|
|
 |
 |
| 07
Dezembrro 2007 |
| 12:00
Horas |
|
|
|
|
|
| |
|
|
|
|
|
 |
|
|
América
Latina - Latin America
|
DEFESA@NET
07 Dezembro 2007
Palácio Planalto 06 Dezembro 2007
|
Palácio
Planalto
|
Discurso do presidente da República, Luiz
Inácio Lula da Silva, no encerramento do
Encontro de Governadores da Frente Norte do Mercosul
Belém-PA, 06 de dezembro de 2007
Meus queridos
companheiros e companheiras do estado do Pará,
Meus queridos governadores que estão aqui
representando os países da América
do Sul e os países que compõem o
Mercosul,
Meus companheiros governadores brasileiros da
região Norte,
Meus companheiros prefeitos,
Meus companheiros deputados estaduais e deputados
federais,
Companheiros secretários municipais, secretários
estaduais,
Meus amigos e minhas amigas,
Como sempre, quando fazemos um evento, a nominata
termina sendo muito grande. E como todos já
falaram o nome de todo mundo aqui, Chacho, falando
o nome do Chacho, nosso companheiro que é
a nossa figura importante do Mercosul, estarei
falando o nome de todos os companheiros e companheiras
que estão aqui. O Chacho é argentino,
mas é torcedor do Corinthians, então
é um sofredor como eu.
Companheiros e companheiras,
Primeiro, quero
falar um pouco do Mercosul e falar um pouco da
nossa América do Sul.
Meus companheiros representantes dos países
da América do Sul, eu tive a felicidade
de, em 1990, convocar – se eu não
falei dos senadores, eu quero cumprimentar os
senadores aqui presentes – eu tive o prazer
de convocar a primeira reunião da esquerda
na América Latina, em 1990. Eu tinha terminado
a eleição de 89, nós tínhamos
saído muito fortalecidos do processo eleitoral
e era preciso, então, fazer um chamamento
a todas as organizações de esquerda
que militavam na política da América
Latina, para que pudéssemos começar
a estabelecer uma estratégia de procedimento
entre a esquerda da América Latina.
Eu me lembro, Chacho, como se fosse hoje, era
época da Copa do Mundo de 1990, e a reunião
foi feita em São Paulo, por isso é
que ficou constituído o Foro de São
Paulo. Só da Argentina tinha 13 organizações
políticas, 13 grupos de esquerda que não
conversavam entre si. A única coisa que
os unia era o Maradona, naquele momento. A República
Dominicana, que é um país pequeno,
tinha 18 organizações de esquerda
naquele encontro. Parecia, Ana Júlia, o
PT.
Foi uma reunião muito difícil porque
as pessoas não confiavam em si, cada um
desconfiava do outro, cada um era mais revolucionário
do que o outro, cada um era mais guerrilheiro
do que o outro. E era preciso, então, criar
um ponto de equilíbrio para fazer as pessoas
entenderem. Eu descobri isso nas eleições
de 89, que era possível, com um pouco de
organização, o povo chegar ao poder
em qualquer país do mundo e em qualquer
país da América do Sul.
Pois bem, passados esses 18 anos, ou melhor, vamos
pegar 14 anos atrás. Nós fizemos
uma pequena revolução democrática
na América do Sul e na América Latina.
Eu, por exemplo, conheci o (Fidel) em um encontro
que fizemos em Cuba. Tinha acabado de ser preso
por conta do golpe e acabado de ser liberado.
Conheci o Chávez em um encontro do Foro
de São Paulo, como conheci também
o Daniel Ortega, como conheci tantos companheiros
da Argentina, do Chile, do Uruguai, do Paraguai,
da Bolívia, do Equador, da Venezuela, da
Colômbia. Qual é a mudança
que houve nesses 18 anos? Olhem o mapa da América
do Sul hoje. O que aconteceu na América
do Sul é um fenômeno político
que, possivelmente, os sociólogos levarão
um tempo para compreender por que aconteceu tão
rápido a mudança que houve, uma
mudança extremamente importante.
