01 de Abril, 2014 - 20:10 ( Brasília )

Aviação

São José perde fábrica de avião para Santa Catarina



Júlio Ottoboni
Exclusivo DefesaNet

 
Na disputa dos santos, São José dos Campos levou a pior e amargou a perda de mais uma fábrica de aviões de seu polo aeroespacial. Santa Catarina, padroeira dos estudantes e dos filósofos, levou a melhor e a conquista foi festejada pelo prefeito de Lages, na serra catarinense, Elizeu Mattos. “ Em Lages vocês não serão mais um, mas a nossa Novaer”, disse em seu discurso entusiasmado em solo paulista.
 
 A debandada de fábricas de pequeno porte do polo aeroespacial do Vale do Paraíba paulista vem ocorrendo desde o final de 2012. Depois da Krauss, Aernova entre outras, agora foi a vez da empresa Novaer Aircraft, fundada em São José dos Campos em 1998. O anúncio oficial de sua instalação em Lages (SC) ocorreu no roll out de seu avião TX-c, nas antigas instalações da AVIBRAS Indústria Aeroespacial, que foi sediada em São José, e que também findou suas atividades no local.
 
Para a administração de Santa Catarina, essa é a primeira de uma série de fábricas que devem constituir um novo polo aeronáutico no país. “Estamos dando um aeroporto inteiro para a NOVAER, com 1,5 mil metros de pista, além de criarmos o centro de inovação e tecnologia. Ainda aguardamos a chegada de uma fábrica de motores aeronáuticos, de helicópteros e outras do segmento”. observou Mattos.
 
Durante a entrevista para o DefesaNet, pelos menos duas outras empresas o procuraram e disseram da intenção de abrir negociação para seguir no rastro da NOVAER para a serra catarinense. A prefeitura de Lages adotou uma postura muito diferente de sua concorrente paulista, o que puder ser feito para atrair novos investimentos será prioridade dentro do poder executivo e sempre com auxílio do governo estadual.
 
“Se não tiver incentivos, criamos. Temos três universidades, o parque de inovação que já no próximo ano entra em funcionamento e um segundo aeroporto, com uma pista de 1,8 mil metros, além de sermos muito bem abastecidos em logística por uma linha férrea e uma estrada federal e logo vamos abrigar uma das maiores fábricas de caminhões do mundo”, dizia sem conter a euforia de lançar Lages no cenário aeronáutico.
 
Desgaste
 
Desde meados do ano passado, a empresa NOVAER optou por buscar um novo local para ser acolhida. O polo aeroespacial do Vale do Paraíba passou nos últimos anos a ter dificuldades para apoiar e manter as pequenas empresas emergentes do setor. Entre os motivos está a falta de incentivos e de um aeroporto exclusivo que abrigue as empresas fabricantes de aeronaves e sua cadeia produtiva.
 
O advogado que atua na área de sociedades e investimentos e integrante do conselho da NOVAER, Claudio César Vernalha de Oliveira, foi um dos responsáveis pela recolocação da companhia no cenário aeronáutico. Assim que passou a buscar novos ares para a empresa, os governos de Goiás, Paraná e Santa Catarina se apresentaram como possíveis destinos. “ Alguns estados tiveram interesse no investimento, mas Santa Catarina foi o que demonstrou mais seriedade e rapidez no processo”, comentou.
 
O que ficou constatado pelos empresários que atuavam no processo foi a falta de resposta da prefeitura de São José dos Campos para manter a NOVAER no polo industrial do município. Mesmo tendo se constituído em 1998 no polo e ter participado ativamente do projeto do avião Super Tucano da EMBRAER e ter projetos próprios, como a construção de pequenos aviões.   A escolha pela cidade de Lages se deu em seis meses.
 
