03 de Abril, 2015 - 13:00 ( Brasília )

Armas

Fuzil de Combate AK-47 - ‘7.62mm AvtomatKalashnikova AK’

As armas militares soviéticas são funcionais, simples de operar e manter, projetadas para produção em massa. Nunca houve significativa demanda por uma boa ergonomia ou grande precisão.

Fuzil de Combate AK-47
(‘7.62mm AvtomatKalashnikova AK’)


História e Realidade.

As armas militares soviéticas são funcionais, simples de operar e manter, projetadas para produção em massa. Nunca houve significativa demanda por uma boa ergonomia ou grande precisão.

 

Frederico Aranha
Advogado e Historiador
aranha.frederico@gmail.com

Em novembro de 1942, uma Força Tarefa (Kampfgruppe) alemã composta de várias unidades desgarradas sob o comando do General Theodor Scherer foi isolada e cercada na cidade de Kholm (Cholm), ao sul de Leningrado. O cerco perdurou até fevereiro de 1943. A resistência foi possível graças ao apoio aéreo da Luftwaffe – reabasteceu ininterruptamente os defensores via lançamentos de paraquedas.


Os soviéticos lançaram centenas de ataques durante os 107 dias de cerco, ao cabo dos quais unidades blindadas alemãs abriram um corredor de resgate possibilitando a retirada dos sobreviventes. Dos cerca de 5.500 homens cercados escaparam não mais de 1.200, a maioria ferida com maior ou menor gravidade. Havia no grupo soldados armados com a inédita Carabina Automática MKb.42 (Machinenkarabiner MKb.42), calibre 7,92x33 mm (7,92 Kurz), tiro seletivo, carregadores de trinta cartuchos, cerca de cinquenta protótipos que se encontravam em testes de campo a que se somaram mais de mil carabinas lançadas de paraquedas.

A MKb.42 evoluiu para o MP43 e este para o “fuzil de assalto” Stg44 (Sturmgewher 44). Eram armas notáveis para a época, nascidas de concepção doutrinária formulada pelos militares alemães ao fim da Grande Guerra, profetizando que o combate futuro seria travado a menos de 400 m.  Informação do Tenente Coronel Dr. Rudolf Forenbach publicada no jornal Wehrkunde (I/53) após a guerra, resumia o seguinte: (...) que o Grupo de Combate Scherer estava equipado com “fuzis de assalto”. De acordo com depoimentos dos defensores, essa circunstância tornou possível resistirem... até o resgate.     
               

 

Carabina Automática MKb.42


Impressionados com o volume de fogo de que eram capazes os infantes alemães os soviéticos arrebanharam muitas carabinas e alguma munição 7,92 Kurz. Em meados de 1943, a Carabina alemã MKb.42 e a Carabina M1 americana foram avaliadas por técnicos soviéticos, ficando decidido que armas similares empregando munição intermediária seriam prontamente desenvolvidas para o Exército Soviético.

Stalin encarregou Beria, chefe do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), de supervisionar o andamento do projeto.  Em novembro de 1943 especificações da nova munição intermediária 7,62x39 mm M1943 foram enviadas a todos os Bureaus de projetos de armas leves da União Soviética. Na primavera de 1944 havia pelo menos dez projetos de fuzis automáticos em andamento.

Nenhum dos modelos satisfez à Comissão de Testes que requisitou a apresentação de novos projetos para testes no início de 1946.  Surge então Mikhail Kalashnikov jovem sargento das forças blindadas soviéticas. Após ferido em combate em 1942, projetou uma submetralhadora enquanto se recuperava. A arma foi rejeitada, porém ele obteve transferência ao NIPSMVO (Centro de Pesquisas e Testes de Armas Leves e Morteiros do Exército Vermelho) para estudar e trabalhar em novas armas.

Ali projetou uma carabina semiautomática inspirada no fuzil semiautomático americano M1, que serviu de ponto de partida para a primeira carabina automática Kalashnikov, provisoriamente denominada AK No.1 ou AK-46. Em novembro de 1946 o protótipo do AK-46 foi escolhido juntamente com cinco outros (de dezesseis submetidos à Comissão de Testes) para futuras avaliações. Kalashnikov foi enviado à cidade de Kovrov, nas cercanias de Moscou, para fabricar sua arma numa tradicional e conceituada indústria de armas ali existente, que também abrigava um centro de pesquisas e projetos.

