15 de Outubro, 2003 - 12:00 ( Brasília )

Aviação

Entrevista com o Tenente-Brigadeiro-do-Ar Luiz Carlos da Silva Bueno, Comandante da Aeronáutica


Entrevista com o
Tenente-Brigadeiro-do-Ar Luiz Carlos da Silva Bueno,
Comandante da Aeronáutica


Presentes - Brigadeiros J. Carlos ( COMGAR),  Ney Britto (V COMAR), Coronel Russo ( BACO), Brigadeiro Sandim ( III FAe).

Em visita que realizou ao Torneio de Aviação de Caça, no dia 1º de outubro último, o Comandante da Aeronáutica concedeu uma entrevista coletiva à imprensa local e especializada. Estiveram também presentes à coletiva o Tenente-Brigadeiro-do-Ar José Carlos Pereira, Comandante do Comando Geral do Ar (COMGAR); Major-Brigadeiro-do-Ar Cezar Ney Britto de Mello, Comandante do Quinto Comando Aéreo Regional (V COMAR); Brigadeiro-do-Ar João Manoel Sandim de Rezende, Comandante da Terceira Força Aérea (III FAe); e o Coronel-Aviador Paulo Henrique Russo, Comandante da Base Aérea de Canoas ( BACO).

DefesaNet - Comandante, como está a retomada do Projeto F-X?
Brig. Bueno
- A retomada foi iniciativa do próprio Presidente. No começo do ano, quando o Presidente teve que retardar o processo, ele disse que dentro de um ano retomaria o processo de escolha. Para isto, ele recomendou que o processo fosse retomado no dia 1º de outubro. De modo que poderão concorrer ao programa as empresas que participavam do processo. O que é necessário é uma atualização das ofertas. Por que eu falo no plural, ofertas? Porque não é só a aeronave que as companhias oferecem. Normalmente essas compras no exterior têm o que nós chamamos de "Offset", ou seja, a contrapartida no valor igual ao valor da encomenda. Esse processo está estimado em torno de 700 milhões de dólares. As contrapartidas oferecidas pelos próprios quatro ofertantes são muito superiores a esse valor. Sobre o recebimento das aeronaves, isso vai depender de cada tipo de avião que será escolhido e do cronograma de entrega do seu fabricante.

DefesaNet - Nas propostas atualizadas poderá haver inclusão de melhorias tecnológicas?
Brig. Bueno
- A aviação é ponta de lança de qualquer processo tecnológico. Então, é de se supor, é esperado, é desejado, que as novas tecnologias que estão sendo incorporadas aos produtos sejam ofertadas. E também há uma variação possível da capacidade de negócios e da capacidade de comércio. Os países podem ofertar propostas comerciais e de transferência de tecnologia, um sem número de ofertas atualizadas, de acordo com o interesse do ofertante. Isso só pode trazer benefício para quem vai receber as ofertas, ou seja, para o Brasil.

DefesaNet - Na atualização das propostas, poderá haver modificação do projeto original?
Brig. Bueno
: O senhor deve estar se referindo à oferta. O valor continua o mesmo. Se o ofertante der uma oferta mais cara ele vai perder na concorrência. A gente abriu a oportunidade para o ofertante acrescentar valores de desenvolvimento, de conhecimento e de comércio. O preço estipulado, o existente, este não tem sido alterado. O objetivo é exatamente o país comprador adquirir o melhor produto pelo menor preço e com a maior qualidade possível de desenvolvimento tecnológico ou da oferta comercial.

DefesaNet - Não há previsão no orçamento do ano que vem para a compra dos caças. Como será resolvida essa questão?
Brig. Bueno
: O orçamento e o Plano Plurianual (PPA) estão sendo votados no Congresso. E foi percebido isso, mas é uma questão política. Dentro das próprias Comissões do Congresso há a possibilidade de se fazer emendas. Mas como o senhor sabe, é um processo político. Politicamente, cabe aos interessados fazer suas propostas e dentro da maior transparência possível o Congresso vai outorgar ou colocar valores. Agora, o processo de financiamento do F-X será um processo de financiamento total. E um processo de financiamento, para ser aprovado leva em média dois anos. Procurando acelerar o máximo possível, ele só se tornará realmente efetivo em 2006. O contrato pode ser assinado no próximo ano, após a decisão e aí se entra na área de discussão e de aprovação do financiamento. São 22 passos que são dados dentro dos mais variados órgãos da parte econômica, inclusive com a aprovação no final de todos estes vinte e dois passos. Os dois últimos passos serão dados na Câmara e no Senado, para aprovação pelo Congresso. Então, essa previsão é politicamente viável, porque o governo, e quando eu falo governo refiro-me ao executivo e ao legislativo, podem fazer as modificações necessárias para que não haja nenhum empecilho.

