| Guerra
Irregular Moderna
PROMOTOR
GILBERTO THUMS:
“O MST vai se perpetuar, não terá
fim. Por isso é
um movimento político e não mais Social"
Agente do MP Estadual afirma
que o silêncio dos sem-terra é estratégico,
e prevê
que novas ações devam ocorrer em breve,
mas destaca que no RS os
abusos não serão mais tolerados.
Por Sérgio Cornélio
O promotor de justiça
Gilberto Thums, um dos grandes responsáveis
por ações movidas pelo Ministério
Público Estadual recentemente, contra o Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre
elas, a que culminou com a decisão judicial
inédita no país, que determinou a
desativação dos acampamentos na região
de Coqueiros do Sul, passou a ser considerado um
dos maiores desafetos do movimento e simpatizantes.
Membro do Conselho Superior do Ministério
Público do Rio Grande do Sul, ele foi um
dos promotores que aprovaram relatório no
final de 2007 pedindo a “dissolução”
do movimento, quando declarou que “Para o
Ministério Público, o MST é
um braço de guerrilha da Via Campesina”.
Em entrevista ao
DM, Thums destaca que a questão agrária
no RS é bem particular, diferente de outros
Estados. “Aqui o MST fez uma recuada estratégica
em razão das ações que foram
desencadeadas, da posição que o Judiciário
adotou ao acolher essas promoções
do Ministério Público. O Movimento
resolveu não enfrentar. Eles acabaram acatando,
pois estão desgastados inclusive perante
a população. Eles perderam o foco
em relação aos seus objetivos”,
avalia. No entanto, conhecedor do Movimento de muitos
anos, o agente do MP prevê que o MST deva
contra-atacar em breve. “Evidentemente eles
não vão parar. Alguma coisa está
sendo articulada, mas eu tenho a impressão
de que eles estão pensando muito sobre o
que vão fazer, porque no Pará, por
exemplo, o MST foi condenado a pagar R$ 5.300.000,00,
por aquela invasão da Vale do Rio Doce. O
Movimento teve sua conta bancária bloqueada.
O MST tem conta em banco, embora não tenha
personalidade jurídica. Isso é uma
coisa muito estranha, mas tem. Os juízes
bloquearam as contas do MST, inclusive da ANCA e
de todas as ONGs que canalizam dinheiro para o Movimento.
No momento eu tenho a impressão que eles
estão com pouco dinheiro para fazer as mobilizações.Até
porque há um cerco em relação
à canalização de dinheiro para
eles”, revela.
Thums comemora que
as decisões judiciais inéditas no
Estado proporcionaram um desdobramento nacional,
sendo apontadas como um dos maiores golpes que o
MST teve nos últimos tempos, com as providências
adotadas. “Só que a gente sabe que
eles vão acabar enfrentando novamente o Poder
Judiciário, as instituições
em geral, mas hoje estamos numa situação
diferente das anteriores, porque a Brigada Militar
nunca esteve tão afinada nos procedimentos,
como está hoje. A governadora não
interfere na Brigada Militar, na questão
dos desmandos para ordens judiciais. Então
se tem uma ordem judicial a cumprir, não
interessa, ela vai ser cumprida, doa a quem doer.
Essa questão é fundamental aqui hoje”,
pondera.
Novas ações
judiciais
O promotor salienta
que a Brigada Militar está identificando
todas as pessoas que fazem as invasões e
praticam atos de violência. “Estamos
fazendo o mapeamento desses indivíduos que
tem uma mobilidade muito grande. Existem vários
que receberam lotes e que estão hoje em acampamentos.
Estão na ilegalidade. Estão reivindicando
o que se já tem lotes. Então, esses
dados estão todos sendo cruzados. Tenho a
impressão que aqueles que não têm
muita convicção sobre as ações
que o Movimento está desencadeando hoje,
vão acabar se retirando, ou então
não vão participar, embora sejam coagidos
a participar”, denuncia.
