29 de Julho, 2011 - 11:46 ( Brasília )

Aviação

'É uma atrocidade culpar pilotos', diz irmão de vítima do AF 447


Demétrio Rocha Pereira

Irmão de Matthias Peter, uma das 228 vítimas da queda do voo AF 447 no Atlântico em 31 de maio de 2009, o empresário Dirk Peter, 50 anos, afirmou ao Terra nesta sexta-feira que é uma "atrocidade" culpar os pilotos do airbus pelo acidente. A afirmação vem após a divulgação, também nesta sexta-feira, do terceiro relatório do Escritório de Investigações e Análises (BEA), em que são apontadas uma série de equívocos da tripulação dos momentos antecedentes à tragédia.

Veja na íntegra relatório que aponta causas da queda do AF 447
Veja as novas recomendações de segurança do BEA

Peter disse que as famílias das vítimas não acreditam nos relatórios do BEA. "Já estava esperado que apontassem falhas dos pilotos. Faz parte da política do governo francês, para quem trabalha o BEA. Não acreditamos no que eles estão falando. Existem outras simulações que mostraram que teve não só o mal funcionamento das sondas como falha no sistema que transmite dados de voo."

O empresário cita investigações levadas a cabo pela associação alemã dos parentes das vítimas, de acordo com as quais um sensor na cauda do airbus manipulou "deliberadamente o avião" após o desligamento do piloto automático. "É fácil dizer que os pilotos mandaram subir. Extraem o que acham que é conveniente (da caixa-preta). Não divulgam na íntegra o que foi falado (pelos pilotos). Por que não divulgam a fita inteira?", questiona Peter.

Para ele, o BEA e o governo francês "prepararam a opinião pública para uma falha dos pilotos". "Com essa aeronave e a 12 mil m de altura, você teria que bobear muito para causar um acidente", diz. Segundo Peter, a desconfiança em relação ao leme se baseia em análise da Universidade de Tecnologia Aérea de Berlim, que teria simulado em sete computadores as condições de voo do AF 447, com os mesmos equipamentos e softwares, e constatado problema idêntico ao que teria levado à queda do voo Rio-Paris. "A tese deles (da associação alemã de familiares) é a de que a Airbus já descobriu a falha, mas discretamente a tirou do relatório. Pelo jeito, essa falha foi encontrada e deixada por baixo do tapete", acusa.

O acidente do AF 447
O voo AF 447 da Air France saiu do Rio de Janeiro com 228 pessoas a bordo no dia 31 de maio de 2009, às 19h (horário de Brasília), e deveria chegar ao aeroporto Roissy - Charles de Gaulle de Paris no dia 1º às 11h10 locais (6h10 de Brasília). Às 22h33 (horário de Brasília) o voo fez o último contato via rádio. A Air France informou que o Airbus entrou em uma zona de tempestade às 2h GMT (23h de Brasília) e enviou uma mensagem automática de falha no circuito elétrico às 2h14 GMT (23h14 de Brasília). Depois disso, não houve mais qualquer tipo de contato e o avião desapareceu em meio ao oceano.

Os primeiros fragmentos dos destroços foram encontrados cerca de uma semana depois pelas equipes de busca do País. Naquela ocasião, foram resgatados apenas 50 corpos, sendo 20 deles de brasileiros. As caixas-pretas da aeronave só foram achadas em maio de 2011, em uma nova fase de buscas coordenada pelo Escritório de Investigações e Análises (BEA) da França, que localizou a 3,9 mil m no fundo do mar a maior parte da fuselagem do Airbus e corpos de passageiros em quantidade não informada.

Após o acidente, dados preliminares das investigações indicaram um congelamento das sondas Pitot, responsáveis pela medição da velocidade da aeronave, como principal hipótese para a causa do acidente. No final de maio de 2011, um relatório do BEA confirmou que os pilotos tiveram de lidar com indicações de velocidades incoerentes no painel da aeronave. Especialistas acreditam que a pane pode ter sido mal interpretada pelo sistema do Airbus e pela tripulação. O avião despencou a uma velocidade de 200 km/h, em uma queda que durou três minutos e meio. Em julho de 2009, a fabricante anunciou que recomendou às companhias aéreas que trocassem pelo menos dois dos três sensores - até então feitos pela francesa Thales - por equipamentos fabricados pela americana Goodrich. Na época da troca, a Thales não quis se manifestar.