15 de Abril, 2003 - 12:00 ( Brasília )

Aviação

Charles Edelstenne - Entrevista do Chairman e CEO da Dassault Aviation.

Entrevista concedida a jornalistas brasileiros, em 19 Março de 2003, na sede da Dassault Aviation, Paris, ainda no Programa F-X1

Entrevista de Charles Edelstenne,
Chairman e CEO da Dassault Aviation.

 

Paris, 19 de março de 2003

Charles Edelstenne concedeu a entrevista na sede da Dassault Aviation, Saint-Cloud Paris. Também participaram da entrevista os executivos Alain Dauphin, Vice-presidente Divisão Militar e Yves Robins, Vice-Presidente Relações Intenacionais Defesa.

Tânia Monteiro (OESP) - O Senhor tem alguma preocupação com o atraso que está ocorrendo no momento para a tomada de decisão do Programa F-X?
Charles Edelstenne
- Sempre me preocupo quando um programa está atrasado, porque existe a princípio riscos de que, enquanto a decisão não for tomada, então, só terei absoluta confiança no dia em que a decisão for tomada, e espero que o seja em favor da Embraer e de seus parceiros.

Pedro Paulo Resende (CB) - Em que domínios a Dassault pretende traçar novos planos de cooperação com o Brasil? Existem outras perspectivas de cooperação em outros setores aeronáuticos como, por exemplo, aviões executivos, aviação regional ou outro avião militar?
Charles Edelstenne: Hoje o principal objetivo que nós perseguimos é o avião de combate. Tivemos vários entendimentos com a Embraer a respeito de aviões executivos, transformação de aviões comerciais em executivos (o que a Embraer já fez com sucesso), porém, nossa principal prioridade é o avião de combate. No campo da aviação regional, não há cooperação prevista pelo fato de que o especialista Nº. 1 no mundo é a própria Embraer e nós não nos enquadramos no setor dos aviões regionais.

A única coisa que temos em comum com a Embraer no campo da aviação regional, é que possuímos um concorrente em comum, que é a Canadair, que é concorrente da Embraer nos aviões regionais e da Dassault nos aviões executivos. Além dos aviões de combate, já existe um consórcio francês formado pelas empresas Dassault, Thales, Snecma e EADS. Existe uma cooperação que já deu bons frutos que é aquela feita entre Embraer e Thales, que desenvolveu um avião AWACS ( vendido para a Grécia).

Nelson During (DefesaNet) - Como o Dassault vê o ingresso da Embraer no mercado da aviação executiva?
Charles Edelstenne: A Embraer completa nossa própria oferta na aviação executiva, em que nossos objetivos são os aviões de "alta performance", e eu diria, entre aspas, aviões até mesmo luxuosos. Outra maneira de ver as coisas é que, no que tange a preços, são aviões muito caros. A Embraer transformou sua oferta de aviões executivos a preços atrativos, com "performances menores", porém muito atrativos sob o ponto de vista financeiro e que eu acrescentaria até que, se há um setor em que eles são praticamente imbatíveis é para empresas operando "shuttle"( pontes aéreas executivas).

Tânia Monteiro(OESP): No caso em que for ganha a concorrência, existe uma perspectiva de exportação do Mirage 2000BR, e para quais países e o que isso poderia representar em faturamento?
Charles Edelstenne: Sim, perfeitamente, há perspectiva de exportação na medida em que introduzimos, nos termos do acordo que nos une, uma cláusula de exclusividade deste avião em toda a América do Sul, porque acreditamos que a Embraer, por sua importância e pelo seu renome, é a empresa mais bem posicionada nessa região para a exportação deste avião.

Carlos Lorch (RFA) - Dentro do contexto das várias fusões, que estão ocorrendo no momento em diversos setores, como a Dassault encara o futuro da Europa no setor aeronáutico?
Charles Edelstenne:
Será que os Senhores me concederiam um dia todo, para lhes dar essa resposta? (risos).

Eu vou tentar responder em tópicos. Quando os senhores examinam a indústria aeronáutica através dos tempos, ela sempre foi ora concentrada, ora espalhada, com variáveis tais como: conglomerado diversificado, fusão indústria aeronáutica / indústria automobilística, fusão indústria eletrônica/ indústria aeronáutica, etc... Considerando minha tenra idade (com ironia), eu conheci todas estas peregrinações através dos tempos.

