General
Newton Cruz
Confidências de um
general
Newton Cruz, 83 anos, entrou para a história
recente
do país como um ícone da ditadura
militar
( parte um -
parte dois)
Carlos
Wagner
O arquivo de
Newton CruzOs anos arquearam o corpo. Mas ficaram
ilesos à passagem do tempo o tom forte
e vibrante da voz e o uso de um vocabulário
sem meias palavras na defesa da sua opinião
e do seu currículo. Assim é o general
Newton Cruz, um homem de 83 anos que entrou para
a história recente do país como
um ícone da ditadura militar (1964-1985).
 |
Gen
Newton Cruz |
Newton Cruz se
considera traído pelos colegas de farda
com quem ajudou a consolidar o golpe de 1964.
Foi para a reserva em 1985 como general-de-divisão
sem realizar o sonho de ganhar a quarta estrela
que o tornaria general-de-exército, o posto
que ambicionava na carreira iniciada como cadete
da Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro,
em 1941. Na sua opinião, dita de maneira
clara e contundente, a traição foi
o cartão de visita dos seus camaradas revolucionários
para o novo governo que se instalou no país
em 1985, a Nova República.
O general é
um defensor ferrenho da exatidão no uso
do português. Diz que a precisão
é um cacoete que desenvolveu nos tempos
em que era oficial de artilharia. Se planejar
mal um tiro de canhão, o alvo pode ser
a tropa amiga, lembra. O general tem um outro
costume do qual pouco fala: o de ser guardião
dos segredos dos Anos de Chumbo. Uma tarefa que
desempenhou durante o regime militar, quando foi
os olhos e ouvidos dos governantes, responsável
por várias funções no extinto
Serviço Nacional de Informações
(SNI).
Orgulha-se de
dizer que foi um autodidata na ciência das
informações que orientaram muitas
das decisões de um dos seus amigos, o general
João Baptista Figueiredo, último
presidente militar do Brasil. Figueiredo era um
oficial de cavalaria de temperamento forte, como
Newton Cruz. Em quase duas décadas de convivência,
nunca tiveram uma briga séria.
Militar diz ser
eleitor de Lula
Para quem tem
mais de 40 anos, o general dispensa apresentação.
Newton Cruz foi protagonista de dois episódios
rumorosos no início da década de
80. Na noite de 24 de abril de 1984, véspera
da votação da Emenda Dante de Oliveira
- que pretendia resgatar o direito dos brasileiros
de eleger o presidente da República - ,
o general, na época à frente do
Comando Militar do Planalto, entrou em ação
ao bater com o bastão de comando nos veículos
que participavam de carreata pela aprovação
da emenda, em Brasília.
Dois anos antes,
em outubro de 1982, o jornalista Alexandre von
Baumgarten e a mulher dele foram assassinados
misteriosamente. Conforme uma das versões,
ambos foram seqüestrados na madrugada do
dia 13, no momento em que fariam um passeio de
barco. Os dois apareceram mortos dias depois,
assim como o barqueiro Manoel Pires. No início
de 1983 veio à tona um dossiê - "em
três dezenas de linhas de infâmia",
segundo o general - preparado pelo jornalista
meses antes de sua morte, no qual afirmava que
havia ordem para matá-lo e que Newton Cruz
seria o principal interessado. Em 1992, o general
foi julgado e inocentado do crime. Mas os danos
políticos alteraram os rumos de sua carreira.
Ele diz que a
imprensa só ouviu seus inimigos, a maioria
militares da chamada linha-dura do governo, grupo
ao qual ele garante nunca ter pertencido. Essa
é a face visível do general. A outra
é a sua atuação na organização
dos métodos de coleta de informações
no SNI. Perguntado por que o "I" do
SNI quer dizer informação, e não
inteligência, respondeu:
- Ao contrário
do que aqueles que não trabalham com coleta
de informes acreditam, as agências de espionagem
são um desastre. Portanto, é forçar
a barra chamar de serviço de inteligência.
Lembra da Baía dos Porcos? - pergunta,
numa referência à tentativa fracassada
de invasão de Cuba em 1961, planejada pela
CIA, a mais importante agência de inteligência
dos Estados Unidos.
Newton Cruz vive
uma vida simples em um pequeno quarto do apartamento
de um dos seus quatro filhos, no Recreio dos Bandeirantes,
um bairro de classe média do Rio. Seus
aposentos são desprovidos de luxo. O único
exagero é o número de folhas de
papel que está usando para escrever, a
caneta, suas memórias, tarefa que já
iniciou e interrompeu uma dezenas de vezes.
- Sempre que fico
emocionado e vou fundo escrevendo minhas memórias,
acabo dando mais um nó na corda ao redor
do meu pescoço - disse a Zero Hora.
Não é
costume do general falar com jornalistas. Alega
que sempre que falou acabou sendo mal-interpretado.
Depois de insistentes pedidos por telefone, Newton
Cruz aceitou receber ZH no último dia 10
em seu apartamento. No começo da conversa,
uma confidência:
- Aqui, sou o
único da casa que vota no Lula.
Com boa memória
e cuidadoso na precisão, o general recorre
a anotações quando a dúvida
persiste em relação a datas e nomes.
A entrevista começou às 9h30min
e se estendeu até as 16h. Com um pequeno
intervalo para o almoço. Antes da refeição,
Newton Cruz se permite um "luxo", como
ele próprio define: tomar meio copo de
cerveja. No resto do dia, consome cafezinhos.
Dos tempos em que vivia em Brasília, ele
guarda com saudade os passeios a cavalo. Nos dias
de hoje, aproveita as manhãs para caminhar
pelas ruas do bairro. De cabeça erguida,
frisa ele.