Eu lembro que quando o companheiro Duhalde –
eu ganhei as eleições de 2002 e
o primeiro país a visitar foi a Argentina
– falou assim para mim: “Lula, eu
vou eleger”... o Menem estava se metendo
a ser candidato outra vez, e não sei mais
quem, tinha até corredor de automóvel
que ia ser candidato na Argentina. E o Duhalde
falou: “Lula, nós vamos eleger aqui
o Kirchner”. Eu perguntei: quem é
Kirchner? Ele falou: “É o governador
de Santa Cruz.
Ele não é conhecido aqui em Buenos
Aires, mas nós vamos elegê-lo”.
Pois bem, seis meses depois o Kirchner era presidente
da Argentina. Depois foi um processo, com Tabaré;
depois foi um processo, com Nicanor Duarte, no
Paraguai; depois foi um processo no Equador, que
não deu certo no primeiro momento, mas
deu certo no segundo momento, com Rafael Correa.
O Chávez era o único presidente
até então existente, na América
do Sul, com cara progressista, com compromissos
efetivos com o povo mais pobre.
E hoje nós vemos que o que aconteceu na
América do Sul está se espraiando
para a América Central e para a América
Latina, em quase todos os países. Na Guatemala,
acaba de ganhar um companheiro, muito companheiro
nosso, que participou do Foro de São Paulo.
Nós vamos ter eleições agora
em El Salvador e, certamente, ganhará um
companheiro da Frente Farabundo Marti as eleições
para a presidência de El Salvador, pelo
menos é o que as pesquisas estão
indicando. A eleição no Panamá
foi um avanço extraordinário, com
o companheiro Torrijos, e assim nós estamos
avançando. Há um mapa exatamente
antagônico ao mapa que existiu de 1980 a
1990, ou ao ano 2000. Quando o povo teve oportunidade,
na América do Sul, ele fez uma guinada
completa, ele trocou o neoliberalismo pelo que
tinha de mais avançado em políticas
sociais em todos os países da América
do Sul, e está acontecendo, agora, na América
Latina.
Isso é uma coisa, companheiro Chacho, que
nós ainda não aprofundamos. Lógico
que quando ganhamos as eleições
de um país, a nossa primeira preocupação
é com os problemas internos do nosso país,
e nós temos problemas sérios em
cada país para enfrentar. Muitas vezes
ainda não adquirimos a dimensão
do que é um processo de integração,
e é um pouco sobre isso que eu queria falar
aqui hoje.
O Brasil é o maior País da América
do Sul. É a maior extensão territorial,
tem a maior economia, é o maior em população,
é o maior em PIB. Portanto, recai nas costas
do Brasil a responsabilidade de levar em conta
as assimetrias existentes na nossa relação
da América do Sul.
O Brasil, em segundo lugar a Argentina, e em terceiro
lugar a Venezuela, em quarto lugar a Colômbia,
apenas para dar alguns exemplos, nós temos
a obrigação de estabelecer uma estratégia,
não de querer fazer uma competitividade
em igualdade de condições, mas de
ajudar os países mais pobres a ter uma
relação conosco em que a vantagem
possa ser desses países menores. Nós
não podemos imaginar que vamos fazer a
integração se os brasileiros se
queixam quando a gente compra o arroz produzido
no Uruguai. Nós não fazer integração...
Obviamente que também não podemos
prejudicar os nossos produtores de arroz. Então,
cabe ao Estado criar políticas compensatórias
para que a gente possa permitir um preço
competitivo para o nosso produtor. Mas nós
não podemos proibir.
Nós temos que trabalhar para industrializar
países como o Paraguai, países como
a Bolívia. Nós temos que seguir,
inclusive, o exemplo da União Européia.
O que fez a União Européia, quando
resolveu se juntar? Quanto de dinheiro a Espanha
recebeu? Quanto de dinheiro Portugal recebeu?