Eu acredito haver uma diferença fundamental entre a alta tecnologia e a produção em massa. Por quê isto? Porque quando se pratica a produção em massa, para alargar o mercado, deve-se reduzir os custos em função do número de unidades produzidas.

A indústria aeronáutica é provavelmente a indústria de alta tecnologia, que manipula o maior número de tecnologias, em relação a qualquer outro tipo de indústria.

Para ilustrar o que acabo de dizer, vou dar aos Senhores dois exemplos. O primeiro a nível de empresa e o outro a nível de programa.

Vamos ao primeiro exemplo - a nível de programas.

Para sua compreensão, sou talvez a pessoa mais indicada na França para se candidatar a receber a "medalha da resistência", porque todos os governos que se sucederam tentaram casar minha empresa com esta ou aquela, sem nenhum sucesso, e é por isto que, da próxima vez que os Srs. vierem falar comigo, talvez já tenha ganho à "medalha da resistência".

Hoje, acredito que este debate está mais ou menos resolvido, porque conseguimos resistir um tempo suficientemente grande, e os fatos demonstram que tínhamos razão.

Quais são estes fatos? Um dos negócios que foram mais discutidos na Europa é o fato de que a França, e particularmente a Dassault não fizeram parte do Eurofighter e durante 15 anos nós fomos criticados por outros países europeus, de um lado pelos políticos e, de outro, pela imprensa francesa, alegando que, por causa da indústria francesa, nós não ingressamos no Eurofighter e pelo fato de não havermos ingressado nesse programa, isto ocasionaria custos suplementares no orçamento francês, em razão de não os termos rateado com os demais países europeus (Inglaterra, Itália, Espanha e Alemanha). Estes custos suplementares, pelo fato de que fizemos sozinhos o Rafale, ao invés de participarmos do consórcio Eurofighter, acabariam hipotecando todos os recursos dos programas de equipamentos das forças militares francesas.

Quinze anos se passaram desde então. Hoje, todos os números (estatísticas) estão sobre a mesa na Alemanha, na Inglaterra, na França, o que se constata? Contrariamente aquilo que foi dito por todos, se a França tivesse integrado o programa Eurofighter, com a mesma quantidade de aviões, teríamos gasto 25% a mais em relação aquilo que nós vamos pagar pelo Rafale, sendo que podemos acrescentar ainda o seguinte fato: o Rafale funciona; é um avião polivalente, enquanto que, pela mesma diferença de 25% a mais pelo Eurofighter, ele é somente ar-ar e, ainda por cima, não funciona. Isto quer dizer que eles têm muitas dificuldades ainda e acho que levarão ainda alguns anos para acertarem este avião. Este foi o primeiro exemplo, sobre um programa.

Vamos ao segundo exemplo - a nível de empresas.

A Europa, desejando imitar os Estados Unidos, criou dois grandes grupos: BAE Systems e EADS. Eis o resultado. Temos aqui os faturamentos das 3 empresas: Dassault, BAE Systems, e EADS. Reparem que nosso faturamento, em relação à BAE é 5,5 a 6 vezes menor e, em relação à EADS é mais do que 7 vezes menor. Isto, não somente para 1 ano, mas sim nos últimos 3 anos. Eis os resultados das diferentes empresas para os últimos 3 anos. Sozinhos, nós fizemos mais lucros do que as demais empresas juntas, se acrescentarmos o ano 2002, não temos mais condições de comparar, porque 2 empresas, esta e aquela, perderam juntas 1,5 bilhão de Euros, numa progressão exponencial. ( Nota A Dassault Aviation lucrou 312 milhões de euros (344 milhões de dólares) em 2002 e 274 milhões de Euros em 2001.)

O que podemos concluir com tudo isto? Nós pertencemos a um setor de alta tecnologia, complexo, sendo que um avião de combate é provavelmente o equipamento de maior complexidade que o homem construiu até hoje, que integra tecnologias de alto nível dentro de ambientes hostis, porque voam a baixa temperatura (-50º C), a "9G" de aceleração, etc, etc, e tudo isso ainda num espaço confinado e compacto, com problemas de ambiente eletromagnético complexo, onde equipamentos eletrônicos tem que funcionar sem provocar nenhuma perturbação no avião, tudo isto exige equipes com altíssima experiência e grande conhecimento. Estas equipes são constituídas de algumas centenas de pessoas. Não são 10.000, não são 20.000, não são 100.000.

Nós não estamos produzindo máquinas de lavar, nem refrigeradores e nem automóveis, fazemos, isto sim, produtos com cadência não muito elevada, porém muito complexos.