O AK-46 era um fuzil convencional, operado por gás, ferrolho rotativo com dois trancamentos (copiado do fuzil semiautomático M1 e da carabina semiautomática M1 americanos), pistão de gás de curto recuo posicionado acima do cano, carregador linear de trinta tiros copiado da carabina alemã. Em dezembro de 1946, os novos fuzis foram testados no campo de tiro do NIPSMVO. Num primeiro momento, a Comissão de Testes selecionou o AK-46 e protótipos dos renomados projetistas Dementiev e Bulkin.

A segunda etapa de testes incluiu as três armas (AK-46 de Kalashnikov, AB-46 de Bulkin e AD de Dementiev): o AK-46 foi considerado inferior aos seus rivais em vários aspectos e por isso rejeitado. Apesar do fracasso, Kalashnikov, contando com o apoio de membros da Comissão, conseguiu convencer o grupo de árbitros a rever os resultados, obtendo sinal verde para continuar o seu trabalho. Kalashnikov e o engenheiro-chefe Aleksander Zaitsev decidiram refazer o protótipo copiando soluções técnicas de sucesso de várias armas inclusive as dos outros competidores.
             
                                                                                                                       
     
Por exemplo, o longo pistão de gás do recuo fixado na culatra móvel – berço do ferrolho rotativo, bem como a mola recuperadora cativa e a tampa da caixa da culatra foram copiados do Bulkin AB-46; a ideia de grande folga entre o conjunto culatra móvel/ferrolho rotativo e as paredes da caixa da culatra, eliminando quase que completamente a fricção entre essas peças, inspirou-se no pioneiro fuzil automático AS-44 de Sudaev testado em 1944 (não passou de protótipo devido ao peso, quase 6 kg); a tecla de segurança/seletor de disparo/protetor de poeira foi copiada do fuzil de caça Remington modelo 8 projetado por Browning.  

Cabe esclarecer que a cópia de projetos e o aproveitamento de ideias de terceiros foi incentivado pela Comissão de Testes (e de resto pela ideologia soviética), uma vez que toda a propriedade intelectual era considerada “propriedade do povo”, entenda-se do Estado. Dessa forma, qualquer propriedade intelectual de todo o tipo detida pelo Estado podia (e devia) ser usada para o bem do povo/ Estado por qualquer cidadão ou entidade. Criar um novo e mais eficiente fuzil de combate para o vitorioso Exército Soviético estava certamente no topo da lista de prioridades.
            
Intensos testes realizados de Dezembro de 1947 a Janeiro de 1948 com o fuzil KB-P-410 de Dementiev, o TKB-415 de Bulkin e o totalmente novo AK-47 resultaram inconclusivos. O AK-47 foi considerado o mais durável e funcional dos três, mas inferior aos outros no quesito precisão, sobretudo em rajada (o fogo automático era e é considerado o modo preferencial de tiro para fuzis de combate na União Soviética/Rússia).

A Comissão, pressionada por Beria, finalmente decidiu que o ótimo é inimigo do bom sendo preferível ter uma arma funcional, ainda que de menor precisão, do que aguardar indefinidamente por uma superior em todos os detalhes. A produção da nova arma ficaria a cargo do grande complexo fabril de Izhevsk (nos Urais), atualmente Fábrica de Máquinas Izhevsk- IzhMash. A adoção oficial deu-se em 1949 com a designação de '7.62mm AvtomatKalashnikova AK' (Carabina automática Kalashnikov 7,62 mm).

Ao mesmo tempo foi adotada uma versão com coronha metálica rebatível (cópia da coronha da submetralhadora alemã MP38/40) para unidades paraquedistas – ‘7,62 mm AvtomatKalashnikovaskladnoy AKS' (Carabina automática Kalashnikov 7.62mm coronha dobrável).
          
 

           AK-47, modelo 1949, chassi estampado.       




                

AK-47, modelo 1951, chassi usinado.