DefesaNet - Então não há necessidade de previsão no orçamento do ano que vem para o F-X?
Brig. Bueno -
Não. E pode-se apresentar uma emenda dentro do planejamento plurianual para 2004, 2005, 2006, 2007, e, assim, sucessivamente. Porque é uma questão política e a aprovação do projeto de lei de planejamento também é político. Hoje, realmente, não precisamos de um tostão, pois não vai ter avião nenhum chegando no ano que vem, e normalmente há um tempo de carência depois que chega o primeiro avião, de quatro a cinco anos, devido a fabricação. O contrato tem que ser assinado para se começar e depois se discute como fazer o pagamento. Faz parte da licitação o tipo de oferta de financiamento: pagar em dez anos ou em cinco anos ou pagar em 10 anos a partir do quinto.

DefesaNet - Comandante, sabe-se que os Mirages param em dezembro de 2005. Já foi definida uma solução para cobrir o vácuo até a chegada dos novos aviões?
Brig. Bueno:
Nós temos várias ofertas. Por exemplo: há uma oferta da Dassault, de manter os nossos Mirage voando por mais tempo. Se ganhar o projeto francês pode-se ficar por mais tempo. A Sukhoi tem o Su-27 e está entrando com oferta do Su-35. Eles têm o Su-27 que pode vir para cá e ser recolocado para dar prosseguimento ao nosso sistema de proteção. Então, dependendo do tipo de avião a ser escolhido, o fabricante pode nos fazer uma oferta de modo que continuemos com o nosso sistema de vigilância e proteção aérea.

DefesaNet - Essa oferta de solução "fill gap" poderá pesar na escolha do F-X?
Brig. Bueno
: Não creio que essa oferta vá pesar tanto na escolha. O que vai ter maior peso na escolha será o tipo de avião, que é muito importante. Vai ter a avaliação do tipo de avião e também das contrapartidas. Se o ofertante não der nenhuma contrapartida, mesmo sendo o melhor do mundo, e se houver outro que ofereça contrapartida de tecnologia, de comércio, de troca de informações, tudo isso tem um peso bem maior. A decisão vai ser tomada em nível do Conselho de Defesa, do qual fazem parte vários órgãos, inclusive a parte política também. Ao Comando da Aeronáutica vai caber apenas fazer a apresentação das avaliações técnicas, falar sobre as contrapropostas e as qualidades do avião, e nada mais.

DefesaNet - A respeito da questão de Alcântara? Existe a hipótese de sabotagem?
Brig. Bueno:
Uma imagem fala mais que dois milhões de palavras. A gente viu que foi um acidente violento que traumatizou a todo mundo, e nos traumatizou profundamente, pois estávamos vivendo a fase de pré-lançamento, de modo que não imaginávamos que fosse acontecer uma coisa daquelas. Pela imagem você pode verificar que será dificílimo determinar a causa efetiva do que ocorreu. Então em momento algum se disse que estava fora de cogitação um ato de sabotagem. Uma pesquisa para um acidente dessas proporções exige que todas as hipóteses sejam viáveis, sejam possíveis, têm que ser analisadas. Não há nenhuma condição de se descartar qualquer hipótese. Nós tomamos todas as providências de precaução, para evitar uma sabotagem, para evitar uma surpresa, ou melhor, uma decepção, como aquela que ocorreu. Nós cercamos terra, mar e ar. Algumas coisas nós podemos afiançar. Um sinal de rádio alienígena poderia disparar aquele foguete. Poderia haver alguém e emitir um sinal de rádio para comandar o processo. Mas nós podemos garantir, com todas as nossas preocupações, que não houve a emissão de rádio alienígena. Outra coisa que é um engano é quando o pessoal fala - e eu tenho visto isso freqüentemente nos jornais -, de que havia uma grande quantidade de norte-americanos no setor. Isto não é a realidade. Tenho que fazer essa ressalva, pois tem saído freqüentemente essa informação. Pelo conhecimento que nós tivemos, e nós estávamos atentos para a possibilidade de estrangeiros cercando o centro de lançamento e procurando por alguma coisa ou acesso a alguma informação, não havia americanos em número considerável de presença na área. Isso nós podemos afiançar.

