13 de Janeiro, 2015 - 08:20 ( Brasília )

Armas

Como “armas inteligentes” podem moldar a política externa americana no futuro

Travas, senhas e autodestruição podem facilitar a tarefa americana de armar seus aliados e testas-de-ferro em conflitos no exterior. Mas não eliminam responsabilidades e dilemas nas relações internacionais dos EUA

Por Pierre Bienaimé – Texto do Business Insider
Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

Em 03 de novembro de 1969, o então presidente americano Richard Nixon fez um pronunciamento nacional, no qual apresentou o que viria a ser descrito como a “Doutrina Nixon”, uma política externa de três etapas “para evitr futuros Vietnãs”.

O terceiro ponto desse tripé foi o que mais teve eco na política externa dos EUA ao longo do tempo. Nixon sugeriu que o país “fornecesse assistência econômica e militar quando necessário, conforme os termos dos tratados de que fazemos parte”. Em vez de perder sangue e recursos nas guerras de amanhã, o então presidente propôs que Washignton podia apenas armar seu lado preferido em um conflito.

O problema, pouco observado atualmente diante da hesitação do governo Obama em armar militantes não-extremistas contra o regime de Bashar al-Assad na Síria, é que essas armas podem cair em mãos erradas, levando o confronto por rumos indesejados ou imprevistos.

 “Armas inteligentes” – que através de vários mecanismos técnicos se tornam inoperáveis com o tempo, ou que só disparam nas mãos do usuário para o qual foram feitas – podem mudar essa realidade.
Armamentos particularmente perigosos podem ser projetados para ter vida útil curta. Um ex-oficial de segurança do governo Bush contou à revista Time que seria possível “incluir obsolescência no design dos MANPADS” – lançadores de mísseis superfície-ar portáteis usados para abater aeronaves.

Em entrevista ao The Economist, Patrick McCarthy, chefe do gabinete de controle de padrões para armas de pequeno porte das Nações Unidas, comentou sobre o seguinte mecanismo: propelentes químicos em lançadores de mísseis e morteiros que se decompõem e se tornam inativos com o tempo.

Em seu artigo explorando possíveis soluções para o conflito na Síria, o especialista em políticas para defesa Anthony Cordesman, do Center for Strategic and International Studies, especula que armas poderiam “desativar na presença de aeronaves americanas, aliadas ou civis”, ou permanecerem travadas por senhas trocadas periodicamente e conhecidas apenas pelo pessoal adequado para operá-las”.
 
 “Essas são ideias que eu sei que foram concebidas na área de DDP&E [design, desenvolvimento, pesquisa e engenharia] há mais de 20 anos”, disse Cordesman ao Business Insider. Ele passou boa parte de sua carreira a serviço do Departamento de Defesa americano.

 “A questão é sempre o quão urgente é a demanda. E é óbvio que, por mais que a demanda seja urgente, não é algo que possamos suprir prontamente”, o especialista diz se referindo à situação acerca do Estado Islâmico (EI, ISIS ou ISIL) que já matou milhares na Síria e no Iraque.

Diante do caos espalhado pelos dois países árabes, os Estados Unidos têm interesse em enviar para lá armamentos que militantes do EI não sejam capazes de manusear. Quando os extremistas tomaram a cidade de Mosul (Iraque) em junho, se apossaram de armas e veículos que os EUA haviam dado às Forças Armadas iraquianas. Se esses equipamentos fossem protegidos por senhas ou bloqueados de alguma outra forma contra uso inadequado, o impacto da derrota das forças iraquianas teria sido amortecido.

Mas, como aponta Cordesman, não é certo qual o interesse real em tornar essas armas inteligentes parte da política externa americana – partindo do princípio de que sequer se considere essa possibilidade. Esses itens só estão começando a aparecer, e não se mostraram comercialmente viáveis nos EUA.

Segundo Blaine Konow, que tem uma empresa especializada em monitorar a localização de armas através de chips instalados, as forças de mercado vão favorecer as demandas militares e das polícias por armas rastreáveis primeiro. “Eu tento trabalhar com militares porque os civis não querem chips em suas armas”, diz Konow. “Ninguém quer isso. Mas em termos de Forças Armadas, polícias, FBI, etc, seria interessante para essas instituições”.

Armas inteligentes usadas por forças policiais podem ser travadas quando não estiverem sendo usadas, ou protegidas por senhas para o caso de serem roubadas ou perdidas. Mas exportação e política externa são instâncias bem diferentes, e nem todo mundo está convencido de que esses armamentos devam fazer parte das estratégias dos EUA no exterior.

Um blogueiro no portal The Arabist classificou as especulações de Cordesman como “um momento de Dr. Fantástico-da-insurgência”, e argumentou que armas inteligentes não eram necessariamente o caminho para um engajamento mais responsável de Washington com o resto do mundo.

