Tambores da Guerra
Ameaça
à soberania
Hugo Chávez envia
15 diplomatas para municiar organização
política antiimperialista que deseja transformar
o Brasil numa “democracia socialista”
Claudio Dantas
Sequeira
Da equipe do Correio
A infiltração
ideológica do governo de Hugo Chávez
no Brasil vai muito além do lançamento
do livro Simón Bolívar – o
Libertador. O Correio descobriu que o mandatário
venezuelano tem um projeto político especial
para o país, no qual assenta as bases de
uma luta revolucionária em prol do socialismo
do século 21. Parece piada, mas não
é. O trabalho de campo está sendo
coordenado pelo venezuelano Maximilian Arvelaiz,
homem de confiança de Chávez. Há
quase um mês, ele percorre várias
capitais brasileiras com a missão de reorganizar
os Círculos Bolivarianos e outras unidades
de apoio à causa chavista.
Essa articulação
culminará na realização da
primeira Assembléia Bolivariana Nacional
em dezembro, no Rio de Janeiro. No encontro, será
lançada a versão tupiniquim do Movimento
Bolivariano. Trata-se de uma frente antiimperialista
dedicada a transformar o Estado numa “democracia
socialista”, como consta do próprio
estatuto desse futuro organismo, obtido com exclusividade
pela reportagem. As linhas teóricas do
documento repetem, sem timidez, o ideário
da Reforma Constitucional chavista e sua meta
de construir um “poder popular” para
formar uma “federação socialista
latino-americana”.
O Movimento terá
hino, símbolo e bandeira próprios,
e prevê cooptação de posições
estratégicas em partidos, sindicatos, associações
de bairros, grupos religiosos, ligas camponesas
e empresas. Arvelaiz não está sozinho.
Para apoiá-lo, Caracas enviou mais 15 diplomatas
à embaixada em Brasília e consulados,
inclusive um adido de inteligência. Para
não despertar suspeitas, o Palácio
de Miraflores deu a justificativa oficial de que
se trata de um “reforço diplomático”
para impulsionar as relações bilaterais.
Nada mais coerente
quando o próprio presidente Lula classifica
Chávez como parceiro importantíssimo
e força a imediata aprovação
no Congresso do Protocolo de Adesão da
Venezuela ao Mercosul. De fato, hoje será
votado o parecer do deputado Dr. Rosinha (PT-RR)
sobre o assunto na Comissão de Defesa Nacional
e Relações Exteriores da Câmara.
Círculos
O enviado especial
de Chávez tem se reunido com os coordenadores
dos vários Círculos Bolivarianos
espalhados pelo Brasil para instruí-los
da mudança de status dessas células
sociais. Deixam de ser apenas unidades para a
disseminação da doutrina bolivariana
e se tornam parte de uma estrutura nacional, uma
frente política aparelhada. O documento
trazido por Arvelaiz e que sofreu adaptações
à realidade nacional orienta à “formação
de mulheres e homens dispostos a assumir a responsabilidade
de conduzir a pátria brasileira e latino-americana
até nossa definitiva independência”.
“Para nós,
a construção do socialismo no Brasil
tem de recolher de forma crítica e inovadora
experiências históricas de larga
duração, oriundas dos setores nacionalistas
revolucionários do velho PTB, de correntes
dos velhos PCB e PSB, da Organização
Revolucionária Marxista-Política
Operária (ORM-POLOP) e da chamada ‘nova
esquerda’”, informa o texto de apresentação
do evento no site http://assembleiabolivariananacional2007.blogspot.com.
A página é mantida pelo Círculo
Bolivariano Leonel Brizola (fundacional), cujo
coordenador é o jornalista Aurélio
Fernandes, membro da CUT-RJ e do diretório
nacional do PDT.
Fernandes criou
a chamada Casa Bolivariana, que reúne todas
organizações similares do Rio. É
o caso do Círculo Bolivariano Che Guevara,
que reúne universitários. Eduardo,
um dos responsáveis, confirmou à
reportagem que o Movimento Bolivariano recebe
apoio do Consulado Geral da Venezuela, capitaneado
pelo embaixador Mario Guglielmelli Vera. “A
gente conta com a ajuda deles, não só
formando uma base de solidariedade à revolução
na Venezuela e em Cuba, mas ajudando na construção
de uma revolução no Brasil.”
Ele ressaltou o trabalho intenso do novo cônsul,
mas garantiu que se trata de apoio político
e não financeiro.
Segundo ele, quem
banca os Círculos são os próprios
integrantes e não há financiamento
externo. No entanto, o capítulo novo do
estatuto do Movimento determina que as finanças
terão origem em contribuições
não só dos militantes, mas “doações
de pessoas e entidades jurídicas”
— o que inclui qualquer tipo de patrocinador.
