10 de Setembro, 2012 - 10:20 ( Brasília )

Aviação

Aviõezinhos de antanho


José de Souza Martins


Nos começos da aviação, foi nos amplos terrenos baldios de São Paulo que se improvisaram campos de decolagem e pouso. Voar parecia fácil. Mimados e abonados da Pauliceia voavam, correndo riscos. Avião se chamava aeroplano, pouco mais do que um brinquedo. Montava-se avião no fundo do quintal. Havia passado a era romântica dos poetas que morriam de tuberculose, um triste verso final coroando métricas e rimas. O romantismo, agora, ia para os ares. Para os poetas do firmamento, morrer era parte da aventura da vida; a busca da morte era um passatempo. Eles teatralizavam os riscos, despertavam a admiração das mocinhas e a inveja dos marmanjos. Em pouco tempo, havia aviõezinhos nos parques de diversões, quase do mesmo tamanho das latas voadoras.

Era desse tipo o aeroplano utilizado pelo tenente Eduardo Gomes, na Revolução de 1924, para ir do Campo de Marte ao Rio de Janeiro jogar panfletos sobre a cidade, contra o governo, e uma bomba sobre o Palácio do Catete. O aparelho caiu num brejo em Cunha por falta d'água no radiador!

Um desses aviõezinhos caiu na Estrada da Boiada, hoje Avenida São Guálter, em Pinheiros. O piloto se salvou. Por aquela época, aeroplanos voavam por perto de onde é hoje a Cidade Universitária. Pousavam numa pista onde seria depois a raia olímpica e a Marginal. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) fazia pesquisas sobre madeiras brasileiras para fabricação de hélices. Ali começou a nascer o Paulistinha, célebre aeroplano de treinamento, que acabaria fabricado em Utinga, na Laminação Nacional de Metais, de Baby Pignatari. Nos anos 1940, ainda era comum ouvir seu zumbido de mamangava, nos domingos, sobrevoando romanticamente o subúrbio e os arrabaldes.

Pousos e decolagens de jovens pilotos, na segunda década do século 20, eram realizados ou no Parque Antártica ou no Hipódromo da Mooca para audiências nervosas, com direito a gritinhos e aplausos. Foi um desses jovens, o francês Dimitri Sensaud de Lavaud, que fez em Osasco, no dia 7 de janeiro de 1910, o primeiro voo de um aparelho mais pesado que o ar na América do Sul. Lavaud e a família moravam no chalé que fora do banqueiro Giovanni Bricola, hoje museu. Ali tinha o pai uma fábrica de manilhas, em cuja oficina mecânica Lavaud ia montando seu aeroplano. Fez uma rampa de madeira no campo que ia do chalé na direção da estação de Osasco, onde fez naquele dia um voo de 103 metros, oscilando entre uma altura de 2 e 4 metros, até cair e quebrar a hélice. Por uma foto se vê que era uma gaiola de arame com um motor. E voava!

Como voou e caiu, nos campos do Ipiranga, o planador do engenheiro Guido Aliberti e do seu irmão Aldo. Eram donos de uma fábrica de botões em São Caetano. Na queda, em setembro de 1930, Guido morreu. Assunto da página esportiva dos jornais.