  
Foram muitos os percalços sofridos pela arma fabricada em série: o projeto original da caixa da culatra de aço estampado (calcado na carabina alemã) gerou problemas nas linhas de fabricação e montagem. A pobre tecnologia (maquinaria e mão de obra inadequadas naquela época na Rússia) resultou numa altíssima percentagem de caixas de culatra rejeitadas em função de paredes mal estampadas, rebitagem imprópria de partes, má geometria do conjunto, etc.

A revisão crítica do processo de fabricação recomendou que técnica e economicamente seria mais vantajoso retornar ao “velho método” de produção da caixa da culatra usinada a partir de um bloco de aço, posta em prática em 1951. Fontes abalizadas afirmam que a alteração do projeto foi comandada por Hugo Schmeisser, engenheiro alemão criador de uma extensa linhagem de armas militares entre elas a Carabina Automática MKb.42, então prisioneiro de guerra. Há memória de sua presença em Izhevsk na época, contudo inexiste qualquer prova documental. A censura stalinista era implacável.
                     
Em meados dos anos cinquenta o Exército Soviético manifestou interesse em novo fuzil de combate. A requisição pedia também um fuzil metralhador (metralhadora leve no jargão russo) no mesmo calibre do AK. Testes ocorreram em 1957-58: a equipe Kalashnikov/IzhMash submeteu um AK aperfeiçoado, com novo tipo de caixa da culatra estampada e outras alterações. Certas armas rivais mostraram-se teoricamente mais eficientes em combate e com custo menor de produção.

A Comissão de Testes decidiu mais uma vez que o ótimo é inimigo do bom e recomendou o AK melhorado dado seu bom desempenho em combate e a familiaridade entre a tropa, afora detalhes técnicos conhecidos da indústria. Foi adotado em 1959 com a nomenclatura AKM (‘Avtomat Kalashnikova Modernizirovannyj’ – Carabina Automática Kalashnikov Modificada) juntamente com o fuzil metralhador RPK (‘RuchnoyPulemyotKalashnikov’– Metralhadora Leve Kalashnikov) no mesmo calibre 7,62 mm M43 e peças com o AKM. O centenário Arsenal de Tula juntou-se à IzMash para fabricar o AKM.
 
 


           




As alterações básicas do AKM, comparado com o AK, foram a introdução da caixa da culatra estampada e sistema de disparo melhorado com o acréscimo de um redutor de velocidade em rajada. A instalação de um freio de boca foi também importante: o dispositivo na forma de colher é parafusado na extremidade do cano e utiliza a força dos gases do disparo para “empurrar” o cano para baixo e para a direita (visto a tendência da arma de girar para a esquerda em fogo automático), melhorando consideravelmente o grupamento da rajada. A coronha de madeira maciça deu lugar a uma de madeira laminada.




            
Em 1974, o Exército Soviético adotou a munição 5,45X39 M74 mm adaptando o AKM para usa-la. A nova arma foi designada AK-74.

De cima para baixo: AK-74, carregador de 40 tiros; AK-74 YH, carregador de 20 tiros; AK-74, carregador de 40 tiros, coronha dobrável metálica.

Todavia, o AKM nunca foi declarado oficialmente obsoleto e retirado do serviço ativo. Algumas tropas regulares ainda estão armadas com o antigo AKM da era 1960. Há, também, um crescente interesse nas armas calibre 7,62 mm M43, posto o desagrado dos militares com o desempenho da munição 5,45X39 mm M74 durante engajamentos em conflitos, pautados pelo combate urbanos, nos anos 80 e 90.

Algumas tropas especiais russas e unidades do Ministério do Interior operando atualmente na Chechnya estão armadas com o venerável AKM. O AK e o AKM foram amplamente exportados para países e regimes pró soviéticos ao redor do mundo. Licenças de fabricação e até plantas industriais completas foram transferidas gratuitamente para países do Pacto de Varsóvia (Albânia, Bulgária, Alemanha Oriental, Hungria, Polônia, Romênia) além da Iugoslávia, China e Coréia do Norte. Certos países amigos “não comunistas”, Egito, Finlândia, Iraque, também receberam licença de fabricação.