Pedro Paulo Resende (CB) - Caso o programa Mirage 2000 vença a concorrência, existe a possibilidade de no futuro se concentrar a produção no Brasil e deixar o Rafale na França é a primeira pergunta. A segunda é se a Dassault irá continuar sua aliança estratégica, caso essa concorrência seja cancelada, anulada ou se escolha outro fornecedor?
Charles Edelstenne:
Para a primeira pergunta, o fato de que a linha de montagem será no Brasil, trata-se de um problema de cálculo econômico entre a opção que depende da quantidade de aviões que seriam fabricados. Para nós, é indiferente que a linha de montagem se encontre aqui ou lá, se houver um número suficiente de aviões, que justifique a transferência em condições econômicas favoráveis, não há problema em transferir a linha de montagem.

Agora quanto à segunda pergunta, a questão diz respeito à eventualidade de, não havendo opção favorável à fabricação do Mirage no Brasil, se haveria continuidade no esquema de cooperação, eu diria que teremos de mudar o enfoque, uma vez que este investimento foi feito dentro de uma perspectiva industrial. Ele não foi feito dentro de uma perspectiva de investimento financeiro, mas sim com o objetivo de realizarmos juntos o desenvolvimento de aviões militares e tentar conquistar uma parte, ou mesmo grande parte do continente (mercado) sul-americano. É evidente que, se o Brasil não fizer uma opção deste gênero, isto alterará completamente o esquema sobre o qual estávamos trabalhando e este investimento se tornaria então, mais um investimento financeiro do que industrial.

Tânia Monteiro (OESP) - No decorrer da feira de defesa (LAD 2003), que terá lugar dentro de algumas semanas, o Sr. vai aproveitar para realizar alguns contatos políticos?
Charles Edelstenne: C
ertamente que sim. Vamos verificar em que estágio se encontra o projeto e verificar se temos condições de acelerar o processo.

Nelson During (DefesaNet): Como Dassault encara o futuro do Mirage 2000 inicialmente em termos de evolução como avião de combate, e como perspectivas de mercado?
Charles Edelstenne:
Qualquer avião de combate tem duas vidas, ou seja, uma primeira vida e no meio desta um up-dating (atualização). Nós estamos atualizando completamente o sistema de armas desse avião. Esse sistema integra as últimas tecnologias já incorporadas pelo Rafale e, então, este avião ainda deve ter uma vida, assim espero, por no mínimo 20 anos, em termos de mercado.

Isto significa que, daqui a 50 anos, teremos ainda aviões Mirage em vôo, uma vez que a vida útil desses aparelhos é de aproximadamente 40 anos, e devo dizer que nossa maior frustração é de não sermos capazes de fabricar aviões que durem menos tempo, contrariamente aos americanos que trocam as asas após alguns anos.

Isto para mim é uma preocupação, pois desta forma se mata uma profissão...Claramente o que estou lhes dizendo é que este programa ainda tem uma longa vida e é por isto que ainda atualmente continuamos em novos projetos do sistema de armas, pois que, todos os usuários, em especial a Força Aérea Francesa, o consideram um excelente aparelho. É uma ótima plataforma, de fácil pilotagem, e o fato do sistema de armas haver sido totalmente renovado, tudo isto lhe dá garantia de sucesso por muitos anos ainda.

Nelson During (DefesaNet): E as perspectivas de negócios do Mirage 2000, por exemplo, no que diz respeito à Índia?
Charles Edelstenne:
No que diz respeito à Índia devo dizer que não gosto muito de falar sobre outros países ou outros clientes, mas posso dizer simplesmente uma coisa: estamos em negociação com os indianos, suas necessidades são de mais de 100 aparelhos, sendo um avião que virá a ser, dentro das Forças Indianas, o elemento essencial de sua Força Aérea.

Eles já compraram a primeira versão do Mirage 2000 (59 aparelhos) e eles estão satisfeitos, uma vez que a Força Aérea Indiana opera com dois tipos de aviões, os russos e os nossos, e segundo eles afirmaram, sempre que uma determinada operação "esquenta", ou seja, se torna perigosa, eles retiram de circulação os aviões russos e mantêm os nossos. Então, o Mirage 2000 já é, e será cada vez mais a "coluna vertebral" da Força Aérea Indiana.

Tânia Monteiro (OESP): O Sr. Tem intenção de ir à Brasília, além de sua visita à feira?
Charles Edelstenne
: Eu estou sempre disponível para ir a qualquer momento para qualquer lugar do Brasil, que adoro. Minha última visita, entre a ida e a volta, durou 28 horas incluindo o tempo de viagem.