Thums explica que
o MP está um compasso de espera. “Não
sei exatamente que tipo de desdobramento vai ter,
mas uma coisa eu posso garantir. Nós temos
várias ações já alinhavadas
para serem promovidas nos próximos dias.
Isso é um cerco que estamos fazendo. Um prato
quente que estamos comendo pelas bordas. Não
posso revelar que tipo de ações estamos
planejando, e que vão ser ajuizadas. A remoção
dos acampamentos não é o fim ainda.
Nós temos muita munição para
gastar”, garante.
O conselheiro do
MP gaúcho acredita que para a sociedade continuar
aceitando algumas reivindicações do
MST, seus líderes terão que repensar
muito suas condutas. “Pois cada ato de violência
será um tiro no próprio pé.
O tipo de ações que fizeram ultimamente
está com os dias contados, pois a sociedade
não tolera mais. Torna antipático
hoje fazer invasões com incêndios,
com violência, isso é contra os princípios.
O próprio presidente do MST no RS já
declarou que o objetivo hoje não é
mais a busca de terras. A gente fica questionando,
o que eles querem então?”, indaga.
Silêncio
e recuo estratégico
O que mais me surpreende
Gilberto Thums é o aparente silêncio
do MST. “É como se tivessem morrido,
mas temos a experiência que nos diz que isso
é estratégico. A gente imaginou ao
contrário, que haveria um enfrentamento,
medida de forças, coisas desse gênero,
mas aconteceu ao contrário, acabaram recuando.
Eles estão se fortalecendo. Isso é
uma técnica usada em movimentos de guerrilha
em todo o mundo e aqui não vai ser diferente”,
prevê. “Ninguém se engane que
eles vão ficar pacíficos, que vão
ficar bonzinhos. A gente está esperando para
os próximos meses, talvez semanas alguma
reação em nível nacional. Só
que no Rio Grande do Sul, diferentemente de outros
Estados, aqui a Brigada Militar não vai dar
mole. Se o sujeito praticar atos de violência,
sabotagens, etc, se tiver ação judicial,
a BM vai agir como sempre fez, dentro da legalidade,
cumprindo a ordem, identificando todo mundo e depois
vêm as ações penais. Esse é
o nosso objetivo. Quem invadir com violência,
quem depredar, incendiar, vai responder pelos atos,
como qualquer cidadão responde” alerta.
O Incra nas
mãos do MST
Thums é pessimista
em relação ao cumprimento do Termo
de Ajustamento de Conduta firmado com o Ministério
Público Federal (MPF), cujo segundo prazo
de prorrogação para o Incra assentar
as primeiras mil famílias, expira no final
desse mês. “Não acredito, pelo
seguinte. Temos que fazer um raciocínio simples.
O Incra, todo ele está na mão do MST.
O Poder Central da República é do
MST. Por que não se assentam as famílias?
Dinheiro tem e terras eles podem comprar a hora
que quiserem. Então a pergunta é:
há um interesse político em manter
esse movimento paralelo, assim como está
hoje? É um jogo político, e por isso,
duvido mesmo, que alguém cumpra”, enfatiza.
O promotor argumenta que o MP está tentando
mostrar para a sociedade o que é realmente
o MST, mas paga um preço bem caro por isso.
“Agora eu e os meus dois colegas ficamos sozinhos,
sem apoio institucional, porque houve uma reação
de políticos em Brasília, que acharam
essas atitudes do Ministério Público
antidemocráticas. Chegaram a fazer representações
na ONU contra nós, por violação
de direitos humanos. É uma estrutura muito
bem organizada, no mundo inteiro. Eles não
estão só no Brasil. Eu digo hoje,
que o Movimento vai se perpetuar. Ele não
terá fim. Por isso é um movimento
político e não mais social. Só
cego para não querer ver. Estamos fazendo
a denúncia, para a população
pensar sobre isso. O que vai acontecer no futuro
ninguém sabe”, conclui.
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