Quanto de dinheiro a Grécia recebeu? Quanto
de dinheiro ele estão colocando agora,
na Europa do Leste? Sabem por quê? Porque
não é conveniente, num processo
de integração, você ter países
fronteiriços com problemas de miséria
muito grandes, com diferenças de desenvolvimento
muito grandes. A inteligência nos mostra
que se a gente ajudar esses países a se
desenvolverem, o que vai acontecer? Eles vão
gerar mais empregos, mais riquezas, mais consumidores,
e a troca comercial entre nós compensa
os investimentos que nós fizemos.
É por isso que eu nunca vacilei, e estava
em época de eleição quando
o Evo Morales quis nacionalizar o gás dele
e eu disse: “O gás é do Evo,
ele está correto de nacionalizar. O gás
é um instrumento, é uma matéria-prima,
e é a única coisa que a Bolívia
tem”.
E por que nós fizemos isso? Quando o presidente
Nicanor reclama da relação Brasil-Paraguai,
com relação a Itaipu, nós
temos que compreender que embora o contrato seja
justo e legal, não pode ter uma relação
igualitária entre Brasil e Paraguai. O
Brasil tem que fazer concessões, porque
a economia do Paraguai é muito pequena
diante da economia do Brasil. O que vale para
eles com importância, para nós muitas
vezes não vale nada. O que são 100
milhões para o Brasil? Nada. Para o Paraguai
é uma importância extraordinária.
E o Brasil precisa ter isso em conta. Os deputados,
Rosinha, têm que ter isso em conta, os senadores
têm que ter isso em conta.
Essa é uma coisa grave na nossa relação.
Não havia experiência dessa relação
de integração. Sempre houve a experiência
de um país pujante como o Brasil, de um
país pujante como a Argentina, com parceiros
mais fracos. Portanto, era quase a lei do cão,
ou seja, toda a vantagem para os países
mais ricos. Não pode. Definitivamente,
nós não faremos integração
assim. Nós faremos, no máximo, uma
belíssima relação pessoal,
política, mas integração,
em que o povo de cada país possa ver naquilo
a possibilidade da evolução dele,
da melhoria da vida dele... Senão, o que
acontece? Ficam, de um lado, os países
achando que a Argentina é um país
imperialista. De outro lado, os companheiros da
Bolívia olham para o Brasil e tratam-no
como imperialista; do outro lado, os companheiros
do Paraguai olham o Brasil e tratam-no como imperialista.
Obviamente que tem que ser assim, porque nós
não fazemos aquilo que tem que ser feito
em política internacional. Nós temos
que ceder para esses países menores poderem
crescer, e esse crescimento deles será
bom para o Brasil e será bom para a Argentina,
será bom para os dois países.
Normalmente, um presidente fica chateado quando
vai a um país e percebe que o país
dele é visto como um adversário,
sobretudo o Brasil. As pessoas vêem o Brasil
com uma dimensão extraordinária,
e as pessoas estão sempre esperando que,
a cada reunião, o Brasil ceda em alguma
coisa. Eu acho que o Brasil não tem que
ceder porque, em uma relação soberana,
ninguém cede nada. Mas nas negociações
nós temos que ser generosos, nós
temos que compreender que uma boa relação
comercial não é aquela em que eu
vendo mil e compro dez. Essa relação
é uma relação asfixiante
para os países menores. Uma boa relação
é aquela em que eu vendo mil e compro 900,
ou eu vendo 900 e compro mil, para que haja um
certo equilíbrio entre os países,
porque senão nenhum país exporta.
Essa é uma coisa, meu caro Chacho, em que
nós precisamos evoluir de forma extraordinária.
