| Brasiguaios
“Instalou-se a política do medo e do
terror”, diz prefeito
O prefeito de Lima,
Julio Franco, administra uma cidade de 11 mil habitantes.
Mas o que tira seu sono é o punhado de pequenos
proprietários ameaçados de invasão.
Em entrevista a ZH, busca uma definição
para o Paraguai de hoje, no qual ele, um colorado
(partido que esteve no poder por 61 anos, até
a posse do esquerdista Fernando Lugo, em agosto),
vive a sensação inédita de
ser oposição.
– No Paraguai,
instalou-se a política do medo e do terror.
Há uma inação das autoridades
judiciais e uma indefinição do governo
– resume.
O prefeito conta
que um acordo foi celebrado entre os sem-terra e
os proprietários – mas ficou no papel.
Os proprietários se comprometeram a limitar
o uso de agrotóxicos. Os sem-terra disseram
que não invadiriam.
O produtor Edson
Wanes, o “Rambo”, 29 anos, vive, com
sua mulher, Sueli, de 24, drama semelhante. Não
deixa a casa vazia. Também ele filho de gaúchos,
deixou de comprar terras em razão da insegurança.
– Milho foi
plantado. Mas é só. O que me mantém
é que tenho terras em outras cidades, aqui
perto, que não estão sofrendo a mesma
ameaça. Minha renda vem de lá também
– conta.
Decidido está
o gaúcho Rogério Zwirtes, 32 anos,
que vive desde os oito no Paraguai – planta
soja em Itapúa (sul do país). Antes
disso, teve uma infância gaúcha típica
em São Paulo das Missões, até
que sua família trocou o calor do chimarrão
pelo tererê, o mate amargo paraguaio servido
gelado.
Agora, Zwirtes,
que é um legítimo “brasiguaio”
(brasileiro que migrou para o Paraguai nos anos
70 e 80 em busca de oportunidades), fala em voltar
para o calor dos pagos de origem.
– Isso passou
do limite, é demais. Minha família
abandonará o Paraguai, devido à agressividade
dos campesinos (trabalhadores rurais) e à
falta de segurança. Após a colheita,
eu sairei do país – disse na última
terça-feira a uma emissora de TV local.
Na quinta-feira,
ele contou a ZH que já procura casa no Paraná.
Apesar de ter parentes em Porto Alegre, Novo Hamburgo
e Feliz, escolheu outro Estado em razão da
proximidade com o Paraguai, onde ainda vivem seus
pais.
– Estou tentando,
em um primeiro momento, levar minha mulher (catarinense,
de 29 anos) e meus filhos (dois meninos, de três
e nove anos, e uma menina de seis). Ando com colete
à prova de balas. Há um tipo de racismo
desgraçado contra os brasileiros, e a gente
só quer trabalhar – diz ele, que já
foi vítima de ataques a tiros contra um carro
e contra os vigilantes que cuidam de suas plantações.
De olho na
terra dos brasiguaios
Se fosse brincadeira
infantil, se poderia usar o clichê “quem
vai ao ar perde o lugar”. A situação
dos proprietários rurais paraguaios, muitos
de origem brasileira, é mais ou menos essa,
só que com alto grau de dramaticidade. Nada
há de brincadeirinha – menos ainda
de inocente.
Alguns deles, como
o paraguaio filho de gaúchos brasiguaios
Jorge Eichelberger, 27 anos, vivem esse pesadelo
de não poder arredar o pé da própria
casa, sob pena de, na volta, deparar com a fechadura
trocada pelos sem-terra que o acossam.
Proprietário
de 54 hectares em Lima (departamento de San Pedro),
uma das localidades dos mais afetadas pelos conflitos
fundiários paraguaios, Eichelberger sai de
casa só se sua mulher, Fátima, 28
anos, ou sua mãe, Osnilda, 65, estão
lá. Vazia, ela não fica.
– Não
dá para sair. Até trabalhar, se a
gente começa, em cinco minutos aparece um
deles armado, ameaçando invadir. Eles andam
em grupos, armados e gritando. Nossas opções
são atirar contra eles ou parar de plantar.
A gente pára de plantar – conta.
Eichelberger, que
tem sete irmãos também proprietários
de áreas com cerca de 50 hectares, cogita
uma mudança para o Brasil. Por ora, sabe
que conta com uns três meses de sobrevivência.
Depois, não terá o que comer.
Motivo: os sem-terra
o deixaram colher o milho, mas não permitem
outros cultivos, como a soja, commoditie valorizada.
Endividado ele não está. O problema
é que, sem plantar, sequer pode contrair
dívidas. “Que garantia teria o credor?”,
pensa, desolado.
Na divisa entre
sua propriedade e a de um vizinho, os sem-terra
montaram uma pequena casa de palha com telhado de
capim. Desmontar obra tão precária
seria fácil. O problema é a possibilidade
de retaliação.
– Eles queimaram
a palha que sobrou do milho e plantaram uma sementinha
para fazer biscoito. Não dá para brincar
com essa gente – diz.
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