesse da área de energia, da inovação tecnológica, de um programa que nós temos muito orgulho no Brasil, que é o programa Ciências sem Fronteiras. Salientei ao vice-presidente Biden que os Estados Unidos é o país mais procurado por aqueles bolsistas do Ciências sem Fronteiras.

E para se ter uma ideia numérica desse interesse nós temos mais de 5 mil acadêmicos — mestrandos, doutorandos — que receberam bolsas e foram para lá para haurir os conhecimentos tecnológicos dos Estados Unidos e naturalmente trazê-los para cá.

Ainda comentava com o vice-presidente Biden uma declaração que ele fez no Rio de Janeiro, dizendo que não são incompatíveis a democracia e o desenvolvimento social. Uma regra, salientei à sua Excelência, o vice-presidente Biden, que nós adotamos no nosso país, na medida que na nossa Constituição fomos capazes de amalgamar os conceitos do liberalismo com os conceitos do Estado social. E no liberalismo, dizia eu, a liberdade mais ampla. Desde a chamada liberdade de informação, liberdade de comunicação, de expressão, de reunião e, no particular, a liberdade de imprensa como elenco extraordinário de preservação dos direitos individuais.

E, de outro lado, fomos capazes de adotar as regras do Estado social quando, por exemplo, garantimos no texto constitucional o direito à alimentação, o direito à moradia, que geraram programas, salientava eu ao vice-presidente, como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, e isto tudo que fez com que milhões de pessoas saíssem da extrema pobreza e fossem para a classe média do nosso país. E foi isso também que fez e promoveu uma inserção internacional de muita respeitabilidade do nosso país no concerto mundial.

Tratamos das questões, como disse, relativas a energia, inovação tecnológica. Cuidamos de alguns assuntos internacionais, e ouvi com muito agrado do vice-presidente Biden as suas posições, que são posições do governo norte-americano, em relação aos conflitos internacionais, para apenas exemplificar com dois deles, a questão da Síria e o conflito palestino-israelense. Salientando eu, e salientando sua Excelência, a absoluta coincidência das posições do governo americano com as posições do governo brasileiro.

Não deixei evidentemente de mencionar, com boa receptividade do vice-presidente Biden, o interesse já a essa altura reiterado do Brasil de ingressar, ter um assento, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, como também não deixei de solicitar o seu apoio, que tem sido dado em muitos momentos, para um pleito da cidade de São Paulo, portanto do Brasil, em relação à Expo 2020. Agora na semana próxima haverá em Paris mais um evento destinado a definir a cidade que sediará esta Expo 2020. E nós estamos concorrendo com São Paulo e com grande chance de termos esta possibilidade.

De modo que eu, em palavras finais, quero mais uma vez reiterar a honra que o Brasil está tendo com esta visita, dizer da sua importância. Vocês verão pelas palavras do vice-presidente Biden que ele é muito mais comunicativo do que eu. De modo que ele dirá com muita propriedade das razões que o trouxeram aqui ao Brasil e do entusiasmo que ele leva neste contato que teve com os brasileiros.

E agora, vice-presidente Biden, especialmente com a nossa imprensa, que está atenta às suas palavras. Obrigado.

VICE-PRESIDENTE BIDEN: Muito obrigado, senhor vice-presidente. Permitam-me começar dizendo que não quero ir embora. Gostaria que pudéssemos ficar e aproveitar um pouco mais a hospitalidade. Minha mulher e minhas netas também estão comigo e elas estão agora olhando para aquele lindo lago e a piscina gigantesca no hotel em que estamos. Acho que terei problemas para conseguir colocá-las no avião.

Como brinquei na minha visita ao Rio de Janeiro, onde alguns brasileiros referem-se ao Brasil como um país em desenvolvimento, vocês não são mais um país em desenvolvimento, são um país desenvolvido. E se precisam de alguma prova disso, temos a Copa do Mundo, a primeira visita do papa Francisco, as Olimpíadas. E agora meu colega está fazendo lobby para 2020. Isso é surpreendente.

Ficamos amigos. Tivemos a oportunidade não apenas de conhecer um pouco mais sobre nossos países quando estivemos na posse do presidente do México, mas ficamos sabendo que temos alguns interesses profundos e comuns, em particular pelo direito constitucional, que ambos lecionamos, e também a nossa paixão pela igualdade das mulheres no mundo. E temos um vínculo comum além... imagino que você não gostou do que eu disse, certo? Você apagou as luzes.