DefesaNet - A hipótese de sabotagem foi descartada?
Brig. Bueno:
De maneira alguma. Nunca falamos disso, nem o ministro da Defesa, nem o governo, nem o próprio CTA. Se vocês me perguntarem: houve sabotagem? Aparentemente, não. Nós levantamos tudo, tomamos providências e precauções. Mas se vocês me dissessem: jura que não? Eu não juro. A gente não sabe exatamente a causa. No dia em que a gente souber a causa, aí podemos dizer: olha foi isso que aconteceu, exatamente. Mas isso aí está completamente aberto para vocês acompanharem, para verificarem, para seguirem as causas, as pesquisas que nós estamos fazendo.

DefesaNet - Quem teria interesse em sabotar o VLS?
Brig. Bueno:
Eu acho que qualquer país do mundo com o qual seríamos concorrentes, ou seja, todos aqueles que podem colocar um satélite no espaço teriam interesse em que a gente não o fizesse, ainda mais com as condições privilegiadas que nós temos, com gasto de combustível muito menor. Então qualquer país nos considera concorrente como nós também, quando passarmos a considerar os outros países nossos concorrentes.

DefesaNet - O senhor falou que não precisa de verba agora para a compra do avião, porém isso vai contra o que o governo falou, que iria gastar o dinheiro nos programas sociais, como justificativa para adiar o projeto.
Brig. Bueno
: Contei aos senhores como é o mecanismo de financiamento. Quando o projeto foi suspenso era o segundo dia do governo, 02 de janeiro, e o governo ainda não estava ciente, não estava sintonizado com esse processo de financiamento. O processo de financiamento tem um tempo de carência. Então, não havia necessidade de recurso, como não existe o recurso. Acabei de explicar que esse recurso só vai ser necessário depois do período de carência, depois que recebermos os aviões. Olha, após a assinatura do contrato o fabricante vai começar a encomendar a matéria-prima, vai começar a fazer a estrutura do avião, vai começar a colocar os pedidos nos fornecedores de motor, de gerador, de trem de pouso, de pneu, de todos os componentes do avião, porque ninguém fabrica um avião completo, normalmente. Só para termos uma idéia, os alojamentos do trem de pouso principal do Gripen, por exemplo, são fabricados na África do Sul e o motor é General Electric, fabricado nos Estados Unidos. Então, o fabricante coloca seus pedidos e só vai começar a pagar aos fornecedores dois a três anos depois. Quando começar a receber é que ele vai montar aquilo. Antigamente, nós exigíamos que o fornecedor, ao entregar a proposta, indicasse o financiador. Agora não. O Banco Central não aceita que o financiador tenha relacionamento com o fabricante.

DefesaNet - Então, não faz sentido a afirmativa de foi adiado por motivos de...
Brig. Bueno:
Isso aí eu não posso julgar. É uma decisão política do presidente. Não sei o que ele tinha em mente, tanto é que ele mesmo determinou que recomeçássemos. Agora, qual foi o motivo que o levou a fazer isso, isto eu não posso lhe responder; primeiro, porque não fomos nós; segundo, porque foi uma decisão política, como está sendo uma decisão política dele agora de retomar o processo.
 
 
DefesaNet - Gostaria que o senhor falasse um pouco sobro o torneio de aviação de caça.
Brig. Bueno:
Peço ao brigadeiro José Carlos, que é o comandante do Comando Geral do Ar (COMGAR), e o responsável pelo torneio, que fale a respeito.

