| Para
Pinheiro Guimarães,
AL precisa de um Plano Marshall
- Logo à entrada do gabinete
do secretário-geral do Ministério
de Relações Exteriores, Samuel Pinheiro
Guimarães, o desajeitado troféu Juca
Pato - Intelectual do Ano, conferido em 2006 pela
União Brasileira dos Escritores, lembra que
o polêmico diplomata é, também,
referência para uma parte importante da intelectualidade
brasileira. No Itamaraty, despertou críticas
com seus métodos de gestão, que incluíam
a exigência de leitura de livros apontados
por ele, para diplomatas em vias de promoção,
mas firmou reputação de bom administrador,
garantindo melhoria de infra-estrutura e de salários
para o ministério.
Mestre em Economia pela Universidade
de Boston, Pinheiro Guimarães é visto,
hoje, como a face mais à esquerda da diplomacia
brasileira, pelos críticos e pelos admiradores
da política externa do governo Lula. É
influente, e um dos principais emissários
do governo em missões delicadas, embora,
quando indagado, minimize sua atuação.
Sabedor da forte repercussão
que costumam ter suas idéias, Pinheiro Guimarães
evita entrevistas, embora publique regularmente
livros sobre política externa, como o último
deles, 'Desafios Brasileiros em Terra de Gigantes',
que alinha ameaças e estratégias para
a atuação do Brasil, no continente
e em outras instâncias internacionais e faz
comentários cortantes, como a afirmação
de que os Estados Unidos são um país
de 'povo democrático e elite autoritária'.
Para o Valor, Pinheiro Guimarães
fala das Farc, Argentina, Itaipu, Estados Unidos,
e defende uma 'espécie de Plano Marshall'
para a América do Sul, mencionando o apoio
americano para a reconstrução da Europa
devastada do pós-guerra. 'Não há
concessões excessivas quando as diferenças
são tão extraordinárias e quando
nossos interesses as exigem', comenta. Mas pede
que leiam o contexto de suas afirmações.
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Delegação
brasileira chega a Riberalta. Inclui o Embaixador
Samuel Pinheiro Guimarães |
Lula,
Morales e Chavez em Riberalta, 18 julho 2008
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Valor: O
que diferencia a União das Nações
Sul-Americanas (Unasul) de outras instituições
no continente que não saíram da retórica?
Samuel Pinheiro Guimarães: Tudo.
A Unasul é o primeiro organismo sul-americano
que reúne países subdesenvolvidos,
com características comuns, para articular
sua ação para dentro e para fora do
continente. A Unasul já está sendo
um extraordinário mecanismo de articulação
e coordenação dos dirigentes da América
do Sul. A defesa de nossos interesses comuns é
vital em um mundo marcado pelo arbítrio,
pela assimetria de poder entre Estados e pelas crises
financeira, ambiental, energética e de alimentos.
A redução do arbítrio e da
assimetria e a solução dessas crises,
que são fenômenos globais, dependerá
de negociações que decidirão
nosso futuro. As reuniões da Unasul geram
oportunidades para encontros de presidentes e ministros,
permitindo compreender os desafios de cada sociedade,
definir esquemas de cooperação e articular
posições comuns nas negociações
com outros países e blocos.
Valor: O
Brasil deve pagar para reduzir as chamadas assimetrias
e garantir a integração continental?
Pinheiro Guimarães: As assimetrias
são a característica principal da
América do Sul e elas distorcem e dificultam
a realização do nosso potencial. É
indispensável que todos os países
possam contribuir para o desenvolvimento econômico
e para a estabilidade política da região
e isso depende da redução das disparidades
internas e das assimetrias entre eles. O livre jogo
das forças de mercado e o livre comércio
não serão suficientes para promover
o desenvolvimento sempre que existirem gravíssimas
deficiências estruturais e assimetrias enormes.
Por esta razão, e até com menos razão,
os países mais desenvolvidos europeus, em
seu processo de integração, criaram
fundos para o desenvolvimento dos países
mais atrasados, em que os mais ricos contribuem
com recursos importantes para o desenvolvimento
dos mais pobres.
Valor: E
qual será o custo para o Brasil?
Pinheiro Guimarães: Não há
um custo em estabelecer melhores condições
de financiamento de obras, de acesso a mercados,
de investimentos. Há um custo enorme em não
fazer ou em fazer como se os países fossem
iguais em dimensão e potencial.
Valor: O que está
sendo planejado concretamente pelo governo?
Pinheiro Guimarães: Um esforço maior
de remoção dos obstáculos que
dificultam a entrada de produtos dos vizinhos no
mercado brasileiro, um maior esforço para
melhorar as condições e volume de
crédito para obras de infra-estrutura, um
esforço maior para facilitar as transações
comerciais aperfeiçoando os sistemas de pagamento
em moeda local, um maior esforço para ampliar
em muito os fundos de redução de assimetrias,
tais como o Fundo de Convergência Estrutural
do Mercosul, o Focem. Acima de tudo, é preciso
imaginar um programa mais amplo, mais enérgico,
mais generoso e mais ágil dos países
mais ricos da região em favor daqueles mais
pobres. Este programa é urgente, como foi
o Plano Marshall para reconstruir a Europa, devastada
após a guerra. Precisamos superar a devastação
diária causada pelo subdesenvolvimento.