Mas permitam-me dizer que hoje mais cedo tive uma ampla conversa com a presidente Dilma. Ela é uma líder que está literalmente focada no enfrentamento das questões que mais importam ao povo do Brasil. E a boa notícia é que as questões que mais importam ao povo do Brasil são as questões que mais importam ao povo dos Estados Unidos.

E não precisei passar muito tempo... embora tenhamos tido uma longa conversa que foi bem além do que nós dois prevíamos — e agora entendo por que o presidente Obama a considera uma parceira tão boa. E é por isso que estamos — o presidente e eu — ansiosos, de fato ansiosos, com a sua visita em outubro.

Ocasionalmente temos... no passado tivemos mais de uma visita de Estado em um ano, mas o presidente quis fazer uma declaração de que a primeira visita de Estado deste ano será da presidente Dilma como prova do nosso respeito e do nosso desejo de aprofundar a relação.

E estamos extremamente contentes pelo fato da presidente ter aceito o convite. E esta é a primeira visita de Estado do segundo mandato. E, como disse, reflexo do nosso grande respeito pelo seu país.

Como disse na quarta-feira, acredito que 2013 pode e deve marcar o começo de uma nova era nas relações Brasil-EUA. Mas palavras não nos levarão lá. Temos muito trabalho a fazer de agora até o fim do ano para tornar essa promessa realidade. Mas estamos a caminho.

Nos últimos quatro anos, o presidente dos Estados Unidos esteve aqui. Eu estive aqui. Dez secretários do nosso governo estiveram aqui. Isso nunca havia acontecido antes na história da relação dos nossos países até onde eu sei. E isso é um claro reflexo do quanto acreditamos que esta relação é importante.

Ambos reconhecemos que há lacunas entre o que alcançamos juntos e o que somos capazes de alcançar juntos. E discuti com a presidente e o vice-presidente a agenda ambiciosa que considero devemos nos concentrar para fechar essa lacuna.

Conversamos sobre como aprofundar o comércio e os investimento nas duas nações. Nossa relação comercial anual ultrapassou US$ 100 bilhões por ano, mas literalmente não há razão, nenhuma razão, pela qual a primeira e a sétima maiores economias do mundo não possam quintuplicar esse valor com o tempo. Isso geraria muitos empregos nos dois países e reforçaria as relações entre nossos países.

Conversamos sobre como remover barreiras ao comércio e também sobre como dar mais certeza aos investidores nos dois países. Vocês aumentaram de maneira significativa o investimento estrangeiro direto nos Estados Unidos, e realmente saudamos isso e queremos mais.

Sobre energia, discutimos como podemos construir uma parceria que reflita a ambição dos dois países nessa área. Como alguns de vocês sabem, há dois dias, passei um tempo na empresa estatal de vocês, e agora na verdade privada e estatal, recebendo informações detalhadas sobre a promessa do petróleo do pré-sal, que é imensa. Essa descoberta é imensa.

Também conversamos sobre como podemos trabalhar juntos em áreas em que vocês nos ultrapassaram de longe. Vocês produzem 50% da energia do país com energia renovável. Nossa meta é chegar a 20% até meados da próxima década. Temos muito a aprender com vocês, muito a aprender com vocês.

Também achamos... e tem sido discutido que vocês podem aprender alguma coisa conosco sobre como acessar o gás de xisto. O acesso ao gás de xisto de maneira ambientalmente segura alterou radicalmente as perspectivas energéticas dos Estados Unidos — alterou radicalmente essas perspectivas.

O gás natural custa menos de US$ 2 hoje nos Estados Unidos. Custa US$ 17 ou mais na Europa e em outros países. Ele tem grande potencial para o seu país, assim como para o nosso.

Discutimos o lugar e a presença crescentes do Brasil no cenário mundial e fizemos planos de fazer mais para combater a fome no Haiti e promover o desenvolvimento na África. E quero aplaudir o Brasil por ter perdoado US$ 900 milhões da dívida africana. Vocês não são apenas um ator sério na comunidade internacional, vocês são um ator incrivelmente responsável.

E como disse na quarta-feira, e disse mais cedo a vocês, o Brasil não é mais uma nação emergente. Suas ações, como a que acabei de mencionar, mostram como o Brasil emergiu. Isso não significa que não há mais trabalho a fazer. Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos precisam continuar trabalhando nos desafios persistentes que enfrentamos: dar emprego para a população, crescer, combater a desigualdade, promover oportunidades e segurança para todos.

