PSDB
aposta em polarização de biografias
"Serra vai ganhar guerra de biografias"
Caio
Junqueira
Luiz González, 56 anos, paulistano, neto de
espanhóis da Galícia, deverá
ser o principal estrategista da campanha do governador
de São Paulo, José Serra, a presidente
em 2010. É o marqueteiro preferido dos tucanos
paulistas. Sua ascensão no marketing político
foi concomitante à consolidação
do PSDB no governo estadual. Já se vão
15 anos desde que fez a campanha de Mário Covas,
em 1994, mesmo ano em que trabalhou para Serra, que
disputava o Senado. Quatro anos depois, ajudava Covas
a se reeleger. Em 2000, perdeu com Alckmin na prefeitura,
mas o fez governador dois anos depois. Voltaria a
trabalhar para Serra na campanha à prefeitura
em 2004 e ao governo do Estado em 2006, quando atuou
para Alckmin na disputa presidencial. No ano passado,
elegeu Gilberto Kassab (DEM) prefeito.
Foi
em sua agência Lua Branca, detentora de contratos
de publicidade tanto com a Prefeitura de São
Paulo quanto com o governo paulista, que ele recebeu
o Valor para uma entrevista, explicitou sua estratégia
que, a exemplo do governo, é de polarização
entre Serra e Dilma - "Só que o embate
não vai ser entre Lula x FHC, mas entre a biografia
de um realizador e a de uma desconhecida". A
seguir, trechos da entrevista:
Valor:
O senhor não teme a transferência de
votos de Lula para Dilma?
Luiz
González: Aqui
em São Paulo ou em Caetés (cidade pernambucana
em que Lula nasceu)? Em Caetés haverá
mais. A pergunta é: quanto Lula vai transferir
nos lugares onde a informação é
menos variada, chega mais devagar e as pessoas dependem
mais do Estado? Quanto isso pesa mais do que a admiração
que as pessoas possam ter por um cara como o Serra
e a expectativa de que com ele o lugar onde o eleitor
vive melhora? Lula fez campanha para Marta. Foi para
o palanque e resultou em quê? Nada. Não
levantou meio ponto porque o eleitor aqui é
atento.
Valor:
Mas e no resto do país?
González:
Alckmin era desconhecido nacionalmente, enfrentava
um mito que tinha disputado as cinco últimas
eleições e que havia feito um governo
em que a economia ia bem. Agora está invertido.
A Dilma é desconhecida, o Serra é mais
conhecido e tem mais biografia. Dilma precisa mostrar
o que o governo fez. Pode subir até certo ponto,
mas para subir para valer tem que expor a pessoa.
Valor:
Foi a privatização que derrotou o Alckmin?
González:
Eu nunca saí de um estúdio tão
festejado como naquele dia do debate da Bandeirantes.
Não só os políticos mas também
os coleguinhas. E eu sabia que tinha dado errado.
Tinha falado pra ele: não faz isso. Foi ali
que ele perdeu a eleição. Colocou o
dedo na cara do Lula, foi desrespeitoso. O público
fala: "Quem é esse cara? Tô desconhecendo".
E teve também a reação do Lula
no segundo turno. Fez a famosa reunião no Palácio
do Planalto com 17 ministros, despachou um para cada
Estado e escalou quatro para aparecerem no "Bom
Dia Brasil", "Jornal Hoje", "Jornal
Nacional" e "Jornal da Globo". Várias
entrevistas do PT metendo a ripa no Alckmin e do nosso
lado ninguém. O Tasso (Jereissati) estava no
interior do Ceará, o Sérgio Guerra,
em Pernambuco, o César Maia sumiu. Consegui
o Heráclito Fortes para dar uma coletiva. Se
você dá uma entrevista às 15h
eu tenho que dar outra às 15h30. Esse é
o jogo. E o nosso foi um desastre.
Valor:
A força do Lula no Nordeste também não
foi decisiva?