Armamentos avançados podem distorcer a visão dos políticos acerca das consequências de suas decisões, criando um colchão de segurança superficial com problemas próprios: “cômodo ver Bashar al-Assad cair porque prejucaria o Irã?”, escreve o The Arabist. “dêem aos homens da al Qaeda mísseis antiaéreos portáteis que podem ser desativados depois de causarem a destruição com a qual vocês não parecem ter grandes problemas”.

Já Jonathan Mossberg, CEO da iGun Technology, aponta problemas diferentes. Sua empresa está trabalhando em uma escopeta inteligente que, segundo relatório do National Institute of Justice, “poderia ser considerada a primeira arma de fogo personalizada a ir além da categria de protótipo e ser efetivamente comercializável ou pronta para a linha de produção”.

A escopeta contém um chip ligado a um anel por tecnolgia magnética. Se o usuário não estiver com o anel, não poderá disparar a arma. Um mecanismo como esse pode salvar vidas em solo americano, tornando uma arma roubada – como a usada no massacre na escola primária de Sandy Hook – inoperável.

Mas isso não significa que esse tipo de tecnologia seria ideal para ser enviada a uma nação testa-de-ferro ou aliada dos EUA em um conflito no exterior. “Muitos dos que discutem e escrevem sobre o assunto não sabem que armas precisam ser desmontadas mara manutenção, para que se mantenham confiáveis”, explica Mossberg. “Toda vez que que você cria um mecanismo para tornar a arma menos acessível ao inimigo, também torna mais difícil mantê-la confiável para você e seus companheiros”.

Mossberg não duvida da tecnologia de desativação à distância, mas da viabilidade de incorporar essa função aos armamentos sem elevar demais os custos. O empresário adverte ainda que armas inteligentes desativadas podem ser “hackeadas” e colcadas de volta em ação, apesar de esse ser um problema que modelos mais caros e de melhor qualidade podem muito bem eliminar.

O fundador da empresa irlandesa TriggerSmart, Robert McNamara concorda. “Qualquer arma pode ser desmantelada. É como roubar um carro. O criminoso pode pegar só as rodas depois de levar o carro para algum desmanche escondido.

Mas o empresário sugere que é possível projetar uma arma que se desmanche caso tentem explorá-la. “Se a tecnologia estivesse em sua estrutura, poderia haver cápsulas com ácido ou coisa do gênero para destruí-la”, explicou ele ao Business Insider. Certas lojas já usam um mecanismo parecido contra roubos. Se um cliente sai do local com um item que não passou pelo caixa e não teve a etiqueta removida, essa etiqueta solta uma carga de tinta, estragando o produto e marcando-o como roubado.

Alguns armamentos poderiam ser programados para funcionar apenas em certas áreas. Em um ambiente militar, isso poderia evitar acidentes fora de um perímetro estabelecido – ou danos caso um atirador solitário pegue uma arma no arsenal.

Mas essas aplicações são modestas se comparadas com a possibilidade de limitar o uso de uma arma a uma cidade em particular, a um país ou teatro de operações. Apesar de o conceito de arma inteligente poder ser testado nas polícias dentro dos Estados Unidos, ainda está longe o dia em que esses equipamentos avançados serão usados para armar de forma seletiva combatentes estrangeiros dentro de uma lógica geopolítica.

O caráter aparentemente distante e futurista dessa tecnologia pode diminuir a noção do quanto é urgente desenvolvê-la. E como aponta Anthony Cordesman, os Estados Unidos não são muito bons em captar suas necessidades futuras no que se refere à defesa. “Tempo e custos são fatores normalmente baseados em estimativas do que acontece em tempos de paz”, explica. “ E essa é uma forma muito inadequada de atender às demandas durante conflitos”. Armas mais inteligentes precisariam ser financiadas e pesquisadas em conjunto agora (A agência DARPA já declarou ao Business Insider que atualmente não desenvolve nehum trabalho com armas inteligentes).

Cordesman diz que a lógica comum é de que “podemos fazer, conforme o calendário que estabelecemos a partir de um dado incidente. Agora, já que algumas dessas crises duram uma década, o cálculo não é incrivelmente preciso”.

O uso de armamentos inteligentes em políticas externas dos EUA pode ser atravancado por deficiências no planejamento estratégico de longo prazo. Mas poucos acreditam que a guerra civil na Síria acabe em 2015 ou esperam que o desastre humanitário no país não gere conflitos futuros. As próximas décadas podem trazer crises nas quais essa tecnologia distante pode ser aplicada sob a perspectiva estratégica de Washington.

A questão que permanence, porém, é se essas armas avançadas só suprimiriam questões mais profundas da política externa americana. Não há consenso acerca de como e se os Estados Unidos se beneficiariam armando milícias no exterior, ou se o país e seus aliados deveriam interferir com o equilíbrio de poder no Oriente Médio.

As armas inteligentes podem acabar se tornando uma forma de permitir aos EUA equipar seus aliados e ao mesmo tempo manter armas usáveis longe das mãos de agentes indesejados. Mas esses equipamentos não são atalhos para resolver dilemas maiores no cerne da política externa dos Estados Unidos.