Eu me lembro que nós queríamos importar
água do Uruguai, e eu me lembro que a nossa
Anvisa criou tanto obstáculo, fez tanta
exigência, que eu acho que a exigência
da Anvisa era para que tivesse uma qualidade,
na água do Uruguai, que nem Jesus Cristo
tinha bebido quando passou pela Terra. É
uma loucura. Muitas vezes, em vez de facilitamos,
criamos obstáculos. Um dia desses, eu sou
pego com uma notícia de que nós
iríamos fazer uma ponte na fronteira com
o Paraguai. Já perceberam que as pessoas
só querem fazer ponte quando o vizinho
é pobre? Se fossem os Estados Unidos, estaria
todo mundo escancarando a porta, mas como é
o Paraguai, a Bolívia, nós vamos
fazer um muro. Mas, que muro! Qualquer muro que
seja feito será o muro da vergonha, qualquer
muro, por menor que ele seja. Numa relação
comercial, da mesma forma que tem liberdade para
transitar os produtos, tem que ter liberdade para
transitar a coisa mais importante nas nações,
que é o povo da América do Sul.
Nós temos que transitar livremente, sem
obstáculos.
De vez em quando querem que eu brigue com o Chávez.
Cada coisa que eu falo é uma manchete negativa.
Se nós, governantes, políticos e
a imprensa aprendêssemos que a coisa mais
nobre numa relação internacional
é o respeito às decisões
soberanas de cada país... Cada país
decide o que é bom para si, cada país
decide a sua moeda, cada país decide a
sua política industrial, cada país
decide o seu regime político. De vez em
quando a gente pensa que pode dar palpite em tudo,
de vez em quando a gente pensa que pode dizer
“os países têm que ser todos
iguais”. Não somos um caminhão
de melancia. Somos países com culturas
diferentes, somos países com histórias
diferentes, conquistas de independência
em datas diferentes, colonizadores diferentes.
Então, se nós não respeitarmos
as tradições históricas e
culturais de nossos países, também
não terá integração.
E como nós não queremos mais ser
colonizados, nós queremos apenas que deixem
a vida nos levar, como diz o Zeca Pagodinho, deixem
a vida nos levar que nós saberemos construir
a nossa democracia, nós saberemos fortalecer
a nossa economia. Há quantos anos, na América
do Sul, as economias dos países não
cresciam o tanto que estão crescendo agora?
Há quanto tempo não se gerava a
quantidade de empregos que se gera agora? Há
quanto tempo o povo não vive como está
vivendo agora? É isso o que conta.
Na Venezuela o Chávez se elegeu, continuou;
eu me elegi aqui; agora se elegeu Cristina Kirchner;
logo, logo tem eleições no Uruguai;
logo, logo vai ter eleições na Colômbia;
logo, logo vai ter eleições no Paraguai.
O que nós queremos? Nós não
podemos dar palpite sobre quem a gente quer que
seja eleito. A gente só tem que torcer
para que o voto seja a possibilidade de eleger
o melhor para aquele país, não o
melhor para nós, mas o melhor para aquele
país.
Eu estou convencido de que essa reunião
que vocês estão fazendo aqui, Chacho,
é um passo importante, porque a integração
só entre os presidentes é uma coisa
difícil. Nós nos encontramos duas
ou três vezes por ano e, quando nos encontramos,
os nossos especialistas produziram os documentos.
Muitas vezes a gente nem lê os documentos
antes de chegar à reunião. Ninguém,
nem eu, nem Kirchner, nem Chávez, ninguém
lê. A gente pega o documento na hora, e
não tem discussão política.
Mas, quando vocês começam a se reunir,
os governadores começam a se reunir, a
gente começa a criar o Parlamento. E eu
acho que logo, logo, as centrais sindicais vão
ter que criar uma central da América do
Sul, uma central do Mercosul, nós vamos
ter que criar entidades dos países que
compõem o Mercosul, porque é isso
que vai dar a sustentação de uma
combinação entre a discussão
macroeconômica de cada país, a discussão
comercial, e a complementação –
que não é secundária, é
prioridade – que é o resultado das
políticas sociais para ajudar o povo mais
pobre dos nossos países.
