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Aviação - Aviation

Defesanet 24 Agosto 2006
Valor 24 Agosto 2006

Escalada do querosene abala as aéreas

Abastecer as aeronaves nos aeroportos de Estados que
cobram menos ICMS já virou prática obrigatória

Daniel Rittner

Se o consumidor já reclama quando se aproxima de um posto de gasolina para encher o tanque do carro em tempos de petróleo acima dos US$ 70 por barril, imagine como anda a preocupação das empresas aéreas para abastecer suas aeronaves, que sugam milhares de litros a cada vôo. Nos últimos anos, o preço do querosene de aviação disparou e uma fatia cada vez maior das despesas operacionais das companhias refere-se à compra de combustíveis. Esse movimento - bem como a análise da flutuação do petróleo no mercado internacional - ocupa um espaço crescente nos balanços da TAM e da Gol, que hoje atendem mais de 87% da demanda por vôos nacionais.

Diferentemente do que acontece com o óleo diesel e a gasolina, a Petrobras repassa a cada 15 dias a variação do petróleo no exterior para os preços do querosene de aviação no Brasil. Levantamento do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea) indica que o querosene vendido pela estatal subiu 1.099% desde janeiro de 1999. No mesmo período, o preço da gasolina tipo A aumentou 303% e a cotação do diesel acumula alta de 501%. Só neste ano, o litro do querosene saltou de R$ 1,16 em janeiro para R$ 1,41 em julho. Na semana passada, a Petrobras reajustou novamente o preço do combustível, em 1,2%. Foi a 11ª alta em 2006.

A escalada na cotação do petróleo já repercute tanto no balanço financeiro quanto no planejamento operacional das companhias aéreas brasileiras. No caso da Gol, as despesas com combustíveis cresceram de R$ 732 milhões no primeiro semestre do ano passado para R$ 977 milhões em igual período deste ano. No entanto, como a frota foi reforçada e a oferta de vôos também aumentou, a melhor comparação é o peso do querosene no total de gastos operacionais da companhia. Essa participação saiu de 20% em 2002, passou para mais de 31% em 2004 e hoje representa quase 40% dos custos.

Trata-se, de longe, do maior gasto isoladamente. Enquanto a despesa com combustíveis beirou R$ 1 bilhão no primeiro semestre, o leasing de aeronaves alcançou R$ 400 milhões, o gasto com pessoal respondeu por R$ 394 milhões e o pagamento de taxas aeroportuárias à Infraero consumiu R$ 141 milhões. No caso da TAM, a participação dos combustíveis no total de despesas operacionais da empresa saltou de 25,2% em 2004 para 33,6%, de janeiro a junho deste ano.

Diante da explosão de gastos, as aéreas começaram a deslanchar programas para economizar - pelo menos um pouco - na compra de querosene. No início do mês, a TAM anunciou a implementação de um projeto para dar nova identidade visual ao interior das suas aeronaves. O carpete, por exemplo, foi desenvolvido com material compactado, diminuindo a densidade por metro quadrado. Junto com a utilização de tecidos mais leves nas poltronas, o peso final de cada avião será reduzido em 150 quilos, gerando uma economia anual no consumo de combustível estimada em US$ 1 milhão.

Outra prática que já vinha ganhando força entre as companhias nos últimos meses, mas tornou-se quase obrigatória hoje, é abastecer as aeronaves preferencialmente nos aeroportos de Estados que cobram alíquotas menores de ICMS sobre o querosene de aviação. É o caso do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, onde a alíquota é de 4% - em São Paulo, o ICMS é de 25%. Nem sempre é possível deixar para reabastecer nos aeroportos mais baratos, dizem os executivos do setor, mas só esse planejamento rendeu à TAM uma economia de R$ 16,3 milhões no primeiro semestre de 2006.

Talvez quem mais esteja inovando no que se refere à diminuição dos custos com querosene seja a Gol. Em 30 de julho, a companhia recebeu a primeiro das 67 aeronaves da encomenda à Boeing do modelo 737-800 "Special Fuel Performance". Ela é mil quilos mais leve do que aviões de modelo semelhante, da própria Gol ou de outras aéreas. Para diminuir o peso, a companhia brasileira estudou durante um ano e meio, com a Boeing, a substituição dos materiais compostos usados nos assentos, encostos, no carpete e na cozinha. Não se mexe nada, porém, na fuselagem. "Ganhamos um peso equivalente a 14 passageiros", afirma o vice-presidente técnico da Gol, comandante David Barioni Neto.

Os novos aviões da Gol são equipados com o "winglet" - um dispositivo que permite a sustentação constante das asas, da raiz à ponta. O que isso significa? Para o passageiro, nenhuma sensação perceptível. Para o piloto, a possibilidade de subir mais alto e de forma mais rápida. Em vôos curtos, como na ponte Rio-São Paulo, "o avião exerce quase totalmente a trajetória balística", explica o comandante Barioni.

Isto é, ao completar a etapa de subida, faz uma descida como um planador, com os motores em baixa rotação, poupando querosene. No caso de trajetos longos, a grande vantagem de uma aeronave moderna é atingir uma altitude mais elevada.

Quanto mais alto chegar, menos oxigênio as turbinas enfrentam - e, portanto, menor é a quantidade de combustível a ser queimado. Simplificando, é como um carro em quinta marcha, andando em velocidade constante numa estrada sem buracos no asfalto. Os novos modelos da Gol podem voar a 41 mil pés (cerca de 12,5 mil metros) em altitude de cruzeiro. Um Boeing 737-300 ou 737-400, usado por companhias como a Varig e a BRA, só chega a 33 mil pés. "Isso resulta em uma economia de até 3% de combustível, dependendo das condições de vôo", diz Barioni.

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