04 de Julho, 2011 - 12:45 ( Brasília )

Armas

Considerações sobre o tiro embarcado em aeronaves de uso policial


Alexandre Beraldi
alexberaldi@gmail.com



Tenho recebido várias consultas vindas de membros de forças policiais Brasil a fora, e mesmo de membros das FFAA, a respeito das tipos de armas e técnicas mais modernas para emprego no tiro embarcado em aeronaves de uso policial, assim teço as seguintes considerações, que são um resumo daquilo que venho respondendo aos interessados, como forma de dar conhecimento ao público em geral à respeito do que há em uso atualmente nesta seara, bem como para subsidiar um debate mais aberto sobre o tema.

O armamento embarcado em aeronave cumpre várias missões na atividade policial e é já uma prática com tática e técnica consolidadas há mais de uma década nas forças policiais de diversos países, sendo ainda embrionário no Brasil em razão das limitações legais referentes à aquisição e ao emprego do armamento, bem como da escassez de cursos técnicos institucionais e privados sobre a matéria, situação bem diversa daquela vivida nos EUA, por exemplo, onde tenho mais contato com o assunto, sendo que a última vez que estive em um encontro naquele país cujo tema versava sobre armas, munições e táticas (janeiro de 2011) pude contar ao menos cinco escolas privadas que ofereciam cursos para o tiro policial embarcado em aeronave de asa rotativa, sendo expoentes no tema a Blackwater Trainning, Magpul Dynamics e a Blackheart international.

Nos EUA, aqui tomado como referência haja vista ter sido o idealizador de tal doutrina, o mais comum no emprego de armamento embarcado em aeronave de asa rotativa é aquele que visa à proteção da própria aeronave e sua tripulação durante atividades de observação, vigilância e acompanhamento de atividades ilícitas. Como as organizações policiais são extremamente diversificadas nos EUA tanto em vinculação (federais, estaduais, municipais e distritais), quanto em tamanho e capacidade financeira, o uso do armamento embarcado normalmente reflete a capacidade financeira do órgão que o está empregando, sua área de atuação e as potenciais ameaças, assim é comum uma polícia distrital do interior dos EUA utilizar um fuzil de assalto num reparo de bungee jump suspenso à porta de um Robinson 44, ao passo que uma polícia estadual ou federal que atua na fronteira EUA-México, ou em algum Estado costeiro, certamente vai ter uma M240 (a nossa MAG) num reparo flexível à porta de um Eurocopter Dauphin, de um Augusta A-109 ou até de um Black Hawk.

Como dito anteriormente, o emprego primário é a defesa da aeronave em atividade de observação, vigilância e acompanhamento, sendo o emprego secundário a interdição em apoio à força policial que esteja com dificuldade de cumprir sua missão em razão do poder de fogo ou da posição defensiva estabelecida pelo grupo de ofensores da lei.

Obviamente, o emprego do armamento lateral na atividade policial que demanda fogo de interdição é muito diferente do fogo de saturação e de cobertura utilizados na atividade militar. É um emprego pontual, que demanda muita capacitação do atirador, e visa concentrar o fogo automático em rajadas curtas sobre a posição ocupada pelos marginais durante uma passagem em alta velocidade e baixa altura. Para tanto, o armamento é usado em conjunto com uma série de acessórios que o capacitam para tal tipo de emprego, sendo o mais comum uma mira holográfica EO Tech 552.XR308 montada sobre a tampa de alimentação da M240 (MAG) para o uso diurno, com seu retículo específico para emprego com a M240 e munição M59, equivalente à nossa munição M1, ou seja, um projétil de 150 grains lançado com velocidade de 2800 pés/s, sendo que para o uso noturno a mesma mira holográfica é usada em conjunto com um holofote Surefire Hellfighter de 600 mil candelas, também acoplado ao reparo flexível da arma. Este é o tipo de conjunto que se vê em 90% das aeronaves policiais que utilizam este tipo de armamento, sendo que existem montagens mais simples, do tipo só uma mira aberta e um holofote operado pela tripulação, e mais complexas, como um apontador laser infravermelho acoplado à arma e OVN para o atirador, para emprego noturno.

Uma arma grande e pesada como a MAG, montada num reparo flexível e com amortecedores de recuo é muito (mas muito mesmo) mais estável e precisa no fogo automático de interdição (uso policial) do que um FAL ou um M16 atirando em fogo automático nas mãos de um atirador pendurado à porta da aeronave ou de pé sobre o esqui. Simplesmente não há comparação. Com a MAG um atirador bem treinado, numa passagem rápida à baixa altura, consegue colocar uma ou duas rajadas curtas de cinco disparos na janela de um veículo ou de um cômodo. Já com um fuzil seguro somente pelas mãos tal capacidade não existe: ou o atirador vai espalhar muito os disparos em fogo automático pela região do alvo, pondo em risco a vida de inocentes, ou ele vai conseguir efetuar no máximo dois ou três disparos em fogo semi-automático sobre a posição ocupada pelos marginais, devido à velocidade da passagem, não conseguindo, assim, fazer a interdição eficaz do alvo. Essa é a forma atual de uso e toda essa é a diferença de poder de fogo eficaz.

A segunda forma de emprego de armamento embarcado em aeronave de asa rotativa na atividade policial é o HTI (Hard Target Interdiction) ou Tiro de Interdição sobre Alvos Duros (podemos estabelecer esta sigla por aqui: TIAD). Nessa forma de emprego o que se objetiva é a imobilização de veículos em fuga ou a incapacitação de agressores abrigados, assim, os alvos se apresentam sob a forma de veículos blindados particulares ou de transporte de valores utilizados para fuga de marginais ou para abrigo destes durante o enfrentamento com forças policiais. Também marginais abrigados atrás ou sob estruturas de concreto, de aço ou espessas paredes de alvenaria podem ser incapacitados desta maneira. O armamento mais comum para emprego nestas situações é o fuzil semi-automático Barret M107 em calibre .50 BMG montado num reparo flexível e amortecido à porta da aeronave, ou então suspenso sobre cordas do tipo bungee jump presas na armação superior da porta, sendo o tiro realizado com auxílio de uma mira holográfica EO Tech 552.XR500, específica para este tipo de emprego. Esta montagem é extremamente comum nas aeronaves da Guarda Costeira dos EUA, da US Border Patrol, do FBI, do DEA, da Polícia do Texas, da Polícia de Los Angeles e da Polícia da Flórida, visto que normalmente se deparam com os tipos de alvos já mencionados, bem como com embarcações que fazem o transporte de entorpecentes na fronteira EUA-México e nas costas dos Estados da Flórida e da Califórnia, sendo que nestes casos o tiro é realizado no motor das embarcações, visando deter sua fuga e permitir a abordagem por unidades policiais embarcadas em lanchas ou em outras aeronaves.

Contando com a evolução da criminalidade, já houve situações em que esta montagem de fuzil Barret M107 e munição .50 BMG à bordo da aeronave não se mostrou suficiente para garantir a superioridade de fogo no enfrentamento de marginais abrigados, visto estes também disporem de fuzis Barret em calibre .50 BMG ou similares, que colocavam em risco a aeronave, a tripulação e as forças policiais em terra, bem como casos em que não foi possível deter o veículo ou embarcação que utilizava blindagem espessa. Assim, o FBI (Polícia Federal dos EUA) e o DEA (Polícia Anti-Drogas) estão adotando o fuzil de precisão Anzio Ironworks AMSD calibre 20x102mm para garantir o enfrentamento seguro ou a imobilização do alvo em tais situações.