A terceira coisa que eu acho extremamente importante,
companheiros, é que nós temos um
problema hoje no mundo, e um problema na América
do Sul, que é o problema de energia. Nós
temos um problema de energia sério, na
América do Sul. A Argentina tem problemas,
o Chile tem problemas, a Bolívia, que tem
muito gás, tem problemas, o Brasil, que
tem muita energia hídrica, tem problemas,
o Equador, certamente, tem problemas. Eu fui agora
à Nicarágua. A Nicarágua
precisa de 750 megawatts, e ela só tem
450. Tem sete horas de apagão por dia.
Está lá com uma termelétrica
que o Chávez emprestou, daquelas bem usadas,
que gasta mais óleo diesel do que se nós
fizéssemos uma nova. Então, o Brasil,
a Venezuela e a Argentina têm que chamar
o Daniel Ortega e falar: “Daniel Ortega,
nós vamos financiar para você uma
hidrelétrica”, alguma coisa que possa
gerar recursos, que possa definir, de forma estruturante,
uma saída.
O que eu acho, Chacho? Nós precisamos levantar
o potencial hídrico da América do
Sul. Certamente, nós teremos mais de 300
mil megawatts de potencial hídrico na América
do Sul. Se nós tivermos competência
de construir as hidrelétricas, respeitando
a questão ambiental, Marina, – estou
vendo o Basileu ali, presidente do Ibama, me olhando
feio –, se a gente respeitar as regras ambientais,
a gente vai poder, ao construir a hidrelétrica,
construir linhas de transmissão. Como nós
somos um continente dividido, pelo meio, pela
Linha do Equador, significa que nós vamos
ter momentos de chuva num grupo de países,
numa época do ano, e momentos de chuva
em outros países, em outra época
do ano. Portanto, nós poderemos fazer a
transferência de energia... Eu estou vendo
aqui o pessoal da Eletronorte, da Eletrobrás
aqui, ou seja, você vai poder fazer uma
integração energética.
Por que Brasil e Argentina não fizeram
aquela binacional ainda? Eu propus ao Evo Morales:
vamos fazer uma binacional no rio Madeira? Nós
vamos fazer a nossa, vamos fazer uma com você,
do seu lado. Vamos construir, vamos fazer um projeto
adequado e ver o que é possível.
E você sabe que de peixe eu entendo, Marina.
De bagre, Basileu, você fala comigo, que
eu entendo.
A Bolívia – aqui tem um companheiro
boliviano – eu estou indo à Bolívia
dia 16. O que eu quero conversar com o Evo é
o seguinte: não basta ter gás, é
preciso extrair esse gás, e é preciso
que tenha investimentos. Eu vou lá com
a proposta de que a Petrobras vai fazer investimentos.
Se a Petrobras não fizer investimentos,
vai faltar gás para o Brasil, para a Argentina,
para o Chile, e vai faltar gás para a Bolívia.
Não adianta ter uma mina de petróleo
embaixo de você, se você não
tem como tirar. Então, quem tem tecnologia
precisa socializar essa tecnologia e ajudar os
outros países a se desenvolverem. Essa
é a lógica que tem que permear o
Mercosul.
O Peru, meu caro vice-governador do Amazonas,
o Peru... o Peru, não, o Equador sonha
com um transporte fluvial entre Manaus e o Porto
de Manta. Eu falei para o meu amigo Rafael Correa:
no ano que vem eu vou a Manta para anunciar que
a gente vai construir esse meio de transporte
entre o Brasil e o Equador.
Nós falamos, Chacho, em integração.
Se o Rafael quiser vir para o Brasil e não
tiver um avião, ele tem que ir para Miami
para vir ao Brasil. Imagine que loucura! Na década
de 90 todos os países que tinham empresa
aérea venderam, e todo mundo só
queria voar para Nova Iorque. É, todo mundo
só quer voar para Nova Iorque, Londres,
Frankfurt, Roma, Madri. Ninguém quer voar
para o Equador, ninguém quer voar para
a Bolívia, ninguém quer voar para
a África. As pessoas só querem ir
no “bem-bom”. As pessoas só
querem comer carne argentina ou uruguaia, não
querem comer carne de bode.
Eu tenho dito para os meus companheiros que eu
tenho mais três anos, não sei quanto
tempo tem o Chávez, o Rafael Correa tem
mais quatro anos, o Evo tem mais três anos.
