Eleições
2010
AERONÁUTICA
TEM CARTAS INÉDITAS DE LAMARCA
Felipe Recondo e
Marcelo de Moraes
Os arquivos do Centro de Informação
e Segurança da Aeronáutica (CISA) contêm
três cartas inéditas escritas em 26 de
novembro de 1970 por Carlos Lamarca e apreendidas
num aparelho da Vanguarda Popular Revolucionária
(VPR), no Rio de Janeiro. Nas cartas, destinadas a
companheiros de guerrilha, Lamarca mostra preocupação
com o que chama de "parada" de outros grupos
de combate à ditadura militar.
Ex-capitão
do Exército, Lamarca tinha trocado a vida do
quartel para integrar grupos de combate ao governo
militar que comandava o Brasil. Acabou sendo morto
pelas tropas do Exército em 17 de setembro
de 1971, na cidade de Brotas de Macaúbas, no
interior da Bahia.
As
cartas estão entre os documentos entregues
pela Aeronáutica ao Arquivo Nacional, conforme
o Estado noticiou ontem. A força aérea
havia informado antes que esses papéis haviam
sido destruídos.
Na
época em que escreveu os textos, Lamarca tinha
se tornado o principal líder dos grupos armados,
principalmente depois da morte de Carlos Marighella.
Ele reclamava, porém, da resistência
de outras siglas, que desejavam mais tempo para organização
política e montagem de sua infraestrutura.
Nas
cartas, Lamarca faz críticas pesadas a esse
tipo de comportamento da esquerda e informa, por código,
que nos próximos dias seria feito um novo sequestro
de diplomata.
De
fato, isso aconteceu 15 dias depois, com a ação
tendo como alvo o embaixador da Suíça
Enrico Buscher. Depois de muita discussão,
o governo aceitou libertar 70 prisioneiros em troca
do embaixador, mas vetou vários nomes pedidos
pelos guerrilheiros.
"CLÁUDIO"
Segundo
o informe número 079, transmitido pelo CISA
em 15 de janeiro de 1971, as cartas comprovam que
"persistem as divergências entre as esquerdas,
continuando a VPR a ser acusada de militarista, ou
seja, continua a ser acusada de relegar para um segundo,
terceiro ou quarto plano o trabalho de massas e a
organização do Partido do Proletariado
que, segundo os marxistas-leninistas é indispensável
para fazer a revolução", narra
o documento guardado pela Aeronáutica.
Os
textos de Lamarca foram redigidos à maquina
e ele se identifica como "Cláudio",
um dos codinomes que usava. É um momento especialmente
difícil para a guerrilha, uma vez que o governo
intensificara as prisões e vinha conseguindo
obter informações sobre a identidade
de seus integrantes, com tortura e infiltração.
O
próprio Lamarca enfrentava problemas com o
cerco pesado da ditadura. A despeito disso, Lamarca
cobrava mais ações, lamentando que seus
colegas preferissem ter tempo para fortalecer uma
recém-formada frente reunindo várias
siglas de combate ao governo.
"Penso
que a solução para o impasse da esquerda
seria o estabelecimento de uma Frente que se fortalecesse
na prática. Não vejo como se fortalecer
parada", escreve Lamarca num dos textos. "Estamos
vivendo um momento histórico fundamental para
o processo. A classe dominante está em ofensiva
política - temos de desmascarar essa ofensiva.
Não podemos dar o tempo à burguesia,
tempo que ela precisa para, através da propaganda,
neutralizar o proletariado", acrescenta.
E
nos textos expõe todo o racha que os grupos
de esquerda vinham enfrentando, reflexo, especialmente,
da prisão e desaparecimento de alguns de seus
principais militantes.
"CONVERSA
ANTIGA"
"A
colocação que a VPR faz do sequestro
um fim e não um meio não aceitamos.
Mas não vamos acusar nenhuma Org (organização)
de fazer da ação de numerário
um fim e não um meio. Não vamos acusar
porque seria jogada. Colocamos a questão em
votação aqui, apenas um militante discordou.
Estamos pois de cabeça erguida - vamos executá-la
porque politicamente é correta", diz,
em referência aos preparativos para o sequestro
do embaixador.
"Esta
questão de parar para montar infra existe desde
março - é conversa antiga - e não
vamos entrar nessa. A infraestrutura nunca será
permanente, terá sempre de ter flexibilidade.
No mais, não se executa ação
todos os dias, sempre será hora de montagem
de infra estrutura - e sempre é hora de ação'',
afirma. E dispara, preocupado com os efeitos negativos
da propaganda do governo: "como a massa vai ver
essa questão só de assalto? O governo
vai acabar conseguindo nos projetar como bandidos".
AÇÕES
ARMADAS
Em
seguida, Lamarca anuncia que pretende continuar com
as ações armadas, apesar da resistência
de alguns grupos.
"É
hora de avançar e vamos avançar. O povo
deu a demonstração de que está
descontente, pelo grande número de votos em
branco, nulos e abstenções. Essa de
dizer que a massa não entende nada não
cola mais. A prova que entende está aí.
Agora está na hora de explorarmos isto - ficar
parado numa hora dessa é imaturidade. Quando
teremos uma oportunidade como essa?", escreveu
ele