| Operación
Jaque
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Recebi
um representante das Farc no gabinete
Entrevista: Rui Portanova, desembargador
do Tribunal de Justiça do Estado |
O
desembargador gaúcho Rui Portanova, 58 anos,
se define como "homem de esquerda" e se
tornou conhecido como um dos expoentes da chamada
Justiça Alternativa. O magistrado soube ontem
por Zero Hora que mensagem das Farc o aponta como
"amigo nosso" e não demonstrou
surpresa.
-
Mantive contato durante meses com eles, por e-mail.
Tinha curiosidade por saber como vivem - justifica
Portanova.
Uma
resposta de acordo com a biografia de Portanova,
famoso por decisões favoráveis ao
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Em
2003, em palestra no Fórum Social Mundial,
disse que os juízes só marginalizam
os movimentos sociais se quiserem, "porque
não faltam leis para promover a justiça
social". Em 2004, assinou um manifesto de intelectuais
brasileiros intitulado "Se fôssemos venezuelanos
votaríamos em Hugo Chávez". O
abaixo-assinado, defendendo a reeleição
do venezuelano, é endossado por líderes
de esquerda como João Pedro Stédile,
líder do MST.
Nesta
entrevista, por telefone, o desembargador relatou
como e porque se relacionou com integrantes das
Farc:
Zero
Hora - Como começou seu contato com as Farc?
Rui
Portanova -
Foi quando o governador Olívio Dutra (PT)
recebeu no Palácio Piratini um representante
das Farc (Hernán Ramírez, em 1999).
Pediram contato com algum juiz de esquerda, sobrou
para mim. (Risos.) Sempre fui conhecido como alternativo,
apesar de não ter vínculos com partidos.
Afinal, sou juiz. Recebi o sujeito no meu gabinete
no tribunal. Perguntei a ele como estavam, como
viviam na selva, se tinha como ir. Disse que conhecia
bem os acampamentos do MST...
ZH
- O senhor se ofereceu para conhecer os acampamentos
da guerrilha?
Portanova -
Sim, sim. Queria ver como sobrevivem. Como eu tinha
algumas milhagens de avião sobrando, me ofereci
para bancar a própria viagem. Aí mantive
contatos por e-mail, durante meses. Quando estava
para sair a viagem, deu um problema de data, não
lembro bem. Acabei nunca indo. Fiquei com um pouco
de medo, para ser sincero. O revolucionário
brasileiro e gaúcho aqui, que chamam de juiz
comunista, acabou se borrando todo, tchê.
(Risos.)
ZH
- Por quê?
Portanova -
A coisa não estava boa por lá. A tal
"zona liberada" tinha acabado. Aí
não fui. Mais uma que perdi. Outro foi o
Chávez, por quem assinei um manifesto em
favor da reeleição. Ele esteve em
Porto Alegre e até recebi convite para almoçar
com El Gran Comandante. Mas aí estava na
praia. Acabei não vendo o grande comandante.
ZH
- O senhor acha normal um desembargador brasileiro
manter contatos com uma guerrilha? O senhor contribuiu
com dinheiro para as Farc?
Portanova - Acho normal, foi por curiosidade.
Não contribuí com dinheiro, apesar
de muito juiz de direita contribuir com deputados
por aí.
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