González:
Não foi apenas no Nordeste. Uma grande derrota
que ele sofreu foi no Amazonas. Perdemos em Minas,
que tem 10 milhões de eleitores, por 1 milhão
de votos. No Amazonas, que tem 2 milhões, perdemos
por 900 mil votos. Amazonas virou Minas, que é
o terceiro colégio eleitoral do país,
porque os dois candidatos da base do Alckmin, Arthur
Virgílio e Amazonino Mendes, brigaram o tempo
todo e nenhum deles conseguiu defender o candidato
da acusação de que ele acabaria com
a Zona Franca.
Valor:
Em 2010, o comando de Lula sobre a campanha não
fará a diferença?
González:
Uma coisa é o Lula outra é essa mulher
[Dilma] que ninguém sabe de onde veio. Estou
colocando como caricatura o discurso, mas no fundo
é o seguinte: será que as pessoas estão
dispostas a aguentar o PT mais quatro anos sem o Lula?
Sem o Lula ficam só os Waldomiros [Waldomiro
Diniz, ex-assessor do Planalto flagrado em vídeo
recebendo propina]. O Lula foi preservado nessa coisa
toda, e sem ele como é que fica?
Valor:
O senhor aposta numa campanha pela biografia, mas
não acha que o governo vai se pautar por temas
como Bolsa Família, crédito popular,
valorização do salário mínimo?
González: Mas
para cuidar disso aí você prefere esse
cara aqui ou essa mulher [Dilma] que ninguém
conhece? Tudo isso vai continuar e vai melhorar porque
onde esse cara [Serra] põe a mão dá
certo. Veja só, como ministro: 300 hospitais
reformados. Como deputado: tirou o seguro-desemprego
do papel. Como ministro da Saúde: fez os genéricos.
Como governador: fez três vezes mais metrô
que todo mundo. Onde ele põe a mão dá
certo. Vai dar certo com aposentadoria, com salário
mínimo, água encanada porque ele é
um realizador, tem credibilidade, melhora a vida das
pessoas por onde passa. E do lado de lá? Quem
é? Ninguém sabe.
Valor:
E o PAC e o pré-sal?
González:
Eles vão mostrar o PAC, nós vamos mostrar
que o PAC não existe. Está tudo parado.
A vantagem da campanha política é que
o contraditório é exercido todos os
dias. Cada um fala o que quer, ouve o que não
quer e o eleitor julga. Por isso a campanha não
é publicitária, é jornalística.
Quanto tem para o pré-sal? São 5 bilhões
de barris a US$ 40 dólares o barril. US$ 200
bilhões. Por que não põe US$
100 bilhões na saúde agora? Ah, não
existe? Pensei que tivesse. Não estão
falando que a Petrobras está sendo capitalizada
com 5 bilhões de barris?
Valor:
A aposta, então, é que na disputa entre
biografias o Serra leve?
González:
O Serra é o favorito, tem grandes chances de
ganhar. A Dilma passou a ter problemas com a entrada
do Ciro [Gomes] e da Marina. Será uma surpresa
se ela decolar. O governo acha que vai ser um plebiscito
Lula versus não-Lula, ou Lula versus FHC, mas
nós não vamos deixar. Não é
isso. É a biografia do Serra contra a da Dilma.
E daí o nosso japonês é melhor
do que o japonês dos outros. Serra foi deputado
constituinte, senador, secretário de Estado,
ministro duas vezes, prefeito, governador. Tudo o
que ele fez alicerça o que vai prometer. Isso
dá credibilidade, confiança. E é
uma figura nacional.
Valor:
Como contrabalançar o Norte e o Nordeste?
González:
Uma questão central na campanha é que
Serra não pode perder Sul e Sudeste. Não
é à toa toda essa movimentação
em São Paulo. Eles não são trouxas,
precisam de alguém que tire votos do Serra
aqui. Uns cinco, seis pontos. Todo esse jogo com o
[Gabriel] Chalita é entre PSB e PT porque tem
que tirar uns 4 milhões de votos do Serra aqui.
O Nordeste é fundamental, é importante,
mas acho que nunca se pode perder suas cidadelas.