Brig. J. Carlos: Um torneio como este é uma forma como a Força Aérea tem, como todas as forças aéreas do mundo, de exercitar as tripulações das unidades aéreas de maneira bastante intensa em pouco tempo, aproximando muito a situação psicológica da tensão de conflito, por exemplo, mas em ambiente de absoluta paz e tranqüilidade. E ao mesmo tempo em que se aprimora o espírito de corpo e a união das unidades, o prazer é muito grande aqui no Rio Grande do Sul e a com a mesma aviação de caça de Roraima. Dificilmente os pilotos se encontram e as unidades se reúnem. É a oportunidade de todo mundo se reunir para trocar idéias. A forma mais barata que a FAB tem de reunir uma grande quantidade de pilotos de unidade num único ponto do país e fazer um exercício intenso e rápido. Todos voltam para suas unidades e o lucro que obtivemos é fantástico. O custo é muito pequeno, mas o resultado é bastante forte. Basicamente é isso aí. Na crise em que estamos, esta é uma forma de economizar recursos fazendo exercícios de grande porte. Escolhemos o Rio Grande do Sul porque há muito tempo não fazíamos essa operação aqui e estava na hora de vir para o sul e todo o nosso pessoal está vindo, inclusive duas unidades da Amazônia. Basicamente é essa a idéia.

DefesaNet - Acompanhando o torneio desde domingo, vimos que as equipes estão motivadas. O senhor acha possível manter essa motivação, caso os programas de interesse da FAB não cheguem a bom termo?
Brig. Bueno:
Os programas de melhoria da Força, que chamamos de "melhoria operacional da Força", são programas de governo, que após estudos chegou-se à conclusão de que a Força precisa ser atualizada. Acredito que falei um pouco aqui a respeito do conhecimento da pesquisa e desenvolvimento que tem como ponta de lança o avião. Tudo o que existe, tudo o que aparece no mundo de inovação tecnológica, sempre se procura colocar no avião. Conseqüentemente, dessa área de aeronáutica partem os outros desenvolvimentos tecnológicos para a sociedade. De modo que eu acredito que este conhecimento que está sendo incorporado à Força, este "upgrade", é também do seu povo. Então, vai chegar a bom termo. Passarei o microfone ao Brigadeiro José Carlos, para ele mostrar como está conseguindo manter esse "elan", essa vibração, essa vontade de participar e cada vez de maior união com a Força e dentro da Força.

Brig. J. Carlos: Motivação é questão de liderança. Existem comunidades no mundo extremamente carentes e que mantêm o "elan". A vida eterna é uma delas. Morrer e ter a alma eterna é uma forma de ter fé. Motivação é basicamente uma questão de liderança. Nesse ponto a Força Aérea tem hoje um corpo de combatentes bastante treinados. Os Comandantes motivados e o processo de liderança mantém o nosso pessoal, eu diria, com muita fé no país e nas coisas que estão acontecendo. Essa reunião no Rio Grande do Sul mostra bem isso que vocês estão acompanhando de perto. Eu acho que o Rio Grande do Sul é um estado que até ajuda a gente a ter mais fé no país. Também tem algo a ver com a forma de tratar disso. Questões de fé e de liderança nós temos; está faltando o avião.

DefesaNet - O senhor poderia informar o cronograma do F-X?
Brig. Bueno
: Vai depender do avião que for escolhido, vai depender das ofertas que serão feitas, de maneira que são várias as interrogações. Nós temos aviões que podem ser entregues em 1 ano, 2 anos, 4 anos, 5 anos. De maneira que esse "gap" vai depender daquilo que a gente falou inicialmente - das ofertas ou do avião a ser escolhido como substituto do Mirage.

DefesaNet - E o cronograma da fase atual da licitação?
Brig. Bueno
: Vai ser em outubro. Hoje, primeiro de outubro, as empresas deverão estar se reunindo em Brasília, no DEPED. No começo de novembro, 2 ou 3, haverá a entrega das ofertas. No começo de dezembro, as ofertas deverão estar estudadas. Feita a seleção, digamos técnica, será apresentada ao Conselho de Defesa ou na última semana de dezembro ou na primeira semana de janeiro de 2004.