“São José não fez nenhuma proposta desde que foi informada que a empresa deixaria a cidade”, revelou Vernalha, que já tem outros interessados em conhecer os benefícios oferecidos pelo governador Raimundo Colombo. O dar de ombros de São José dos Campos poderá custar caro para o município, uma série de pequenas empresas começam a vislumbrar novas possibilidades longe do descaso do primeiro polo aeronáutico brasileiro, optando por locais como Itajubá e Lagoa Santa, ambos em Minas Gerais, e agora seguir para Santa Catarina.
 
Velório
 
Mas o homem que foi decisivo no processo foi o integrante da Associação das Indústrias de Santa Catarina, Cesar Olsen, também coordenador do comitê de desenvolvimento industrial de aviação da entidade. Ele conheceu o fundador da empresa, Luiz Paulo Junqueira, já falecido em um evento e fez um convite para mudar sua empresa para Santa Catarina. Anos depois se lembrou a conversa e ligou para Junqueira, exatamente no dia do velório do engenheiro.
 
Inconformado, retomou a ligação meses depois e passou a tratar com a nova direção da Novaer, que até então era uma empresa familiar. “Eu não conseguia acreditar na morte do Junqueira e foi essa insistência em saber se era realmente verdade que me levou a estabelecer um novo contato e assim conseguimos essa conquista”, revelou ainda emocionado Olsen.
 
“O governo de nosso estado está muito atento para essas novas oportunidades, a assembleia legislativa já criou um lei especial para se criar o segundo maior polo aeroespacial do Brasil. Uma conjunção de fatores acabou levando a fábrica para a cidade de Lages, onde ela terá uma infraestrutura espetacular. O nicho de pequenas aeronaves é espetacular e o país deixou de produzir há muito tempo”, explicou .
 
Controle
 
Os dois aviões que serão produzidos pela Novaer tiveram aporte de recursos da Finep como do governo catarinense, que tem 25% do controle acionário da companhia. Até o momento foram injetados R$ 25 milhões e outros R$ 80 milhões estão previstos para os próximos anos, na construção da fábrica.  
 
Segundo o presidente da empresa, Graciliano Campos, o próximo passo será buscar a certificação junto à ANAC, além de financiamentos e investidores.  “Também iniciaremos  a construção da fábrica, em Lages, que está prevista para o primeiro semestre de 2014. Esperamos em dois anos estarmos prontos, com a certificação e a fábrica concluídas. Com isso, estimamos gerar mais de 300 empregos diretos, dando um salto também no nosso faturamento”, projeta o executivo.
 
Os aviões produzidos são das categorias do T-Xc, nas versões de treinador, com dois lugares, para atender as forças aéreas e o modelo utilitário, com quatro lugares, para transporte de passageiros e pequenas cargas, para uso civil. Os aparelhos são fabricados de em fibra de carbono, extremamente leves e tiveram como base o projeto do aparelho K 51, do veterano e um dos mais competentes projetistas aeronáuticos do país, Joseph Kovacs, atualmente com 88 anos.
 
Entrevista com o presidente da empresa Novaer Aircraft, Graciliano Campos.
 
Quando será iniciada a construção da fábrica Novaer em Lages e quando ela ficará pronta?

Nosso planejamento prevê iniciar a construção da fábrica até o final de 2014 e tê-la pronta até o final de 2015 ou primeiro trimestre de 2016 para que, até o final daquele ano, se dê inicio a produção em série das aeronaves.
 
Quando ficar pronto, qual será sua capacidade produtiva? Quantos aviões por ano serão produzidos em Lages?

A fábrica de Lages está sendo dimensionada para uma produção máxima de 12 aviões por mês. Entretanto, nosso planejamento de produção é para um ritmo de 10 aviões por mês, a ser atingida no ano 2018.
 
Por que a NOVAER decidiu construir a fábrica em Lages – e não em São José dos Campos onde já está instalada? Quais foram os motivos que nortearam essa tomada de decisão?
 