Nós precisamos apressar esse processo de
integração. E, aí, eu queria
pedir a compreensão do Parlamento aqui,
Rosinha. Nós temos um problema, que é
o seguinte: o tempo dos presidentes é diferente
do tempo do Parlamento. Nós vamos e fazemos
um acordo, esse acordo tem que passar pelo Parlamento.
Às vezes, o acordo precisa ser para ontem,
e demora oito meses, nove meses, um ano, um ano
e meio.
Eu conto esse caso sempre: eu tomei posse, e o
presidente Wade, do Senegal, me liga e fala assim
para mim: “Presidente Lula, vai vir uma
praga de gafanhoto na semana que vem e eu precisava
de uma aviãozinho. Eu sei que o Brasil
tem o avião Ipanema, de primeira qualidade.
Eu queria o avião e queria pesticida para
matar esses gafanhotos”. Eu falei: vai ser
a minha primeira obra internacional. Fantástico!
Chamei o ministro Celso Amorim e falei: Celso,
vamos mandar o avião Ipanema, vamos comprar,
custa... Sei lá quantos centavos que custa
aquilo lá, vamos comprar. Vocês sabem
o que aconteceu? Demorou seis meses, porque eu
tive que mandar para o Congresso Nacional. Aí,
quando o aviãozinho chegou, já tinham
comido o milho do coitado.
Vocês sabem que nós fomos educados
a ser pobres. Então, um país da
potência do Brasil e da potência da
Argentina, a gente não tem o hábito
de contribuir com os outros, a gente só
quer que os outros contribuam conosco. Nós
não temos um fundo em que a gente possa
ter 50 milhões de dólares ou 100
milhões de dólares para, numa hora
de aperto, numa hora de calamidade, mandar uma
ajuda, não tem isso. Porque nós
sempre fomos tratados como pobres, nós
só queremos que os outros nos ajudem.
E nós, gente, não construiremos
a integração se a gente não
der esse passo extraordinário. Nós
temos que construir as rodovias que nos interligam,
temos que construir as ferrovias que nos interligam,
temos que ter interligação em telecomunicações,
temos que fazer as pontes que precisa.
Vocês vejam um negócio: em 500 anos
de relação com a Bolívia,
a primeira pontezinha feita no estado do Acre
foi feita no meu governo. Só passa um carro.
Mas já tem uma ponte, antes não
tinha. Agora já passam dois carros. A primeira
ponte na região Norte do País, com
o Peru, foi no meu governo. Lá em Assis
Brasil, no estado do Acre, estamos construindo
essa interoceânica, ligando o Brasil ao
Pacífico e o Pacífico ao Atlântico.
Agora vamos fazer, se Deus quiser, o presidente
da França vem ao Amapá e nós
vamos, finalmente, ser o primeiro país
da América do Sul a ter uma fronteira com
a Europa, com a França. Eu já estou
aqui pensando nos vinhos que o Waldez vai me dar
de presente, já estou pensando. Eu vou
até pedir para alguém chique me
dar o nome de um vinho chique, para mandar empurrar
para a secretária do Waldez. E eu falo:
“Eu não gosto de vinho, a minha mulher
é que gosta”, então ele manda
um melhor ainda.
Bem, então eu quero dar os parabéns,
companheira Ana Júlia, por essa reunião
realizada aqui, na região Norte do País.
Quero, do fundo do coração, agradecer
aos governadores dos países irmãos
que vieram aqui. E, certamente, vocês sairão
agradecidos pelo carinho que vocês receberam
do povo do Pará, que é um povo singular,
neste País, no tratamento com as pessoas.
Terminada essa parte internacional... Eu fico
numa dúvida, porque se eu “hablo
espanhol, ustedes no entienden”, se eu falo
em português, eu tenho medo de que todos
eles não entendam. Mas, como a maioria
aqui fala português, eu coloquei em votação
e, então, só falo em português
aqui.