DefesaNet - O senhor sabe quais as ofertas que serão feitas?
Brig. Bueno
: Não posso adiantar o que gostaríamos e como gostaríamos, pois inclusive desconhecemos o que existe de melhoria dentro dos projetos que serão apresentados. Mantemo-nos afastados justamente para não ter este conhecimento. Vou dizer mais uma coisa: isto é tão importante que após a escolha eu garanto a você que em nenhuma conversa a gente torna pública a oferta. Todos eles também dizem que a oferta deles é sigilosa, que cada um ofereceu a sua e não quer conhecer a do outro, que não têm nem interesse em conhecer porque também não querem que o outro conheça a dele. Então você vê o grau de sigilo da informação.

DefesaNet - Quais são os fornecedores que estão participando da concorrência?
Brig. Bueno:
Nós recebemos quatro ofertas: Mirage 2000-5; Gripen; Sukhoi 35; e F16.

DefesaNet: E o MiG-29?
Brig. Bueno:
O MiG-29 ficou fora da última etapa e não compareceu mais. O Mirage parece que será o -9, mas não temos influência nisso. O Mirage oferecido foi o Mirage 2000-5. Externamente é igual ao atual . Aliás, acho o Mirage o mais bonito de todos.

DefesaNet - Os aviões serão fabricados no Brasil?
Brig. Bueno:
Qualquer avião vai ser fabricado lá fora e virá desmontado ou voando, pois todos têm reabastecimento no ar e podem chegar ao Brasil tranqüilamente. Qualquer dos modelos ofertados pode ser montado até dentro da própria unidade, que fica em Anápolis. Desmontado é quando são retiradas as asas, e colocado o que o francês chama de "batic", que é o invólucro onde coloca as peças. Então, não irá gerar nenhum aumento de mão-de-obra no Brasil. Em princípio, é essa a figura que a gente vê e tem presenciado.

DefesaNet - Quanto às compensações?
Brig. Bueno:
Quanto às compensações não sei o que vai ser oferecido. Se a França não oferecer nada para a gente, acha que vai vender só porque a Embraer representa a França, que tem 20% do capital dela . Isto não quer dizer nada porque não é uma oferta. Se ela comprou 20% dela está tendo um grande lucro, pois a Embraer é um grande vendedor de aviões. Eu não sei o que pode acontecer, mas poderá haver oferta de compra de açúcar, de soja, de banana, dependendo do montante que o país vai importar. Suponhamos que vamos gastar 700 milhões de dólares e venha de lá uma proposta de comprar quatro bilhões de dólares de material nosso, ou que venha alguém dizendo que vai nos dar conhecimento para fabricarmos um míssil de tal geração, ou foguete dessa geração, ou automóveis com determinados tipos de conhecimento científico, melhoria de aço, etc. A gente não sabe quais as contrapropostas que poderão vir. Mas tudo o que for oferecido vai entrar na balança e o Conselho de Defesa irá avaliar. Isso é questão política também. Por isso digo que não é uma definição puramente técnica. Vamos fazer uma avaliação técnica e apresentar as propostas de "Offset", de contrapartida, e quem decidirá é o Conselho de Defesa.

Brig. Sandim - Não é somente a Embraer que está associada a uma outra empresa; a própria Avibras, que é genuinamente nacional, também se associou aos russos para a montagem do Su-35 no Brasil.

Brig. Bueno - A VARIG-VEM também está associada a um fornecedor, assim como outras companhias. Quando oferecem passar algo de conhecimento, algo de comércio, podemos pedir para fabricar isso ou aquilo. Nós temos fábrica de peças de motor. Quando compramos o AMX, nós montamos uma fábrica para produzir peças de motor e temos a capacidade de fabricar peças de motor e até peças do motor Rolls Royce Trent. Até hoje fabricamos essas peças . Hoje essa fábrica retornou para a FAB, com a venda da CELMA. Estamos recebendo propostas de fabricar peças de motor para a Pratt & Whittney do Canadá, para a Rolls Royce e até para a GE. Não está dentro desse pacote, mas pode ser que peça para nós fabricarmos dois milhões de palhetas para um motor da GE, do próprio Sukhoi, da SNECMA, etc..