Afirma-se que foram fabricados 100 milhões de unidades da família AK. Entretanto, dados realistas apontam para não mais de 50 milhões, a maioria fabricada fora da Rússia, quantidade esta, de qualquer modo, formidável.  O AK-47 e sucedâneos são adotados por mais de 70 países e preferido pelos grupos insurgentes, terroristas e pelo crime organizado no mundo inteiro. Deve-se essa predileção à facilidade de manejo e à exigência de manutenção mínima, possibilitando que qualquer pessoa rapidamente domine o emprego da arma.

Especialistas apelidaram o AK-47 de “qualquer terreno” visto que funciona nas condições mais adversas, sob chuva, lodo e areia. Sua operação é muito simples e segura. Unanimemente considerada a arma militar portátil mais confiável de todos os tempos é, seguramente, a que mais mortes provocou.
           
Recentemente, foi apresentado o fuzil AK-12, quinta geração do AK, com alterações visando principalmente a simplificação do manejo e mais precisão. Trata-se de arma muito avançada capaz de uma infinidade de configurações combinando diferentes coronhas, diferentes canos de diversos tamanhos, diferentes calibres, carregadores de várias capacidades e diferentes controles de disparo. Aprovado pelo Exército Russo, será adquirido a partir de 2015 primeiramente para as forças especiais.

Considerações Finais

Na IIª Guerra Mundial o Exército Vermelho deslocou-se por territórios anteriormente ocupados pelos alemães. Nesse período, os militares soviéticos equiparam e treinaram unidades combatentes na Europa Oriental que se tornariam os novos Exércitos nacionais. Durante os primeiros tempos da Guerra Fria esse arranjo era razoável e aceito pelo Kremlin. Entrementes, os países aliados organizaram a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN) em 1949, concedendo agreement para a criação da República Federal da Alemanha.

O Kremlin reagiu fundando a República Democrática Alemã (DDR) no território sob ocupação soviética na Alemanha Oriental. Em 1955, a Alemanha Ocidental juntou-se à OTAN. O Kremlin contra atacou organizando o Pacto de Varsóvia (Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua) integrando todos os países satélites, cujo moto, ironicamente, era União pela Paz e pelo Socialismo.

O significado inicial desse pacto político-militar foi retaliador e simbólico, na realidade uma escalada. A corrida armamentista estava recém começando, estimulada pelo artigo 5º do tratado, pelo qual os países membros aceitavam um comando unificado. No final de 1955, circularam detalhes das ordens recebidas pelos comandantes dos exércitos do Pacto, pelas quais eram responsabilizados por o suprimento de “equipamento militar compatível com o sistema de armas aprovado”.

Esse linguajar traduzia simplesmente que só seria distribuído equipamento de origem soviética, incluindo as mais comuns das armas – armas leves e munição. Significava a padronização de todo o equipamento militar do bloco Oriental, conceito que se tornou a pedra de toque do Pacto de Varsóvia. Isso tudo fazia sentido para travar uma guerra que nunca ocorreu.

O fuzil de combate AK-47 foi um produto do militarismo socialista. A produção, venda e distribuição não eram controladas por forças do mercado, conectadas que estavam a decisões centralizadas e objetivos nacionais. O Pacto de Varsóvia colocou o AK-47 no centro de uma franquia socialista de armas que gerou uma superprodução.
          
No início dos anos 60, Mikhail Kalashnikov não era mais importante para o sistema socialista de produção de armas. As armas já estavam criadas carregando seu sobrenome. O volume e locais de produção dessas armas, a distribuição e o uso do nome estavam fora do seu controle. Ele passou a ser apenas uma figura pública: a história e sua face.
 
 
Fontes de Consulta
 
Bibliografia

CHIVERS, C.J. The Gun. The AK-47 and the Evolution of War. London: Allen Lane, 2010.
EZELL, Edward Clinton.Small Arms of the World. A Basic Manual of Small Arms 11th rev. ed. Harrisburg: Stackpole, 1977.
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MUSGRAVE, Daniel D. & NELSON, Thomas B. The World’s Assault Rifles (And Automatic Carbine). Alexandria: TBN, 1967.
POPENKER, Max & WILLIAMS, Anthony. Assault Rifle. The Development of the Modern Military Rifle and its Ammunition. Sevenoaks: Crowood, 2005.
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Dicionário de Termos Militares. Rio de Janeiro: Estabelecimento General Cordeiro de Farias, 1958.