Mas, agora, terminando essa parte internacional,
eu queria falar um pouco do resultado apresentado
pelo Gilberto Câmara, do Inpe, e falar das
coisas que a Marina disse aqui. Primeiro, eu fico
feliz com os números apresentados, Marina,
muito feliz. Mas fico triste porque poderíamos
fazer mais, temos condições de fazer
mais e podemos fazer mais.
Agora, nós não vamos fazer, Marina,
enquanto ficar nas nossas costas, lá em
Brasília, cuidar de 8 milhões e
meio de quilômetros quadrados e 360 milhões
de hectares de floresta da Amazônia. Nós
não vamos. Nós podemos ter a fotografia
do momento, nós poderemos ter não
sei o quê, mas é humanamente impossível,
se a gente não envolver o poder local para
assumir responsabilidade como nós.
Tem duas coisas, Marina, que nós temos
que fazer. Primeiro, nós temos que dizer,
em alto e bom som: neste País tem empresário
sério na agricultura, tem empresário
sério em fábrica de madeireira,
que fazem as coisas corretas, honestas, pagam
seus impostos e fazem as coisas certas. Nós
temos que salvaguardar esses e mostrá-los,
porque a sociedade tem que saber que em tudo tem
coisa boa e coisa ruim. E tem aqueles que são
predadores, aqueles que não respeitam a
lei, aqueles que não respeitam a autoridade.
Para esses tem que ter o bastão do Estado
em cima deles, para aprenderem a respeitar as
leis aprovadas pelo Congresso Nacional.
Então, Marina, eu quero dizer para você
o seguinte: tanto para combater o trabalho escravo,
quanto para diminuir as queimadas, eu quero que
no começo do ano, Basileu, vocês
preparem o mapa dos municípios onde existem
queimadas, que eu vou convocar os governadores
dos estados, vou convocar os prefeitos das cidades,
vou convocar os vereadores ou os presidentes das
Câmaras, se for necessário eu convoco
o pastor e o bispo, se for necessário eu
convoco o dirigente sindical, porque nós
precisamos fazer uma gestão compartilhada
e responsável. Se for necessário
– eu vou te avisar de público, aqui
– se for necessário, colocamos um
delegado da Polícia Federal em cada município.
Se for necessário, colocaremos um delegado
da Polícia Federal, junto com o Ibama,
em cada município. Não é
possível que as pessoas não estejam
entendendo o que está acontecendo no Planeta,
e que nós poderemos ganhar dinheiro sendo
legais. Nós poderemos ganhar muito mais
dinheiro fazendo a coisa correta, poderemos ganhar
muito mais se a gente utilizar corretamente o
manejo da floresta, se a gente souber preservar,
se a gente souber replantar. Nós temos
que ter consciência de que a Amazônia
não é apenas o pulmão do
mundo como eles dizem, a Amazônia é
a possibilidade de nós andarmos de cabeça
erguida diante da Europa e dos Estados Unidos,
que hoje querem preservar a Amazônia depois
de devastarem toda a sua floresta, toda, sem nada,
e de serem responsáveis por 70% da emissão
de gases de efeito estufa. Nós queremos
fazer parcerias com eles também, mas não
queremos que levantem o dedo para nós.
Você vai para Bali agora, eu sei que você
é guerreira, vai muita gente boa. Discutir,
sim, dialogar, sim, mas aceitar desaforos, jamais.
A Amazônia é nossa e, com virtudes
e defeitos, nós vamos cuidar dela.
E aquela proposta que você apresentou em
Nairobi, Marina, tem que voltar a ser apresentada
em Bali. Eu estou cansado de ver país que
não tem... Eu ando de helicóptero
nesses países também, minha filha.
Eu vinha no avião, agora, e falei para
Marisa: “Bote a cabeça na janela
aí, para você ver” –
não a cabeça para fora, porque ela
seria sugada – olhe pela janela do avião
e veja se em algum país do mundo, por onde
eu viajei, a gente consegue andar uma hora só
vendo essas árvores extraordinárias?
