| Operación
Jaque
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O
flerte da guerrilha
com o Planalto
HUMBERTO TREZZI
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Uma constelação
de integrantes do governo brasileiro e do PT tem
mantido diálogos freqüentes com a maior
guerrilha colombiana, as Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia (Farc). Quem afirma é a
revista semanal colombiana Cambio, em edição
que chegou às bancas ontem. As conversas
incluem promessas de intermediação
para que os guerrilheiros consigam status diplomático.
Em reportagem de
capa intitulada "Dossiê Brasil",
o semanário Cambio divulga trechos do que
seriam 85 e-mails trocados entre Raúl Reyes,
ex-porta-voz internacional das Farc, e outros integrantes
da guerrilha. Entre esses, Francisco Antonio Cadena
Collazos, conhecido como padre Olivério Medina
ou Cura Camilo (Padre Camilo), que atua como delegado
das Farc no Brasil. As conversas, supostamente encontradas
num laptop pertencente a Reyes, mencionam integrantes
do PT e até Gilberto Carvalho, chefe de gabinete
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A Cambio ressalva
que nenhum dos funcionários brasileiros enviou
mensagens a algum dos membros do grupo guerrilheiro"
e considera os e-mails "apenas indícios"
de um possível comprometimento do governo
Lula com as Farc. Os e-mails teriam sido localizados
pelos militares que mataram Reyes, membro do secretariado-geral
das Farc. As mensagens foram trocadas entre fevereiro
de 1999 e fevereiro de 2008.
Reyes - cujo nome
verdadeiro era Luis Edgar Devia e que foi morto
por tropas colombianas em solo equatoriano, em 1º
de março - menciona nos e-mails "cinco
ministros, um procurador-geral, um assessor especial
da Presidência, um vice-ministro (secretário-geral
de ministério), cinco deputados, um vereador
e um desembargador brasileiros", contabiliza
a revista.
O desembargador
é o gaúcho Rui Portanova, que atua
na 8ª Câmara Cível do Tribunal
de Justiça. Conforme a revista, em 19 de
abril de 2001 um integrante das Farc de codinome
Mauricio Malverde informa, por e-mail, a Reyes que
"o juiz superior Rui Portanova, amigo nosso,
nos solicitou que deseja ir aos acampamentos para
receber instrução e conhecer a vida
das Farc. Custeia sua viagem". O desembargador
confirma que se ofereceu para conhecer as Farc.
Portanova não
é o único rio-grandense mencionado
nos supostos e-mails. Nas mensagens, Medina afirma
ter mantido contatos com o assessor especial de
Assuntos Internacionais da Presidência, Marco
Aurélio Garcia, e o assessor presidencial
Selvino Heck, ambos gaúchos e ligados ao
PT. Sobre Garcia, um dos e-mails de Medina a Reyes,
sem data conhecida, afirma: "Estive falando
com a deputada federal Maria José Maninha.
Acertamos que ela vai me abrir caminho rumo ao Presidente,
via Marco Aurelio García".
Em outro e-mail,
de 23 de fevereiro de 2007, Medina informa a Reyes:
"É possível que me visite um
assessor de Lula, chamado Selvino Heck, que junto
com Gilberto Carvalho tem sido outro que tem nos
ajudado bastante".
Medina, autor da
maioria dos e-mails enviados a Reyes desde o Brasil,
foi preso em São Paulo em agosto de 2005.
Vivia em território brasileiro havia oito
anos e foi beneficiado com uma proteção
especial, por ser casado com uma brasileira. Em
2006, o Comitê Nacional para Refugiados (Conare)
concedeu a ele o status de refugiado, decisão
que pesou bastante para o Supremo Tribunal Federal
(STF) negar seu pedido de extradição
para a Colômbia.
Entre os interlocutores
de Medina, segundo a revista Cambio, estariam o
ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o
ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto
Amaral, a deputada distrital brasiliense Erika Kokay
(PT), além de Gilberto Carvalho. Também
são mencionados nos e-mails o ministro de
Relações Exteriores, Celso Amorim,
o secretário nacional de Direitos Humanos,
Paulo Vannuchi, e o subsecretário de Direitos
Humanos, Perly Cipriano.
Assessor de Lula
condenou métodos de guerrilheiros
Algumas mensagens
foram escritas durante as negociações
de paz, que resultaram na criação
- 1998 e 2002 - de uma área de 42 mil quilômetros
quadrados liberada para atuação da
guerrilha, em San Vicente del Caguán. Os
guerrilheiros recebiam ali simpatizantes de vários
países.
Entre os que moravam
na "zona liberada" estavam o líder
máximo das Farc, "Manuel Marulanda"
ou "Tirofijo", que foi morto em março
deste ano. E o chefe militar das Farc, "Mono
Jojoy", cujo nome verdadeiro é Jorge
Briceños.
A reportagem diz
que as mensagens "revelam a importância
do Brasil na agenda externa das Farc". A revista
diz que a guerrilha aproveitou a chegada de Lula
e do influente PT ao poder "para alcançar
as mais altas esferas do governo".
Em depoimento em
abril à Comissão de Relações
Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara,
Garcia disse repudiar os métodos usados pelas
Farc, como seqüestros, ataques terroristas
e uso de dinheiro do narcotráfico. Garcia
classificou como "fantasiosa" a reportagem,
mas não negou o conteúdo das mensagens.
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