05 de Julho, 2012 - 09:31 ( Brasília )

Aviação

Perícia vê falhas técnicas e humanas na tragédia do 447

Conclusões devem nortear processo judicial sobre queda de avião em 2009; Air France e Airbus são acusadas de homicídio culposo

ANDREI NETTO

Peritos independentes contratados pela Justiça da França indicaram no relatório entregue ao Ministério Público de Paris que pelo menos três fatores foram decisivos para a queda do voo AF-447, Rio-Paris, no Atlântico, em 31 de maio de 2009: falhas técnicas, deficiência de treinamento e erros de pilotagem.

As conclusões, reveladas por um sindicato de pilotos da França, lançam dúvidas sobre as companhias envolvidas e sobre agências de aviação civil da Europa e devem nortear o processo judicial, no qual Air France e Airbus respondem por homicídio culposo, não intencional. Hoje, uma segunda perícia será conhecida: o relatório do Escritório de Investigação e Análises para a Aviação Civil (BEA).

Mil e cem dias foram necessários para que a opinião púbica conhecesse enfim as causas da queda do Airbus A330. O documento indica que o piloto Marc Dubois, de 58 anos, e seus copilotos, David Robert, de 37, e Pierre-Cedric Bonin, de 32, teriam tomado decisões erradas durante os quatro minutos de queda, mas essas ações teriam sido causadas por falhas mecânicas e eletrônicas no avião e por falta de treinamento apropriado. O papel das autoridades de aviação civil da França e da Europa também será questionado.

O relatório dos peritos contratados pela Justiça foi entregue na segunda-feira aos advogados das famílias de vítimas, mas não podia ser revelado antes de ser encaminhado aos parentes. Ontem à noite, o Sindicato Nacional de Pilotos de Linha (SNPL France Alpa) divulgou uma nota oficial no qual comenta as conclusões. "O relatório judiciário questiona a concepção do avião, os procedimentos utilizados pelo A330 no momento do acidente, a formação da tripulação por sua companhia, o funcionamento imperfeito da tripulação, assim como falhas gritantes no acompanhamento pelas autoridades dos múltiplos incidentes similares que precederam o acidente", diz em nota o presidente do SNPL, Yves Deshayes.

Sob suspeita. Entre os órgãos questionados, estão a Direção-Geral de Aviação Civil (DGAC) da França e a Agência Europeia de Segurança Aérea (Easa), que teriam menosprezado a importância das falhas apresentadas pelos tubos de Pitot - os sensores de velocidade -, que congelaram durante o voo. No caso dos aviões fabricados pela Airbus, esses equipamentos orientam todos os instrumentos eletrônicos de navegação, que auxiliam os pilotos. Os sensores fabricados pela companhia francesa Thales, que equipavam os Airbus da Air France, apresentaram falhas similares mais de uma dezena de vezes antes da queda do voo Rio-Paris, que matou 228 passageiros e tripulantes, entre os quais 58 brasileiros.

Essa "falha de acompanhamento" dos incidentes é denunciada como inadmissível pelo sindicato. O Estado tentou contatar a Easa, mas não obteve retorno. A juíza de instrução do caso, Sylvia Zimermman, não fala a respeito do caso. Nem a Airbus nem a Air France fazem comentários sobre os relatórios antes de sua divulgação oficial. O documento entregue à Justiça só será apresentado às famílias de vítimas em 10 de julho.

Hoje será a vez de o Escritório de Investigação e Análises para Aviação (BEA, na sigla em francês) divulgar suas conclusões para a queda do voo AF-447. Criticado por experts independentes, por famílias de vítimas, por seus advogados e por sindicatos - por supostamente poupar as empresas e focar na tripulação -, o órgão divulgou um relatório parcial em julho de 2011 no qual dava ênfase à responsabilidade dos pilotos e minimizava as falhas técnicas do Airbus e os problemas de formação da Air France.

No documento que será apresentado às 14h30 de hoje (9h30 de Brasília) na França, os técnicos do BEA devem recomendar melhorias no programa de treinamento da companhia aérea, assim como propor à Easa que crie novas normas para o funcionamento do alarme de perda de sustentação. Esse alerta foi acionado no início das falhas técnicas do Airbus, desligou e voltou a acionar nos quatro minutos de queda. Por razões desconhecidas, o sinal foi ignorado pela tripulação.

Há expectativa ainda em relação às citações sobre Marc Dubois. Segundo reportagem da TV americana ABC, o comandante teria demorado a voltar à cabine porque estava com uma mulher, a comissária Veronique Gaignard, que não estava a serviço. A Air France prometeu manifestar-se após a publicação do relatório. /A.N.