Valor: O
Brasil não tem feito concessões excessivas
aos vizinhos, à custa dos interesses do país?
Pinheiro Guimarães: Os interesses
do Brasil, o seu desenvolvimento econômico
e político, estão vinculados ao progresso
econômico e à estabilidade política
de cada vizinho e isto cada vez mais, devido aos
laços que nos unem a eles e que tanto vêm
se aprofundando e fortalecendo. Não há
concessões excessivas quando as diferenças
de dimensão são tão extraordinárias
e quando nossos interesses as exigem para a construção
de um bloco que nos fortaleça a todos.
Valor: A
ajuda aos vizinhos deve se dar mesmo que isso aumente
os custos, para os brasileiros, de energia, por
exemplo?
Pinheiro Guimarães: A ajuda aos
vizinhos reverte em benefício do Brasil.
A construção da infra-estrutura, o
desenvolvimento industrial, o aumento de demanda
cria oportunidades não só para as
empresas brasileiras mas para nossos trabalhadores
pois aumenta a demanda por produtos e serviços
brasileiros. O extraordinário aumento das
exportações brasileiras, assim como
os investimentos de empresas brasileiras nos últimos
seis anos prova isto. Os custos serão sempre
menores que os benefícios.
Valor: O
presidente do Paraguai transformou Itaipu em medida
de sucesso de sua gestão. O Brasil deve atendê-lo
e reajustar a tarifa da hidrelétrica, como
ele pede?
Pinheiro Guimarães: O cálculo
da tarifa de energia leva em conta o custo de produção
das diferentes empresas que operam no Brasil. A
tarifa de energia elétrica de Itaipu é
um dos componentes para o cálculo da tarifa
geral. A tarifa de Itaipu obedece a método
de cálculo definido pelo tratado, que tem
sofrido ajustes ao longo do tempo, desde 1973. Preservado
o elemento central do tratado, há sempre
espaço para entendimentos técnicos.
Há enormes possibilidades de cooperação
entre Brasil e Paraguai para em benefício
mútuo promover o seu desenvolvimento. O presidente
Lugo e o presidente Lula sabem da importância
deste esforço de compreensão e de
cooperação.
Valor: As
medidas protecionistas na Argentina e as restrições
às exportações não comprometem
a integração do Mercosul?
Pinheiro Guimarães: O Brasil é
o principal fornecedor da Argentina no mundo. As
exportações brasileiras cresceram
39% no primeiro quadrimestre, em comparação
com 2007, e as exportações argentinas
para o Brasil cresceram 41% mais do que haviam crescido
em igual período de 2007. As empresas brasileiras
participam da construção de duas grandes
obras na Argentina e aguardam a contratação
para sete outras e os investimentos empresariais
se multiplicam nos mais diferentes setores da economia
argentina.
Valor: A
crise Argentina afeta em quê o Brasil? Como
o país deve lidar com isso?
Pinheiro Guimarães: As crises nas
economias da região são o reflexo
de crises no centro da economia mundial. Essas são
movimentos cíclicos do sistema capitalista,
às vezes resultado de grandes manobras especulativas
nos diferentes mercados de bens, como o petróleo,
e no sistema financeiro desregulamentado pelo neo-liberalismo,
hoje arrependido na prática. Cada país
da América do Sul tem características
próprias e procura lidar com suas crises
que têm origem no exterior a partir de sua
visão dos interesses de sua sociedade. Se
há crise na Argentina, como os arautos do
pessimismo apregoam sem cessar, ela tem por hora
afetado marginalmente o Brasil, como revela a expansão
vigorosa de nosso comércio e dos investimentos.
Nada temos a ensinar a quem quer que seja, em termos
de política econômica, ou de qualquer
outra.
Valor: Mas
nem todos os países da região estão
enfrentando problemas como os da Argentina. Não
é exagero atribuí-los à crise
nos centros da economia mundial?
Pinheiro Guimarães: Nem todos os
países souberam vencer a gravíssima
crise que a Argentina venceu e nem todos crescem
à taxa que a Argentina tem crescido. Como
a solução foi heterodoxa, as críticas
não cessam nem a previsão de colapso
iminente, sempre adiado.
Valor: As
Farc não são uma ameaça ao
Brasil? O governo brasileiro não deveria
tomar alguma atitude com os outros países
do continente para condenar a guerrilha?
Pinheiro Guimarães: As Farc são
uma questão interna da sociedade colombiana.
O Brasil anseia para que o povo colombiano encontre
uma solução negociada para suas divergências.
O Brasil está sempre disposto a atender qualquer
solicitação do governo colombiano
para colaborar neste sentido e já manifestou
várias vezes essa posição.
Não há queixa da Colômbia com
relação à posição
brasileira e, pelo contrário, há apreço
e reconhecimento. Nem há pressa de nossa
parte.