A opção por Lages levou em consideração uma série de fatores, entre os quais, a proximidade do terreno com o aeroporto, o espaço aéreo local pouco movimentado e a importância de não se concentrar na região outro empreendimentos do gênero, um fator muito valorizado também pelo governo federal, conforme ordenações da END (Estratégia Nacional de Defesa) em que afirma ser necessária a “progressiva desconcentração geográfica” do complexo tecnológico e científico. Além disso, o Governo de Santa Catarina ofereceu condições propícias para o desenvolvimento de um novo pólo aeroespacial e de defesa naquela localidade.
 
Como está programada a fase de certificação/homologação? Quando ela será encerrada?
 
A nossa equipe de engenharia já está trabalhando paralelamente na campanha de certificação do T-Xc, especialmente tendo em vista que essa é uma etapa demorada e que requer diversas atividades técnicas e burocráticas, como desenhos, análises e relatórios de engenharia que já estão ocupando a maior parte da nossa equipe. A previsão é que o processo todo dure dois anos, com termino previsto para primeiro semestre de 2016.
 
O que é o T-Xc? É um avião inovador? Por quê?
 
O T-Xc é um avião inteiramente fabricado em fibra de carbono curada em autoclave. Por isso ele já pode ser considerado um avião inovador. A fibra de carbono é um material já conhecido e cada vez mais utilizado na aviação devido a sua leveza e resistência, no entanto, na maioria dos casos, esse material é usado na estrutura das aeronaves em conjunto com a fibra de vidro ou materiais metálicos. O T-Xc trará ao mercado da Aviação Geral uma aeronave certificada, com estrutura primária e secundária feitas inteiramente em fibra de carbono e, mais do que isso, uma aeronave de uso dual: que atende aos mercados civil e militar. Baseada em um projeto de concepção aerodinâmica e qualidades de vôo excepcionais e capaz de fazer manobras acrobáticas arrojadas, criado por um dos mais renomados projetistas aeronáuticos do mundo e que já tem suas qualidades de projeto demonstradas por um avião “prova de conceito” já testado em vôo.

Alguma outra empresa no Brasil fabrica aviões como esse que a NOVAER pretende produzir? Ou vocês estão entrando numa faixa de mercado onde só existem aviões importados?

Existem empresas nacionais que atendem o mercado da Aviação Geral, com aviões chamados “experimentais”, mas nenhuma delas produz um avião certificado pela RBAC 23 da ANAC, o que impede que essas aeronaves sejam utilizadas comercialmente, para quaisquer que sejam os fins como, por exemplo, para o treinamento de pilotos nos aeroclubes, ou para utilização por empresas de taxi aéreo. Por essa razão, nossos maiores concorrentes serão os fabricantes internacionais, como Cessna, Piper e Cirrus.
 
O desenvolvimento do avião conta com apoio e recursos da Finep? Quanto a Finep investiu nele? Em que linha de financiamento? Subvenção econômica?
 
A FINEP, por meio da sua linha de Subvenção Econômica a Inovação Tecnológica, proveu os recursos na ordem de, aproximadamente, 10 milhões de reais para o financiamento das fases de projeto e prototipagem da aeronave. Estes recursos foram complementados com capital próprio da empresa para financiar o desenvolvimento do avião.
 
Segundo a Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC) 75% da produção da NOVAER em Lages será destinada ao mercado externo. Essa é a tendência?
 
Sim, apesar de termos a segunda maior frota da Aviação Geral no mundo, os EUA ainda são líderes com uma diferença esmagadora. Segundo dados de 2012 da GAMA (General Aviation Manufacturers Association) a frota ativa de aviões a pistão nos EUA possui 155.419 unidades, portanto, a maior parte da produção deve ser absorvida pelos mercados norte americano e europeu, além da China, Índia e demais países chamados “emergentes”, sem que isso cause qualquer problema de abastecimento do mercado interno.
 
Vocês são fornecedores de trem de pouso para o Tucano T-27? Quantos já produziram? E quantos produzem por ano? São o fornecedor exclusivo desse sistema para a Embraer?
 