É tudo careca, tudo careca, não
tem nada. E quando tem árvores, é
tudo igual, é tudo igual. Então,
eu acho, Marina, que a sua proposta de Nairobi
deve voltar a ser apresentada com mais força.
Aliás, já falei no discurso da ONU:
nós vamos preservar. Agora, os países
ricos precisam colocar a mão no bolso e
pagar aos países pobres que preservam as
sua florestas.
No mais, querida, eu queria terminar com uma mensagem
para a minha governadora Ana Júlia. Ana
Júlia, você sabe que eu acompanho,
por ossos do ofício, a imprensa do Brasil
inteiro e dos estados. E eu sei que, muitas vezes,
as pessoas estão jogando nas suas costas
uma carga que você não deveria receber.
Você está há apenas 11 meses
no governo, você não fez sequer o
seu primeiro orçamento ainda, você
está trabalhando o orçamento aprovado
no outro governo, as prioridades definidas ainda
não são as suas. Você pode
perguntar para quem é governador, aqui:
o primeiro ano sempre é o mais difícil.
Qual é a vantagem do primeiro ano? É
que a gente tem capital político no primeiro
ano. Acabou se ser eleito, então você
pode gastar um pouco do capital político
fazendo as coisas que precisam ser feitas, mesmo
aquelas que podem descontentar alguém,
porque no segundo ano você não tem
mais capital político. No segundo ano,
você vai começar a queimar a expectativa
que gerou na população desse estado
para fazer as coisas, e o povo começa a
cobrar. E é bom que o povo cobre. Nunca
fique chateada que o povo cobre, esse povo te
elegeu porque os outros não permitiram
que os cobrassem, e eles queriam uma companheira,
no governo, para eles poderem cobrar de você.
Agora, eu queria que você aprendesse uma
lição, querida Ana Júlia:
não se permita ficar nervosa com ataques.
Você não tem que provar nada para
ninguém agora. Você tem que provar
para as pessoas é no final do seu mandato.
Governar é como fazer um prato de comida.
Se você tem uma criança pedindo comida,
estão as panelas em cima do fogo, e você
pega só o arroz, põe no prato, bota
para a criança e pergunta: “está
bom”? Ela vai dizer: “Não”.
Aí você bota um pouquinho de feijão
e mostra: está bom? “Não”.
Aí você vai lá, bota uma saladinha,
bota uma carnezinha, e ela fala: “Está
bom”. Então, governar é construir
o projeto para o qual você foi eleita, e
você está no começo. É
como se você tivesse plantado um pé
de fruta. Não adianta plantar e ficar sentado
do lado: “Nasce, nasce”. Só
carrapicho nasce assim, coisa ruim.
Coisa boa, demora. Então, eu quero que
você não tenha pressa, vá
aguando, vá botando uma aguinha, bota um
adubozinho e você vai ver que, logo, logo,
vai brotar e logo, logo, o povo vai começar
a comer os frutos daquilo que é o projeto
que te elegeu para este estado. Quero te dizer,
minha querida companheira, que nos momentos bons
em que você tiver que fazer festa aqui,
não precisa me convidar, porque a dona
Marisa não me deixa vir. Agora, nos momentos
difíceis, se você precisar, eu quero
que você saiba que você tem lá
em Brasília, não um presidente,
mas um companheiro seu para lhe ajudar em todas
as horas.
Muito obrigado e boa sorte a todos vocês.
|
|
|
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
 |
| |
|
| |
|
| |
 |
| |
|
| |
Belém - Ministra do
Meio
Ambiente, Marina Silva,
governadora do Pará,
Ana Júlia Carepa,
presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, secretário-geral
do Itamaraty, Samuel
Pinheiro Guimarães,
e ministro do Desenvolvimento Agrário,
Guilherme Cassel,
participam do Encontro
de Governadores da
Frente Norte
do Mercosul |
| |
|
| |
 |
| |
|
| |
Belém - Governadora
do Pará, Ana Júlia Carepa,
presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, secretário-geral
do Itamaraty, Samuel
Pinheiro Guimarães. |
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
| |
|
|