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Plano Marshall
para a América do Sul
Rubens Barbosa
A distância
entre a retórica e a realidade nas declarações
públicas sobre qualquer assunto de altos
funcionários do atual governo é conhecida.
No tocante à política externa, em
especial, esse descompasso está adquirindo
características preocupantes, pois a ele
se soma uma superestimação de nossa
capacidade e de nossos recursos na implementação
do que o presidente Lula denominou "política
da generosidade" para com nossos vizinhos do
subcontinente.
"O Brasil tem
que assumir definitivamente a responsabilidade pela
integração da América do Sul.
Não há concessões excessivas
quando as diferenças de dimensão são
tão extraordinárias e quando nossos
interesses as exigem para a construção
na América do Sul de um bloco que nos fortaleça
a todos, o Brasil precisa assumir suas responsabilidades
para como a região", reza a doutrina
oficial.
Se essa premissa
- as assimetrias existentes entre os países
sul-americanos - fosse obstáculo, nem o México
e o Canadá teriam negociado acordos de livre
comércio com os EUA. As assimetrias entre
eles eram maiores do que as existentes entre o Brasil
e o Paraguai, por exemplo.
O mais novo desdobramento
da política externa em relação
à região foi a sugestão de
que "o Brasil deveria promover um Plano Marshall
sul-americano para superar a devastação
diária causada pelo subdesenvolvimento",
no dizer de um dos proponentes da idéia.
Essa eventual iniciativa
brasileira, segundo se anuncia, deveria imaginar
um programa mais amplo, mais enérgico, mais
generoso e mais ágil dos países mais
ricos da região em favor dos mais pobres,
a exemplo do Plano Marshall. Em termos de política
externa, estamos entrando na fase do realismo mágico.
Na prática,
a idéia começaria a ser implementada
de forma bem menos ambiciosa e, pelo que se divulgou,
englobaria um esforço maior de remoção
dos obstáculos que dificultam a entrada de
produtos dos vizinhos no mercado brasileiro; um
maior esforço para melhorar as condições
e o volume de crédito para obras de infra-estrutura;
para facilitar as transações comerciais,
aperfeiçoando os sistemas de pagamento em
moeda local; e para ampliar, em muito, os fundos
para a redução de assimetrias, como
o de Convergência Estrutural do Mercosul (Focem).
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Delegação
brasileira chega a Riberalta. Inclui o Embaixador
Samuel Pinheiro Guimarães |
Lula,
Morales e Chavez em Riberalta, 18 julho 2008
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Resta saber quem,
na categoria dos mais ricos da região, se
disporia a levar adiante a idéia juntamente
com o Brasil. Argentina e Venezuela seriam os candidatos
naturais. Parece mais realista, contudo, nas circunstâncias
difíceis que enfrentam internamente, incluí-los
hoje entre os que haverão de demandar recursos
para suas respectivas reconstruções
econômicas...
O perdão
de dívidas (Paraguai e Bolívia), o
aumento da contribuição do Brasil
à Corporación Andina de Fomento (banco
de desenvolvimento dos países andinos), a
majoritária contribuição financeira
do Brasil ao Focem, as linhas de crédito
abertas para esses países e os investimentos
oficiais oferecidos sem qualquer garantia de pagamentos
por países com tradição de
descumprimento de contratos, como a Bolívia,
tudo isso já comprometeu centenas de milhões
de dólares dos cofres públicos. Agora,
anuncia-se uma hidrelétrica binacional com
a Bolívia (não bastam os problemas
com o Paraguai em Itaipu) e a cessão, sem
pagamento, de energia à Argentina e ao Uruguai
(em troca de energia futura), como novos exemplos
de generosidade.
Seria legítimo
esperar que resultados concretos dessa política
generosa tenham alguma contrapartida que possa ser
contabilizada positivamente pelo governo brasileiro,
na defesa de nosso interesse nacional. Seria constrangedor,
porém, elaborar aqui uma lista das contrapartidas
que o Brasil recebeu depois de todos os gestos políticos
e econômico-financeiros em favor dos vizinhos
nos últimos anos. Basta lembrar o último
deles: a Argentina manifestou-se contrária
à posição do Brasil/Mercosul
nas negociações multilaterais de comércio
da Rodada Doha, peça fundamental da estratégia
de negociação comercial externa do
atual governo.
Não está
em questão o real e justificado interesse
do Brasil em ter vizinhos com uma economia estável
e em desenvolvimento. Na medida do possível,
o Brasil deveria ajudá-los a caminhar nessa
direção.
A liderança
para um Plano Marshall na região, contudo,
é uma proposição totalmente
diferente. Como atribuir prioridade a tal iniciativa,
quando se sabe que algumas regiões de nosso
país, em especial o Nordeste e o Norte, são
mais pobres do que a maioria de nossos vizinhos?
Como concentrar esforços e grandes recursos
financeiros para generosamente ajudar nossos "hermanos",
quando os verdadeiros necessitados são nossos
irmãos?
Não podemos
ignorar que o Brasil nos últimos 10 ou 15
anos, com a estabilidade da economia, e impulsionado
pelo crescimento da economia mundial e do comércio
exterior, vem se projetando de forma crescente no
exterior. Pela internacionalização
das muitas empresas brasileiras e por estar no centro
das discussões de alguns temas que interessam
a todos os países, em especial os desenvolvidos,
como as questões energética (etanol
e petróleo), de meio ambiente (mudança
de clima) e alimentos (escassez de alguns produtos
e alta cotação das commodities), a
situação externa, nos seus fundamentos,
se modificou para o Brasil. Para nós o Mercosul
se tornou pequeno. A médio prazo, se continuarmos
nesse caminho, também a América do
Sul ficará pequena para o Brasil.
Urge que o governo
e as empresas brasileiras pensem globalmente. Nossos
interesses imediatos estão no entorno geográfico,
mas não devemos perder de vista as oportunidades
que se estão abrindo e se abrirão
nos próximos anos para o setor privado brasileiro
em regiões onde se localizam os maiores e
mais dinâmicos países do mundo.
Rubens Barbosa,
consultor de negócios, é presidente
do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp
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