Vera
Rosa
A plataforma de governo da ministra da Casa Civil,
Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência,
será embalada pelo mote do "novo desenvolvimentismo".
O modelo defendido pelos petistas para escapar do
rótulo da mera continuidade do governo Lula
mescla incentivos ao investimento público e
privado com distribuição de renda. Embora
o programa de Dilma ainda esteja em discussão,
a cúpula do PT e o Palácio do Planalto
já têm um diagnóstico: a nova
concepção de desenvolvimento exige restabelecer
o planejamento econômico de longo prazo e o
papel do Estado forte.
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer colar
em Dilma o carimbo do "novo desenvolvimentismo"
para enfrentar os espinhosos debates sobre gasto público
com o PSDB do governador de São Paulo, José
Serra, pré-candidato ao Planalto. É
com essa marca que Dilma vai aparecer na campanha.
Até agora, os eixos do projeto sob análise
do PT são ciência, tecnologia e inovação,
pré-sal, meio ambiente e matriz energética,
educação, reconstrução
do sistema de saúde, programas de moradia,
como o Minha Casa, Minha Vida, transporte de massas
e saneamento básico.
O
Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC), carro-chefe da propaganda de Dilma, não
será tratado apenas como plano de obras, mas,
sim, como "uma estratégia de desenvolvimento",
como diz texto da corrente Construindo um Novo Brasil,
hegemônica no PT. A meta do partido para os
próximos anos é crescer de 6% a 6,5%
do Produto Interno Bruto (PIB).
O
comando da campanha de Dilma está certo de
que o PSDB vai atacar o governo com o discurso da
gastança e já se prepara para o contra-ataque
na área fiscal. A despesa de custeio da União
saltou de R$ 23 bilhões, em 2002, para R$ 32
bilhões, em 2008 - cifra equivalente à
inflação do período, de 40% -,
mas economistas do governo garantem que esses gastos
tiveram crescimento porcentual muito superior na gestão
tucana em São Paulo, na mesma época.
No
duelo com o PSDB, o Planalto pretende derrubar a pecha
de gastador invertendo a lógica do argumento
pejorativo. Dilma dirá que a maior despesa
foi com o pagamento de benefícios sociais,
vinculados ou não ao salário mínimo
- como Bolsa-Família, aposentadorias, pensões
e seguro-desemprego -, melhorando a distribuição
de renda e o mercado de consumo de massas.
GUARDA-CHUVA
O
papel dos bancos públicos na crise, suprindo
a necessidade de crédito, e a ampliação
dos investimentos das estatais são outros temas
abrigados no guarda-chuva do "novo desenvolvimentismo"
petista. Pelos cálculos da equipe econômica,
as estatais federais fecharão o ano de 2009
com um investimento de 2% do PIB, o dobro do realizado
pela União.
"No
mercado global não tem mais esse negócio
de ficar esperando que o trem vai passar, que eu vou
pegar o trem", disse Lula em jantar oferecido
pela Agência Brasileira de Promoção
de Exportação (Apex) a empresários,
na última segunda-feira, no Rio. "Nós
temos de correr atrás, porque a competitividade,
depois da crise, vai aumentar."
Foi
também nesse jantar que Lula deu seu recado:
ninguém precisa temer um Estado forte. "O
Estado não pode ser é intruso, é
diferente. Não pode querer ser o Estado gestor,
mas ele tem de ser o indutor e o fiscalizador de muitas
coisas. A crise mostrou isso", insistiu o presidente.
Para Dilma, a tese do Estado mínimo faliu e
só os "tupiniquins" a aplicam. Detalhe:
Serra é da mesma escola desenvolvimentista
de Dilma, mas permanece apegado à corrente
que prega o investimento puro.
BRASIL
2022
Lula
pediu ao chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos,
Samuel Pinheiro Guimarães, que apresse o plano
Brasil 2022 e entregue em março o calhamaço
com perspectivas de 12 anos. O programa de Dilma é
coordenado pelo assessor de Assuntos Internacionais
da Presidência, Marco Aurélio Garcia,
mas o plano sob a batuta de Guimarães também
servirá como peça de campanha.
Com
essa radiografia em mãos, a equipe de Dilma
quer descobrir qual é a economia do futuro
e onde o PT apostará suas fichas. "Ainda
temos de ruminar muito sobre isso", afirmou a
ministra, em conversa reservada. Sua plataforma terá
como ingrediente as "vocações regionais",
que serão incorporadas à estratégia
do desenvolvimento sustentável. O PT vai dar
destaque a políticas para a Amazônia
e o Nordeste.
Na
prática, a volta da retórica à
esquerda na seara do petismo é reflexo da vitória,
dentro do governo, do grupo desenvolvimentista, que
no primeiro mandato de Lula travou forte queda de
braço com os monetaristas. "Nós
interrompemos a visão neoliberal do Estado
mínimo e recuperamos não só os
bancos públicos, como estatais do porte da
Petrobrás", argumentou o líder
do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), integrante
da comissão escalada pelo partido para preparar
o programa de Dilma. "Estamos, sim, construindo
um novo desenvolvimentismo."
Para
o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP),
a campanha petista mostrará que o Brasil pode
ser a quinta economia do mundo. "Depois de resolver
o impasse macroeconômico e estabelecer o paradigma
de que é possível distribuir renda crescendo,
queremos dar um salto", disse Berzoini. A nova
palavra de ordem do PT é gestão. Mas
sem o "choque" proposto pelos tucanos.
FRASES
Luiz
Inácio Lula da Silva - Presidente
"Nós temos de correr atrás, porque
a competitividade, depois da crise, vai aumentar"
"O
Estado não pode ser é intruso, é
diferente. Não pode querer ser o Estado gestor,
mas ele tem de ser o indutor e o fiscalizador de muitas
coisas. A crise mostrou isso"
Aloizio
Mercadante - Senador (PT-SP)
"Nós interrompemos a visão neoliberal
do Estado mínimo e recuperamos não só
os bancos públicos, como estatais do porte
da Petrobrás. Estamos, sim, construindo um
novo desenvolvimentismo"
Ricardo
Berzoini - Presidente do PT
"Depois de resolver o impasse macroeconômico
e estabelecer o paradigma de que é possível
distribuir renda crescendo, queremos dar um salto"