COBERTURA ESPECIAL - Argentina - Geopolítica

21 de Janeiro, 2015 - 16:20 ( Brasília )

Analistas veem frustração com a democracia na Argentina

Polarização entre apoiadores e opositores de Cristina Kirchner colabora para crise da democracia e do Estado de Direito. Morte de promotor público é vista como "um sintoma claro das fraquezas institucionais do país".

"A sociedade está dividida", afirma o cientista político Jorge Arias, da consultoria política Polilat, de Buenos Aires. "Um quarto são apoiadores fanáticos de Cristina Kirchner, um quarto são opositores fanáticos." Para ele, essa polarização contribuiu para que as instituições polticas e o Estado de Direito atravessem uma grave crise na Argentina.

"A sociedade está frustrada com a democracia. É como se ela não estivesse conseguindo passar pelas turbulências da adolescência, apesar de ter precisado de vários anos para se recuper da ditadura militar", opina Arias.

O Politat publica anualmente, ao lado da Fundação Konrad Adenauer (ligada ao partido político alemão CDU), o Índice da Democracia na América Latina, que mede a evolução dos direitos políticos e das liberdades civis. Em 2013 e 2014, os indicadores caíram em toda a região.

Morte misteriosa

Na Argentina, todas as atenções estão voltadas para o caso Alberto Nisman. O promotor público foi encontrado morto em seu apartamento, em Buenos Aires, na última segunda-feira (19/01). Ao longo de quase dez anos ele comandou as investigações para esclarecer o atentado à comunidade judaica Amia em Buenos Aires, em 1994, que matou 85 pessoas e deixou 300 feridas.

Na segunda-feira, aproximadamente 20 mil pessoas protestaram na Praça de Maio – em frente ao palácio presidencial, na capital argentina – para exigir o esclarecimento da morte do promotor, um conhecido crítico do governo.

Até o momento, pouco se sabe sobre as circunstâncias da morte de Nisman. Os exames realizados confundiram mais que explicaram. Segundo a autópsia, o promotor teria se suicidado com um tiro na cabeça, mas uma perícia não encontrou sinais de pólvora em sua mão direita. A responsável pelas investigações afirma que uma arma calibre 22, como a usada, nem sempre deixa vestígios nas mãos.

Mortes misteriosas

Para Arias, contradições desse tipo são uma parte indissociável do cotidiano argentino. "Esse caso mostra que, na Argentina, tudo é possível. Sempre surgem novas teorias conspiratórias, muito populares neste país." Segundo ele, o caso Nisman eleva a já longa lista de mortes não esclarecidas na história recente da Argentina.

Somente entre 1990 e 2003, sete personalidades importantes do país morreram em circunstâncias misteriosas. Entre as vítimas estão Carlos Facundo Menem – filho do ex-presidente Carlos Menem, que morreu na queda de um helicóptero, em 1995, aparentemente um acidente – e a amante do ex-presidente, a deputada Marta Meza, que supostamente teria ingerido veneno de rato.

A versão de suicídio também é a mais forte no caso Nisman, mas é motivo de controvérsia no país. "Alberto Nisman tinha muito mais motivos para viver do que para se matar", escreve Ricardo Roa, analista do jornal Clarín. "É inacreditável que o governo fale de conspiração e distorça provas", completa o jornalista.

As críticas de Washington

Na perspectiva norte-americana, não é só o governo Kirchner que enfrenta uma grave crise institucional, mas todo o país. "Em todo o mundo, a morte de Nisman é vista como um sintoma claro das fraquezas institucionais do país", declarou Michael Shifter, presidente do instituto Diálogo Interamericano, em Washington, ao jornal Clarín. "Se a morte não for esclarecida por uma investigação independente, pode haver graves consequências para a democracia argentina", salienta.

Os Estados Unidos continuam interessados no esclarecimento do caso Amia. Nisman tinha bom trânsito na comunidade judaica americana. Em julho de 2013, a convite do Congresso americano, ele falaria com deputados sobre a influência política do Irã na América Latina. Mas o promotor não obteve permissão da Justiça argentina para viajar.

Para Arias, resta apenas uma saída para a atual crise: as eleições de 25 de outubro deste ano. Elas não definirão apenas o novo presidente, mas também metade do Congresso. "Espero que a democracia na Argentina ganhe um novo fôlego com as eleições e que princípios como transparência, estabilidade e consenso social, que hoje desapareceram, retornem. Nós precisamos finalmente alcançar a maturidade democrática."