05 de Abril, 2011 - 09:41 ( Brasília )

Aviação

Acidente ajudou a modificar a aviação


HUMBERTO TREZZI E MARCELO FLACH

Mesmo sem que sejam totalmente conhecidas as causas da queda do Airbus A-330 que matou 228 pessoas em 2009, o acidente já provocou trocas de aparelhos e mudanças de procedimentos de pilotagem a fim de evitar novas tragédias em condições semelhantes de voo.

Três pequenos submarinos-robôs, com o tamanho de torpedos, podem solucionar um dos maiores mistérios da aviação mundial: as causas do desastre do voo AF 447 que, em 2009, matou as 228 pessoas que estavam à bordo (entre elas, 52 brasileiros). O avião, um Airbus A-330 da Air France, fazia o trajeto Rio-Paris, em 31 de maio de 2009, quando caiu no mar. Apenas 51 corpos foram resgatados.

Os submarinos-robôs, a serviço da Air France, localizaram há alguns dias destroços da aeronave. A descoberta foi anunciada no fim de semana pelo Escritório de Investigações e Análise da França (BEA, na sigla em francês).

Os investigadores afirmam ainda não ser possível tirar conclusões sobre as causas do acidente, mas hipóteses começam a ser afastadas. Uma delas é de que as turbinas tenham se desintegrado no voo, causa comum a muitos acidentes. Isso, porém, não aconteceu, pois as fotos mostram motores sem sinais de explosão, atestam peritos. A fuselagem e o leme, já encontrados, tampouco estão chamuscados, o que torna improvável que tenha ocorrido um incêndio. Tudo indica que o avião bateu no mar, após trajetória errática dentro de uma gigantesca nuvem imersa numa tempestade.

Mesmo antes de conclusões sobre as causas, o acidente já serviu para acelerar mudanças em jatos da Air France. O acidente acelerou a troca dos tubos pitot (saliência na fuselagem que mede a pressão externa para calcular a velocidade do avião) de Airbus. Conforme relatório do BEA, erros de medidas enviadas pelos tubos pitot podem ter feito os computadores do avião adotarem procedimentos equivocados, provocando a queda.

Logo depois da tragédia, a Air France informou que já havia relato de dados imprecisos enviados pelos tubos pitot – desencadeando procedimentos incoerentes. Em razão dessa instabilidade, os equipamentos começaram a ser trocados em aviões menores, da família do A320. Na semana do acidente do AF 447, a companhia francesa havia recebido um novo carregamento de peças para substituição. O A330 que se acidentou não havia recebido a atualização.

Depois das trocas dos tubos pitot, aviões Airbus passaram por uma reprogramação do computador, na tentativa de fazer leituras mais precisas.

– Com o acidente, foi emitido um boletim mandatório para que fossem feitas substituições de pitot nos aviões – lembra Hildebrando Hoffman, coordenador do curso de Ciências Aeronáuticas da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) e professor da área de sistema aviônicos embarcados.

Resgate começa em semanas

Ainda de acordo com especialistas em aviação, o acidente resultou na adoção de novos procedimentos, como evitar zonas de turbulência.

– Ainda não foram feitas mais alterações (nos aviões e em procedimentos) porque não se sabe a verdadeira razão do acidente – diz o engenheiro Valter Fernandes, da TAP Engenharia e Manutenção no Brasil.

Os submergíveis-robôs, que contam com câmeras e faróis capazes de iluminar objetos localizados pelos sonares dos navios, tiraram mais de 13 mil fotos. As primeiras imagens dos destroços localizados mostram os motores, parte do corpo do avião e o trem de pouso do Airbus.

Foram localizados, também, corpos de passageiros presos na fuselagem, em número ainda não revelado. É uma descoberta impactante, já que até agora menos de 5% do avião tinham sido encontrados. Os achados recentes, acreditam os especialistas, são da maior parte da aeronave.

As operações de resgate dos restos do avião devem começar dentro de três semanas, acredita a ministra francesa dos Transportes, Nathalie Kosciusco-Morizet. Ela abriu uma licitação para o resgate, a ser concluída até quinta-feira. A fuselagem do avião foi localizada a cerca de 70 quilômetros a nordeste da última posição conhecida da aeronave nos radares, a 1,1 mil quilômetros a nordeste de Natal (RN). Os restos do avião estão concentrados num retângulo de 600 por 200 metros, a 4 mil metros de profundidade.

Esperança e ceticismo de parentes

As autoridades francesas acreditam que a baixa temperatura e a pressão da água, além da profundidade, de quase 4 mil metros, podem ter permitido que os corpos das vítimas do voo AF 447 se mantivessem conservados. Mas os familiares dos passageiros manifestam ceticismo. Isso porque a decomposição do cadáver costuma ser mais acelerada na água. A exceção pode, justamente, acontecer porque o acidente ocorreu em águas gélidas, o que talvez tenha retardado a deterioração.

– É um problema espinhoso. Há um aspecto traumatizante. Não sabemos em que estado os corpos estão, é possível que alguns parentes se oponham a que eles sejam recuperados – define Robert Soulas, vice-presidente da “Entraide et Solidarité AF 447”, a associação francesa dos familiares das vítimas.

Nelson Faria Marinho, presidente da associação que reúne mais de cem famílias de vítimas de 12 nacionalidades, diz que o encontro de mais corpos é positivo, até para eliminar dúvidas.

O cirurgião porto-alegrense Eduardo Chem, 40 anos, tinha três familiares no voo: o pai, Roberto (também cirurgião), a mãe, Vera (psicóloga), e a irmã, Letícia, executiva de uma empresa de telefonia. Eduardo diz que só vai pensar a respeito após algum tempo de reflexão. Ele considera que seu luto está elaborado.

– Após dois anos, a gente tem de aceitar os fatos – conclui.