O negócio é que não se pode perder
de muito lá e ganhar bem aqui. Serra é
tido no Nordeste como o melhor ministro da Saúde
que o Brasil já teve.
Valor:
O PMDB é crucial?
González:
Se o PMDB for para o governo nos prejudica bastante
porque tempo de TV é importante.
Valor:
O fato de o PMDB ter as maiores bancadas no Congresso
e o maior número de prefeitos não é
importante também?
González: Não.
Isso não é garantido, pois ninguém
sabe se eles vão ajudar mesmo. Alguns só
ajudam se receberem recurso material, outros até
ajudam adversários. O PMDB de Pernambuco é
diferente do de Goiás, que é diferente
do Rio. Há a possibilidade remota, mas existente,
de eles fecharem com o Serra. Aí nossa chance
aumenta muito. A possibilidade em que acredito: o
PMDB não vai para ninguém. Aí
zera e a eleição fica polarizada entre
Serra e Dilma. Mas até o início da campanha
ela vai sofrer com matérias que ela não
emplaca. Alguém do PT em off criticando, dizendo
que o gênio dela é ruim, que ela briga
com todo mundo. Só bastidores. Ela vai sofrer
com isso.
Valor:
E o Ciro?
González:
Não emplaca. Primeiro porque não vai
ter tempo de TV. Vai ter PSB e mais o tempo igualitário,
que vai dar uns dois minutos e meio. Sabe qual a leitura
do público? ´Aquele pequenininho lá
não vai governar porque não consegue
agregar. Tem dois que são pra valer e dois
nanicos´. Segundo porque ele é verborrágico
e alguém vai provocá-lo. Pode ser o
Serra ou até mesmo a Dilma, porque pode se
travar uma disputa entre ela e o Ciro pelo segundo
lugar. Para nós é o melhor cenário.
Isso se o Ciro não tiver cometido nenhum deslize
verborrágico, o que eu não acredito.
Valor:
E a Marina?
González:
É uma candidata interessante, bacana, com história
bacana, com aura de seriedade. A única coisa
que a prejudica neste momento é o pouco tempo
de TV. É pouco para expor as ideias, convencer,
seduzir e apaixonar. O eleitor também avalia
a capacidade de fazer alianças pelo tempo de
TV. A tradução do pouco tempo é
esse: o cara não tem força. Ela tende
a murchar também.
Valor:
Aqui em São Paulo o PSDB faz sucessor sem atropelos?
González: São
Paulo sempre é uma eleição complicada.
É um lugar com opinião pública
forte, gente informada, urbanizada, antenada. Mas
acho difícil para a oposição
mesmo porque não sei quem é o candidato.
Valor:
O Palocci pode ser competitivo em São Paulo?
González:
Será um erro se ele sair. Tem uma série
de coisas de quando ele foi prefeito de Ribeirão
Preto que ainda não foram resolvidas, assim
como o caso do caseiro Francenildo que também
não foi resolvido na opinião pública.
Valor:
E a disputa entre os tucanos? Alckmin lidera as pesquisas,
mas o meio político prefere Aloysio Nunes Ferreira,
com dois pontos nas pesquisas. É difícil
alavancar o Aloysio?
González:
Você pergunta o que é mais difícil,
não a minha preferência. Mesmo porque,
essa é uma questão partidária
e não me caberia opinar. Mas é óbvio
que é mais difícil pegar alguém
com 3 ou 5 pontos e lutar morro acima para levar a
20, 25 pontos e forçar o segundo turno do que
pegar um candidato com 50 pontos, ex-governador do
Estado.
Valor:
O que é mais determinante ao voto?
González:
Tem uma tese do professor João Albuquerque,
da USP, defendendo que 15% votam por identificação,
o mesmo percentual, por oposição e 70%
por expectativa de benefício futuro. A questão
central é como se cria uma identificação
com o candidato e se desperta no eleitor a confiança
de que ele é capaz de melhorar sua vida.
Valor:
A internet vai ser importante em 2010?
González: A
cada eleição a internet fica mais importante.
