Escalada
do querosene abala as aéreas
Abastecer
as aeronaves nos aeroportos de Estados que
cobram menos ICMS já virou prática obrigatória
Daniel
Rittner
Se
o consumidor já reclama quando se aproxima de um
posto de gasolina para encher o tanque do carro em tempos
de petróleo acima dos US$ 70 por barril, imagine
como anda a preocupação das empresas aéreas
para abastecer suas aeronaves, que sugam milhares de litros
a cada vôo. Nos últimos anos, o preço
do querosene de aviação disparou e uma fatia
cada vez maior das despesas operacionais das companhias
refere-se à compra de combustíveis. Esse
movimento - bem como a análise da flutuação
do petróleo no mercado internacional - ocupa um
espaço crescente nos balanços da TAM e da
Gol, que hoje atendem mais de 87% da demanda por vôos
nacionais.
Diferentemente
do que acontece com o óleo diesel e a gasolina,
a Petrobras repassa a cada 15 dias a variação
do petróleo no exterior para os preços do
querosene de aviação no Brasil. Levantamento
do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias
(Snea) indica que o querosene vendido pela estatal subiu
1.099% desde janeiro de 1999. No mesmo período,
o preço da gasolina tipo A aumentou 303% e a cotação
do diesel acumula alta de 501%. Só neste ano, o
litro do querosene saltou de R$ 1,16 em janeiro para R$
1,41 em julho. Na semana passada, a Petrobras reajustou
novamente o preço do combustível, em 1,2%.
Foi a 11ª alta em 2006.
A
escalada na cotação do petróleo já
repercute tanto no balanço financeiro quanto no
planejamento operacional das companhias aéreas
brasileiras. No caso da Gol, as despesas com combustíveis
cresceram de R$ 732 milhões no primeiro semestre
do ano passado para R$ 977 milhões em igual período
deste ano. No entanto, como a frota foi reforçada
e a oferta de vôos também aumentou, a melhor
comparação é o peso do querosene
no total de gastos operacionais da companhia. Essa participação
saiu de 20% em 2002, passou para mais de 31% em 2004 e
hoje representa quase 40% dos custos.
Trata-se,
de longe, do maior gasto isoladamente. Enquanto a despesa
com combustíveis beirou R$ 1 bilhão no primeiro
semestre, o leasing de aeronaves alcançou R$ 400
milhões, o gasto com pessoal respondeu por R$ 394
milhões e o pagamento de taxas aeroportuárias
à Infraero consumiu R$ 141 milhões. No caso
da TAM, a participação dos combustíveis
no total de despesas operacionais da empresa saltou de
25,2% em 2004 para 33,6%, de janeiro a junho deste ano.
Diante
da explosão de gastos, as aéreas começaram
a deslanchar programas para economizar - pelo menos um
pouco - na compra de querosene. No início do mês,
a TAM anunciou a implementação de um projeto
para dar nova identidade visual ao interior das suas aeronaves.
O carpete, por exemplo, foi desenvolvido com material
compactado, diminuindo a densidade por metro quadrado.
Junto com a utilização de tecidos mais leves
nas poltronas, o peso final de cada avião será
reduzido em 150 quilos, gerando uma economia anual no
consumo de combustível estimada em US$ 1 milhão.
Outra
prática que já vinha ganhando força
entre as companhias nos últimos meses, mas tornou-se
quase obrigatória hoje, é abastecer as aeronaves
preferencialmente nos aeroportos de Estados que cobram
alíquotas menores de ICMS sobre o querosene de
aviação. É o caso do Rio de Janeiro
e de Minas Gerais, onde a alíquota é de
4% - em São Paulo, o ICMS é de 25%. Nem
sempre é possível deixar para reabastecer
nos aeroportos mais baratos, dizem os executivos do setor,
mas só esse planejamento rendeu à TAM uma
economia de R$ 16,3 milhões no primeiro semestre
de 2006.
Talvez
quem mais esteja inovando no que se refere à diminuição
dos custos com querosene seja a Gol. Em 30 de julho, a
companhia recebeu a primeiro das 67 aeronaves da encomenda
à Boeing do modelo 737-800 "Special Fuel Performance".
Ela é mil quilos mais leve do que aviões
de modelo semelhante, da própria Gol ou de outras
aéreas. Para diminuir o peso, a companhia brasileira
estudou durante um ano e meio, com a Boeing, a substituição
dos materiais compostos usados nos assentos, encostos,
no carpete e na cozinha. Não se mexe nada, porém,
na fuselagem. "Ganhamos um peso equivalente a 14
passageiros", afirma o vice-presidente técnico
da Gol, comandante David Barioni Neto.
Os
novos aviões da Gol são equipados com o
"winglet" - um dispositivo que permite a sustentação
constante das asas, da raiz à ponta. O que isso
significa? Para o passageiro, nenhuma sensação
perceptível. Para o piloto, a possibilidade de
subir mais alto e de forma mais rápida. Em vôos
curtos, como na ponte Rio-São Paulo, "o avião
exerce quase totalmente a trajetória balística",
explica o comandante Barioni.
Isto
é, ao completar a etapa de subida, faz uma descida
como um planador, com os motores em baixa rotação,
poupando querosene. No caso de trajetos longos, a grande
vantagem de uma aeronave moderna é atingir uma
altitude mais elevada.
Quanto
mais alto chegar, menos oxigênio as turbinas enfrentam
- e, portanto, menor é a quantidade de combustível
a ser queimado. Simplificando, é como um carro
em quinta marcha, andando em velocidade constante numa
estrada sem buracos no asfalto. Os novos modelos da Gol
podem voar a 41 mil pés (cerca de 12,5 mil metros)
em altitude de cruzeiro. Um Boeing 737-300 ou 737-400,
usado por companhias como a Varig e a BRA, só chega
a 33 mil pés. "Isso resulta em uma economia
de até 3% de combustível, dependendo das
condições de vôo", diz Barioni.