A NOVAER desenvolveu, a partir de um processo de engenharia que se baseou apenas nos dados do avião e nas cargas de solo, um trem de pouso mais moderno e durável que o original e por isso é a fornecedora exclusiva desse equipamento para os T-27, portanto, quando algum cliente desta aeronave sinaliza a necessidade de trocar essas peças, o pedido nos é encaminhado para que possamos iniciar o processo produtivo. Nós não temos uma cadência constante de produção dos trens de pouso do T-27, pois dependemos da necessidade de manutenção das forças aéreas que utilizam a aeronave.
 
Quantos funcionários a Novaer tem e qual o perfil deles? Quantos são engenheiros?
 
A NOVAER possui atualmente 33 funcionários, 18 dos quais são engenheiros.
 
Qual é o tamanho do mercado de avião geral no Brasil?

A frota de aeronaves da Aviação Geral brasileira só é menor do que a frota dos EUA. Segundo a ABAG, o número total da frota de AG brasileira era de 13.094 aeronaves ao final de 2011.
 

 

Características do produto T-Xc

Descrição Geral

Monomotor a pistão, monoplano de asa baixa;
Estrutura primaria e secundária construídas integralmente em fibra de carbono, curada em autoclave;
Trem de pouso retrátil do tipo triciclo;
Cabine dotada de um compartimento dianteiro para dois ocupantes (instrutor e aluno) dispostos lado a lado;
Compartimento traseiro para transporte de carga;
Acesso ao compartimento dianteiro da cabine através de portas articuladas para cima do tipo “gaivota”;
Acesso ao compartimento traseiro por uma porta do lado esquerdo da fuselagem, também de tipo gaivota.

Emprego

Treinador militar primário / básico e para treinamento de vôo noturno e por instrumentos;
Possui duplo comando completo, onde ambos tripulantes têm acesso a todos os comandos, alavancas, manetes, pedais e chaves seletoras que controlem o avião em todas as fases da operação;
Avião completamente acrobático, sem limitação de manobras acrobáticas entre +6G e -3G;

Certificação

O T-Xc foi projetado para atender aos requisitos de certificação estabelecidos pelas autoridades aeronáuticas internacionais (ANAC, FAA e EASA), conforme o regulamento RBAC Parte 23 (equivalente aos FAR-23 da FAA);
Na configuração Treinador o avião será certificado na categoria “Acrobática”;
Outros requisitos específicos para operação militar ou estabelecidos por órgãos públicos poderão ser utilizados, para atender demandas especiais.

Trem de pouso

Tipo triciclo, telescópico com amortecedores hidro-pneumáticos incorporados;
Retrátil, com recolhimento e extensão potenciada por atuadores hidráulicos;
Equipados com um conjunto de roda e pneumático sem câmara;
Projetados para operação em pistas não pavimentadas;
Travamento positivo dos trens nas duas posições (up e down), dotados de sinalização e sistemas de segurança conforme regulamentos;
Extensão em situação de emergência (free-fall), e alertas de potencia em “lento” e flape baixado, para evitar esquecimento.

Comandos de Vôo

Comandos primários: acionamento por hastes para profundor e ailerons, e por cabos para leme de direção, sendo manche e pedaleira duplicados;
Flapes acionados por atuador eletromecânico central ligado a um tubo de torção, impedindo assimetria;
Flapes acionarão os ailerons, através de um mecanismo de derivação, que passarão a auxiliar os flapes;
Na deflexão máxima de 45º, os ailerons serão defletidos em aproximadamente 22º, aumentando a sustentação e melhorando desempenho de pouso e decolagem;
Compensação de comandos (“trim”) apenas no profundor e leme, atuando por meio de dispositivos eletromecânicos associados a molas, não havendo necessidade de compensação aerodinâmica;
Mesmo quando nas posições extremas de compensação, aos pilotos será permitido override na ocorrência de “trim runaway”.

Grupo Moto-Propulsor

É constituído por um motor Lycoming acrobático, de 6 cilindros normalmente aspirado, seus acessórios, e por uma hélice tripá com “spinner”, instalados à frente da aeronave. O conjunto será certificado para operação em vôos acrobáticos e é isolado da cabine por uma parede de fogo.