DefesaNet - O senhor poderia fazer uma avaliação sobre os demais programas em andamento: F-5 BR, ALX, P3 BR, CL-X, etc?
Brig. Bueno
- O primeiro AL-X deverá ser entregue em 18 de dezembro. Neste final de ano deveremos receber também o primeiro protótipo do F-5 BR. Quando ao A1, a Embraer demorou bastante para nos entregar a oferta porque o A1 foi fabricado em três modelos e nós temos que padronizá-lo. No primeiro modelo, por exemplo, algumas fábricas pararam de fabricar determinados tipos de peças. Então ele está condenado. Esse primeiro modelo, daqui a alguns anos não terá mais peças de substituição, "spare parts" para os reparáveis. Ele precisa fazer um "upgrade" para ser equiparado, receber uma nova parte de eletrônica, porque a eletrônica dele é antiquada e precisa ser modernizada nos moldes do F-5 BR e do ALX. Esperamos que no ano que vem possamos assinar o contrato e dar prosseguimento a essa modernização. O CL-X, o CASA C-295, que já foi escolhido pelo Conselho de Defesa, e o P3 BR estão na fase de estudos e de discussões; porque o cara ganhou não quer dizer que vai ele levar como pediu; a gente está discutindo com eles. Aí nós vamos ficar com o helicóptero - que realmente precisamos fazer alguma coisa com os nossos helicópteros - temos alguns muito velhos, como UH-1H, com mais de 30 anos. O processo já começou. Fizemos um estudo e definimos que vamos fazer com o fabricante BELL, que vai ser contratado para modificar o motor, a parte estrutural e a aviônica. Também não adianta colocar tudo isso se o helicóptero não fala, se não pode navegar, coisas nesse sentido. Estamos descobrindo também que precisamos, como Força, ter um helicóptero de ataque. Principalmente, porque a gente vislumbra que não estaremos combatendo sempre numa planície. Muitas vezes poderemos ter ações dentro da floresta e em outros lugares que precisam de helicóptero mais robusto e arsenal mais moderno. Então há a necessidade de termos essa parte de helicópteros que é muitíssimo importante dentro de uma Força Aérea do tipo de possibilidades que temos no nosso cenário.

Brig. J. Carlos: O AL-X muda o cenário amazônico e o helicóptero de ataque mudaria ainda mais o cenário amazônico.

DefesaNet - Seria um novo modelo?
Brig. José Carlos:
Não, o modelo é clássico. Você tem um avião alto que enxerga, um avião-radar, um interceptador de grande altitude, que são os jatos, que não consegue pegar o narcotraficante voando baixinho. Então você tem que ter um terceiro segmento, que voa baixo e um avião tipo ALX. E o último segmento é o helicóptero, que pousa em qualquer lugar e que vai pegar o narcotraficante. A FAB precisa ter esse segmento completo, num nível mais alto, um satélite, um avião de reconhecimento forte, um interceptador supersônico, um interceptador de baixa performance e um helicóptero. E, por último, claro, precisa ter a polícia, que vai prender alguém e que não é problema das Forças Armadas. Esse é o segmento completo.

Brig. Bueno - Agradeço a gentileza dos senhores terem vindo aqui demonstrar o interesse pela Força Aérea, pelas Forças Armadas também. É muito importante que o público saiba como estamos trabalhando, porque estamos trabalhando e o que estamos fazendo. É importante também que o governo saiba do interesse da população pelas Forças Armadas, de modo que eu só tenho a agradecer aos senhores por este interesse demonstrado. E agradeço a qualidade, a curiosidade, e a necessidade da informação. Essa matéria-prima dos senhores, que é a informação, eu acho muito importante e nós não podemos negar. Por este motivo, ficamos um pouco mais, justamente para atendê-los a contento. Muito obrigado!

NOTAS DEFESANET

A entrevista coletiva foi concedida nas instalações da Base Aérea de Canoas, sob coordenação da Assessoria de Comunicação Social do V Comando Aéreo Regional.

O 23º Torneio de Aviação de Caça ocorreu entre os dias 28 de setembro e 5 de outubro de 2003.

A CELMA é uma empresa com instalações na cidade Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Antes de ser privatizada pertencia ao então Ministério da Aeronáutica. Foi criada durante a Segunda Guerra Mundial para produzir motores de aviões.

O motor Rolls Royce Trent equipa os aviões : B-777, B-747, A-330 e A-340.