Cada instância do Movimento deve anualmente
“preparar um plano de arrecadação
de fundos” e “tomar iniciativas com
empreendimentos econômicos e financeiros,
de propriedade coletiva, que venham representar
entrada de recursos”.
O Movimento terá
como fachada jurídica a Associação
Nacional pela Educação Popular e
a Cidadania. Em nome dela estarão todas
as propriedades e documentos legais. O petista
Afonso Magalhães, diretor do Círculo
Bolivariano de Brasília, simpatiza com
a iniciativa, mas pondera. “Temos de conduzir
isso com os movimentos populares, sem se afastar
da base social do PT e do Lula, senão a
gente fica isolado, com um discurso ideologizado”.
Magalhães, que esteve com o enviado de
Chávez, orientou a Caracas evitar a radicalização
com o governo. “Se alimentar antagonismo
com Lula, vai dividir em vez de unir”.
Os Círculos
Bolivarianos reúnem em sua direção
intelectuais, políticos, sindicalistas,
empresários e estudantes. Há membros
do PT, PSol, PDT, CUT e MST. O Rio de Janeiro
é o estado com maior números de
unidades bolivarianas (sete), grande parte sob
o guarda-chuva do Círculo Bolivariano Leonel
Brizola. Distrito Federal, Rio Grande do Sul,
Santa Catarina, São Paulo, Bahia e Amazonas
também têm organizações.
Trechos
Estatuto
do Movimento Bolivariano do Brasil
“É
uma organização política
que se define como bolivariana, guevarista e brizolista.
Fundamenta na teoria marxista sua visão
crítica e revolucionária, contra
o capitalismo (…) Se propõe a combater
por meio da luta ideológica frontal. Utilizaremos
todas as formas de luta tendentes à resolução
da luta de classes que tem como objetivo a tomada
do poder”
“Lutamos
por uma sociedade socialista que prepare as condições
para uma sociedade sem classes e sem estado: a
sociedade comunista. Um movimento da luta socialista
pela libertação nacional brasileira,
pela unidade e independência da América
Latina”
“O povo
trabalhador deve se organizar e lutar para construir
o Poder Popular através da conquista do
Estado e o controle dos meios de produção.
Precisamos de uma educação política
que garanta a unidade da teoria à prática
local concreta”
“O Congresso
Bolivariano Nacional é a instância
máxima do Movimento. Reúne delegados
de todos os círculos bolivarianos dos estados
e municípios”
“A Assembléia
Bolivariana Nacional reunirá a Coordenação
Nacional, os coletivos e equipes nacionais e dois
representantes por estado”
“As principais
missões que deverão agrupar os companheiros
e ter planos de ação são:
Educação Política, Comunicação
e Propaganda, Finanças, Mobilização.
Haverá ainda o Coletivo de Relações
Internacionais”
“O Movimento
deverá implementar e organizar seus militantes
na forma de círculos bolivarianos, agrupando
os companheiros, desde a base, em seus locais
de luta no trabalho, na moradia e no estudo. Para
o melhor funcionamento dos círculos, a
coordenação nacional elaborará
normas de funcionamento específicas”
“Em todas
as atividades do Movimento devem estar presentes
a Bandeira e o Hino (a serem definidos). Todos
os meios de comunicação possíveis,
como rádio, folhetos, filmes, vídeos
serão utilizados para divulgação”
Análise
da Notícia
Regras
rasgadas
A organização
de Círculos Bolivarianos no Brasil teve
início em 2004, no rastro da virada diplomática
do presidente venezuelano, Hugo Chávez,
para angariar apoio a seu projeto político
no exterior. Mas, sob a fachada de inocentes unidades
de divulgação da doutrina bolivariana
e dos fundamentos do Socialismo do Século
21, se descobre uma articulação
política com ares de ingerência e
risco à soberania.
Ao prever “o
uso de toda forma de luta” para transformar
o Estado brasileiro em parte de uma “federação
socialista”, o Movimento Bolivariano rasga
as regras de convivência democrática
e traz à memória o fantasma da guerra
ideológica que animou duas décadas
de ditadura militar no país. Poderiam ser
palavras ao vento, não fossem as gestões
diplomáticas realizadas pelo Palácio
de Miraflores, ganhando eco no seio de partidos
políticos, organizações sociais
e grupos juvenis.
Esses círculos
brasileiros se espelham em seus similares venezuelanos,
que são financiados pelo governo. Lá,
eles chegam a 1,2 mil e funcionam como uma interface
essencial entre o presidente e o povo, solapando
a representatividade do Legislativo. Em seis dias,
será lançado em Brasília
o livro Simón Bolívar, o Libertador.
Em dezembro será a vez do “Movimento
Bolivariano”. Qual será o próximo
passo? (CDS)