Tânia Monteiro (OESP) – O Sr. acredita no sucesso do Consórcio no Programa F-X?
Charles Edelstenne
: .Eu desejo firmemente que esta operação se concretize, reforçando nossos laços com o Brasil em geral e com a Embraer em particular.

Tânia Monteiro(OESP): Mas isto acontecerá por sua própria iniciativa?
Charles Edelstenne
Espere. É preciso saber que o vendedor é a Embraer e que o Maurício (Botelho, presidente da Embraer), está na linha de frente face ao governo brasileiro. E cada vez que Maurício solicitar minha ida, por necessitar de minha assistência, é com o máximo prazer que irei defender nossas causas comuns.

Nelson During (DefesaNet) - Os resultados de sua cooperação com a Embraer já são considerados satisfatórios?
Charles Edelstenne
: É um pouco prematuro responder, pois nosso investimento é relativamente recente, estamos em uma indústria de longos ciclos e, então, não temos o hábito de aferir a rentabilidade em base de despesas futuras. No que se refere ao consórcio, já houve uma operação positiva, que é aquela do sistema Early Warning entre Thales e a Embraer e acredito que haverá outras operações satisfatórias no futuro, o que não me traz nenhum tipo de preocupação quanto à qualidade do nosso investimento.

Tânia Monteiro(OESP): Qual o faturamento atual da empresa Dassault e, do total desse faturamento, qual à parte que cabe à exportação?
Charles Edelstenne:
É de 3,5 bilhões de Euros e a participação das exportações varia entre 70% e 80% conforme o ano.

Pedro Paulo Resende(CB): A maior parte para os Estados Unidos?
Charles Edelstenne
: A metade do faturamento diz respeito aos Estados Unidos. Em 2002, representou 44% do faturamento.

Pedro Paulo Resende(CB): O Senhor tem alguma idéia e preocupação que estes números diminuam com a posição francesa contra a Guerra do Iraque?
Charles Edelstenne:
Idéia não. Apreensões sim. É difícil avaliar porque é a primeira vez que nos encontramos nessa situação, em nítido desacordo entre os governos francês e americano em matéria de política externa, e o fato é por demais recente para avaliarmos seu impacto sobre nossas relações comerciais futuras, uma vez que ainda estamos raciocinando sobre premissas, pois que a realidade, acredito eu, deve começar a acontecer amanhã pela manhã ( nota - os ataques americanos começaram no dia seguinte) , sendo que "a missa ainda não foi rezada" (expressão francesa).

Acredito que, no momento em que os americanos entrarem efetivamente em conflito, a posição da França vai mudar, uma vez que a França, através de seu governo, tentou por todos os meios evitar esta guerra. Se ela vier a acontecer, não haverá mais como evita-la, uma vez que somos aliados dos americanos em um plano global, e penso que a política francesa vai mudar no momento em que não se puder evitar mais a guerra. Acredito que, a exemplo de outros países, fazemos parte da realização do fato consumado e não existe, de parte da França, nenhuma mudança de aliança, permanecemos claramente ao lado dos aliados dos americanos. Que impacto terá isto sobre os negócios eu não sei, é preciso aguardar alguns meses antes de vermos como o conjunto deste fato terá se desenrolado.

Nelson During (DefesaNet): Poderemos, então, ver porta-aviões Charles de Gaulle com aviões Rafale operando no Golfo?
Charles Edelstenne:
Efetivamente isto já foi observado no passado. Eu não sei o que vai ocorrer amanhã, quais as decisões políticas que serão tomadas. Acabo de almoçar com um almirante da Marinha Francesa, Comandante do porta-aviões, e nem ele próprio sabe. Ele está aguardando a decisão política.

Carlos Lorch (RFA) - Como o Senhor encara o programa JSF (Joint Strike Fighter)? Trata-se de um programa de avião de combate ou de cooperação industrial?
Charles Edelstenne:
O JSF é parecido com a história do cavalo de Tróia, dentro da indústria européia. Acho que, mais uma vez, "a missa não foi totalmente rezada" (expressão).. Por quê? São duas coisas. Primeiramente, o que ocorre nos Estados Unidos, o que constatamos é que as três Forças formam o joint: Marinha, Aeronáutica e Fuzileiros.