E, em 2010, pode até ser a ferramenta mais
comentada, pelas novidades que trará. Mas não
acredito que será a mais importante. Nas condições
de 2010, acho que a TV ainda será mais importante
do que a internet, por mais amplas e diversificadas
que sejam as ações na internet e por
mais tradicionais que sejam na TV. Mário Covas
dizia que se ele tivesse pouco dinheiro pagaria advogado
e programa de TV e depois contrataria o resto. Se
fosse para hierarquizar os veículos que eu
usaria, diria que o mais importante é o horário
eleitoral, free media [presença dos candidatos
no rádio, TV, jornais e revistas], programa
eleitoral no rádio e, por fim, a internet.
Valor:
Por que?
González:
Pela abrangência. O Brasil tem pouco mais de
131 milhões de eleitores. A televisão
chega a praticamente todos. Existem 57 milhões
de domicílios no Brasil. Há pelo menos
um aparelho de TV em 95% desses domicílios
- 170 milhões de brasileiros a assistem diariamente.
Estima-se que haja até 60 milhões de
internautas, com 11 milhões de conexões
em banda larga. Ou seja: a televisão chega
a muito mais gente. Outra questão é
a distribuição geográfica. A
TV chega a todo o país de maneira mais uniforme:
96% dos domicílios urbanos têm TV. Na
zona rural a presença cai, mas ainda é
alta: 78% das residências rurais têm TV.
Essa presença avassaladora e bem distribuída
não acontece, ainda, com a internet. A internet
está mais presente nas regiões Sul e
Sudeste, com 60% dos internautas. Mas as regiões
Norte e Nordeste que têm, juntas, 34% do eleitorado,
só têm 22% dos internautas.
Valor:
Essa concentração da internet no Sul
e Sudeste favorece alguma candidatura?
González: Acho
que a internet vai servir de maneira distinta às
candidaturas. Serve mais ao PT do que ao PSDB. Como
o PT tem mais dificuldade no Sul e no Sudeste, onde
a internet tem mais penetração, o instrumento
vale mais. Da mesma forma, se o corte for cidade grande
versus cidade pequena, o PT tem mais dificuldade nas
capitais e cidades grandes. O PSDB tem mais dificuldade
nos grotões. Desse ponto de vista, o que o
PSDB precisa é de carro de som nas pequenas
cidades. Além disso, a televisão é
um veículo impressionista. É um veículo
de emoção, que surpreende o telespectador
em sua casa. Nessas características essenciais,
é insubstituível.
Valor:
O que o senhor achou da reforma eleitoral recém-aprovada?
González: Lamentável.
O Congresso perdeu a oportunidade de limpar as regras
eleitorais, de deixar o pleito mais livre. Por exemplo:
não se pode usar imagem externa nas inserções
ao longo da programação, nos comerciais.
Mas se pode usar imagem externa nos programas grandes,
em bloco. Qual o motivo?
Valor:
Quais são os outros problemas da reforma?
González:
A reforma instituiu um "liberou geral" nas
coligações. Agora é possível,
na mesma circunscrição eleitoral, fazer
coligações que se contradizem. Essa
emenda do "liberou geral" para as coligações
atende a estratégia governista. Nos últimos
anos, prevaleceu a norma que impedia o uso de um espaço
eleitoral no rádio e na TV por um candidato
a outro cargo. Mesmo assim, em 2006 Lula "invadiu"
grande parte das campanhas estaduais, principalmente
onde o candidato a governador do PT era fraco. Foi
parcialmente punido por isso, com perda de tempo de
TV. Nem todas as "invasões" foram
descobertas a tempo de se acionar o TSE. Na eleição
de 2010, as campanhas estaduais estão autorizadas
a veicular "imagem e voz" do candidato a
presidente, ou de militante político nacional.
Traduzindo: é a licença para Lula e
Dilma" invadirem" os tempos de propaganda
de candidatos a governador, senador e deputados. Vai
ser uma festa. Infelizmente, a oposição
deixou passar. Vamos ver o que o TSE diz sobre o assunto.