Valor: O
senhor acredita que a mudança de atitude
do presidente Hugo Chávez em relação
às Farc possa ter sido provocada pelas denúncias
de seu envolvimento com a guerrilha e a má
repercussão que isso teve na Venezuela?
Pinheiro Guimarães: As mudanças
de atitude de presidentes decorrem de sua avaliação
da situação mundial e regional. Sei
que Colômbia e Venezuela são países
irmãos, unidos pela sua história comum
e por fortes vínculos econômicos. Seu
comércio bilateral atinge US$ 6 bilhões,
sendo a Venezuela o principal mercado para as indústrias
colombianas e muito importante para a sua agricultura.
Há 4 milhões de refugiados colombianos
na Venezuela e recentemente foi inaugurado um gasoduto
entre os dois países. O interesse verdadeiro
dos dois países é o entendimento e
a cooperação.
Valor: A
recusa da Colômbia em participar de um Conselho
Sul-Americano de Defesa muda os planos do governo
brasileiro em relação a esse órgão?
Pinheiro Guimarães: O Brasil continua
convencido de que um Conselho de Defesa na América
do Sul contribuirá para a construção
de confiança, para melhor conhecimento entre
dirigentes militares das questões que os
preocupam, das oportunidades para executar programas
de reequipamento e desenvolvimento da indústria
de defesa no continente, o que além de gerar
empregos e tecnologia economizará recursos
e surpresas a todos nós. Com o tempo, haverá
crescente compreensão da importância
da coordenação política e de
defesa na América do Sul, direito inalienável
dos Estados soberanos.
Valor: As
ONGs estrangeiras na Amazônia são ameaça
à soberania nacional na região?
Pinheiro Guimarães: A ameaça
à soberania da Amazônia é o
seu subdesenvolvimento insustentável. As
ONGs no mundo e no Brasil procuram influir sobre
as políticas desenvolvidas pelos governos
nos mais diversos campos. Sua atuação
deve se pautar pelo respeito à lei e à
soberania nacional. Cabe ao Brasil executar políticas
de desenvolvimento sustentável que atendam
à realidade dos 25 milhões de brasileiros
que vivem na Amazônia, que permitam a exploração
racional de seus recursos, que defendam seus recursos
de uma apropriação indébita,
como a biopirataria. De forma sempre soberana.
Valor: As
Forças Armadas devem sofrer mudanças
para cumprir seu papel de defender a soberania brasileira?
Pinheiro Guimarães: As Forças
Armadas necessitam de um esforço ainda maior
de reequipamento para poder enfrentar a tarefa de
defesa do território, do mar territorial,
da zona econômica exclusiva, do espaço
aéreo contra ameaças tradicionais,
reais ou potenciais, e 'novas' ameaças. Esse
esforço sistemático de modernização
tecnológica e de reconstrução
da indústria de defesa brasileira é
imprescindível pois não há
defesa eficaz quando se depende de equipamento importado.
Valor: A
aproximação entre os países
do continente e a eleição de governos
de esquerda não contraria sua avaliação,
em um de seus livros mais recentes, de que os EUA
não abririam mão de ditar a agenda
política na região?
Pinheiro Guimarães: Os Estados Unidos
são e continuarão a ser o país
com maior influência na região. Há
mais influência americana em cada país
da região do que influência de qualquer
país da região em qualquer outro.
É claro que a influência econômica,
social, cultural, tecnológica, política,
militar dos Estados Unidos no Brasil é muito
maior do que a influência de qualquer país
andino, caribenho ou platino no Brasil. Essa crescente
aproximação entre os países
sul-americanos e a eleição de governos,
de diferentes matizes, de esquerda permitem um diálogo
mais proveitoso e respeitoso entre os países
da região e de cada um deles com os Estados
Unidos, e uma articulação serena e
digna em defesa de nossos interesses.
Valor: O
senhor ainda crê que os EUA são um
país com povo democrático e elite
autoritária?
Pinheiro Guimarães: O povo americano
é democrático, como comprovam seus
232 anos de democracia e seus renovados esforços
para aperfeiçoá-la, como foram a Guerra
Civil para abolir a escravidão, a legislação
dos direitos sociais, hoje ameaçada, a oposição
popular à Guerra do Vietnã, a necessária
reforma do sistema eleitoral, às vezes falho,
e o aumento da participação popular
na escolha dos candidatos com a indicação
de um afro-descendente para presidente. As elites
tendem a se comportar de forma imperial em suas
relações com os demais Estados, devido
à sua crença na perfeição
suprema dos sistemas político, econômico
e social americano. Isto por vezes lhes causa grandes
decepções e surpresas. É preciso
reformar, democratizar o sistema político
internacional, defender e lutar pelos princípios
das Nações Unidas, fundada pelos Estados
Unidos, onde quer e por quem quer que estejam sendo
violados: não intervenção,
autodeterminação, respeito à
integridade territorial, solução pacífica
de controvérsias, igualdade soberana dos
Estados.
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