Mas o mundo tem muito a aprender com o sucesso do Brasil. Vocês mostraram que não é necessário escolher entre democracia e desenvolvimento, entre economia de mercado e políticas sociais inteligentes. Acho que vocês subestimam o profundo impacto que os últimos 15 anos e a maneira que vocês alcançaram o sucesso tiveram no resto do mundo. Há diversas nações hoje, da Primavera Árabe e por todos os continentes, tentando determinar que é possível ter desenvolvimento e democracia. O Brasil demonstrou que é possível. Não apenas possível, mas é o melhor caminho para o desenvolvimento.

Conversamos sobre a importância crucial de explorar a paixão comum dos nossos povos pela inovação na educação. Minha esposa, que está comigo hoje, é professora em tempo integral em uma faculdade comunitária. Ela leciona em tempo integral. Ela usa uma expressão nos últimos dez anos: qualquer país que nos ultrapassar na educação nos superará na competição. Qualquer país que nos ultrapassar na educação nos superará na competição.

Vocês não apenas têm grandes matérias-primas e grandes recursos, vocês têm recursos humanos formidáveis, e estamos ansiosos para trabalhar com vocês. Quando o presidente Obama anunciou a iniciativa 100 Mil Unidos pelas Américas e a presidente Dilma anunciou a iniciativa Ciência sem Fronteiras, nós abraçamos o programa. E o fato é que 5 mil estudantes brasileiros em busca de estudos de graduação e pós-graduação estão em 46 estados dos Estados Unidos da América frequentando o que, com todo respeito, consideramos serem as melhores universidades de pesquisa do mundo.

É bom para nós, e é bom para vocês. Sempre aprendemos com isso. A razão pela qual temos tido sucesso é termos convidado o mundo, termos ampliado a imigração, e estendemos o convite para irem nos visitar.

Mas há uma outra razão, eu diria, senhor vice-presidente, que consideramos ser muito importante. Eu e o senhor conversamos sobre isso muito rapidamente.

Senhoras e senhores, as nações que são mais próximas, que cooperam mais e, mesmo quando têm diferenças, negociam essas diferenças, são as nações que entendem a outra nação, têm um sentimento, um gosto, uma sensação das pessoas da outra nação. Só há uma maneira de fazer isso: estar lá. Estar lá.

É por isso que, por meio do nosso embaixador, passamos de 12 semanas para, acredito, dois ou três dias a obtenção de um visto. É por isso que estamos dobrando os consulados que temos aqui. Queremos os brasileiros indo para os Estados Unidos — não apenas para comércio, mas para nos ver, começar a nos entender com nossos defeitos e tudo — nossos defeitos e nossos pontos fortes — porque temos certeza que se os americanos virem em primeira mão o que está acontecendo aqui no Brasil, encontrarem os brasileiros e o mesmo ocorrer, essa relação ficará cada vez mais estreita.

Senhoras e senhores, por fim, quero falar de uma questão que o vice-presidente e eu perseguimos em nossa vida pública, o flagelo da violência contra as mulheres. Seu governo, senhor vice-presidente, sua liderança combateu a violência doméstica, e vocês a tiraram das sombras. Sou autor da Lei de Combate à Violência contra a Mulher no meu país, a primeira mudança fundamental que tivemos em termos de como vemos legislativamente o papel do governo em conseguir o fim da violência doméstica.

Vocês criaram linhas diretas para a violência doméstica que aumentaram de maneira significativa as denúncias de abusos e abriram novos abrigos para vítimas, exatamente o que fizemos. Tivemos um famoso juiz da Suprema Corte que disse: o melhor desinfetante é a luz do sol. A luz do sol é o melhor desinfetante. E jogar luz nos abusos contra as mulheres, jogar luz nos abusos que acontecem é a maneira certa de acabar com o abuso.

Deixo o Brasil cheio de otimismo com relação ao que podemos realizar juntos. Este é um momento para que as relações comecem a assumir uma textura diferente, com mais profundidade.

Senhoras e senhores, somos a primeira e vocês são a sétima maior economia do mundo. Somos grandes democracias. Somos povos inclusivos. É difícil imaginar como este continente pode alcançar seu potencial sem suas duas maiores nações trabalhando juntas, e as implicações internacionais disso são profundas.

Portanto, aguardo ansioso, assim como o presidente, a visita da presidente Dilma. Espero voltar muitas vezes e aguardo pelo grande bem que podemos fazer para os nossos povos ao trabalharmos juntos.

E, senhor vice-presidente, obrigado pela sua hospitalidade, e quero agradecer a imprensa por dar atenção à minha visita e ao que eu tinha a dizer. Sou muito grato por isso. (Aplausos.)

 

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