A força aérea depende apenas de um único modelo de avião, o F-22, e a marinha só tem um modelo, o F-18. Se fosse possível esticar o orçamento até o infinito. Porém, acho que este programa vai vingar, mas eu não apostaria alto sobre o nível do programa e sob o ponto de vista da quantidade de aviões.

Por outro lado, no que tange ao cavalo de Tróia na Europa, Vance Coffman (Nota Vance D. Coffman, Chairman e CEO da Lockheed-Martin) fez um excelente trabalho. Felicitei pessoalmente Vance Coffman, uma vez que ele consegue vender um produto, que ainda não existe por um preço extraordinário e oferecendo a todos coisas excelentes, a tal ponto que os governos, entre outros, os europeus, assinaram esse contrato como se fosse uma apólice de seguros. Por que apólice de seguros? Porque, numa apólice, existem sempre entrelinhas que ninguém jamais lê. E, quando ocorre um sinistro, por falta de sorte, a falta de cobertura estava justamente prevista nessas entrelinhas.

Entretanto, nos acordos que foram assinados pelos governos, cujo enfoque atual é essencialmente industrial, está escrito que terão direito a retornos industriais e, provavelmente, eles só poderão concorrer se forem competitivos. Assim, estou aguardando com muita curiosidade o que vai acontecer nos próximos 5 a 10 anos. É realmente uma curiosidade, tendo em vista minha experiência de como se desenvolvem os programas americanos. Isto em nada diminui o mérito de Vance pelo trabalho extraordinário que ele realizou.

Nelson During (DefesaNet) - O Senhor afirmou ser um membro da Resistência, a história da Dassault é também uma história de resistência. A Dassault representa o avião de caça. Como o Senhor encara o avião de caça no futuro e como observa sua própria resistência para manter esta atividade?
Charles Edelstenne:
Vocês observaram o comportamento do governo Francês nestas últimas semanas. Estamos sempre em uma perspectiva um tanto "Gaulista". A França não quer que sua política seja ditada até mesmo por um aliado que nós adoramos, que são os americanos. Para que uma política tenha credibilidade, ela deve se basear em uma capacidade militar. É por isto que a França foi um dos primeiros países a desenvolver uma capacidade nuclear, inspirada por ideais do General de Gaulle. Atualmente, no mundo, tanto os países europeus quanto os do extremo oriente, só resta um único país, do ponto de vista tecnológico, capaz de desenvolver aviões de combate, excetuando-se os Estados Unidos.

Eu coloco, entre parênteses, a Rússia porque ela possui capacidades técnicas invejáveis, o único problema é que não sabemos quanto tempo vão permanecer essas capacidades, considerando-se a situação do país. E todas as tecnologias têm este particular, que é o fato de não se ter a possibilidade de pular um degrau. Se alguém perder a evolução por 3, 4 ou 5 anos, estará incapacitado de reencontrar sua capacidade tecnológica. A França deseja manter essa capacidade e colocará em ação todos os meios necessários para mante-la, caso contrário só haverá no mundo uma única oferta, que será a americana. O que significa também que esta oferta é condicional. Eis a razão principal pela qual a França deseja conservar sua liberdade. Determinado número de países no mundo desejam ter um certo grau de liberdade na sua política externa. É a única resposta que lhes posso transmitir.

Tânia Monteiro (OESP): O Sr. pensa que, em razão da perspectiva da Dassault associar-se à Embraer e pelo fato de que foi eleito um novo governo brasileiro com tendências nacionalistas, isto é uma boa perspectiva?
Charles Edelstenne:
Eu vou devolver a pergunta e pedir sua opinião, uma vez que não sou brasileiro e que já vi governos com certas tendências tomarem decisões contrárias àquilo que se esperava. A resposta lógica à sua pergunta é sim, porém não sou um especialista em política brasileira, pelo que me permito devolver-lhe a pergunta.

 Quero agradecer aos Senhores. por haverem dispensado uma parte de seu tempo para virem ao nosso encontro e para fazer suas constatações "in loco". Dessa forma, seus leitores terão a oportunidade de fazerem um julgamento com base nos fatos reais de nossa empresa.

Participaram da entrevista os jornalistas : Tânia Monteiro (O Estado de São Paulo), Pedro Paulo Resende (Correio Braziliense), Carlos Lorch ( Revista Força Aérea ) e Nelson During ( DefesaNet )

DefesaNet foi convidada pelo Consórcio Mirage 2000BR para visitar as instalações das empresas Dassault Aviation, THALES e SNECMA.(Março 2003)