COBERTURA ESPECIAL - America Latina - Geopolítica

28 de Setembro, 2012 - 08:30 ( Brasília )

Morales contesta tratado com Chile e acusa EUA de terrorismo

Chile: tratado que define limites com Bolívia está "vigente"

O presidente da Bolívia, Evo Morales, voltou a pedir nesta quarta-feira na ONU a renegociação do tratado com o Chile que significou para seu país a perda do acesso ao mar, acusou os EUA de praticarem "terrorismo de Estado" e disse que o mundo não melhorará se as "Nações Desunidas" não mudarem.

"O Chile não pode ignorar o direito boliviano e prolongar a prisão geográfica imposta pela força", disse Morales em seu discurso durante a 67ª sessão da Assembleia Geral da ONU.

Além disso, o líder pediu ao Chile que coloque fim a um "prejuízo histórico" e ao "aprisionamento" da Bolívia por meio de "um mecanismo de solução de controvérsias", e solicitou o acompanhamento da comunidade internacional para a questão.

O Tratado de Paz e Amizade de 1904 determinou a soberania chilena sobre territórios que a Bolívia perdeu durante a Guerra do Pacífico, entre 1879 e 1884. Isso significou a perda do acesso ao mar para a Bolívia, um assunto que dificultou desde então as relações entre os dois países.

Na última Assembleia da Organização dos Estados Americanos (OEA), realizada na cidade boliviana de Cochabamba, a Bolívia pediu ao Chile para "renegociar" o tratado e reiterou sua intenção de apresentar um requerimento com este objetivo no tribunal de Haia. "Os tratados, como toda obra humana, podem ser modificados", insistiu hoje Morales.

As Malvinas "são para a Argentina e o mar para a Bolívia", afirmou em alusão à disputa do país vizinho com o Reino Unido pela soberania das ilhas no Atlântico Sul. "Como podemos mudar o mundo se não mudamos as Nações Unidas, responsável pelo intervencionismo em vários continentes?", perguntou Morales, que se referiu ao organismo como "Nações Desunidas".

Nesta quarta-feira, antes de disputar um jogo de futebol em Nova York com alguns funcionários da ONU, o presidente defendeu o fim do "Conselho de Insegurança" do organismo, porque em sua opinião não se pode "ser cúmplice do intervencionismo e da violação dos direitos humanos".

"Não tenhamos medo do império nem do capitalismo, porque não é nenhuma solução para a vida e a humanidade", disse Morales em um discurso no qual voltou a atacar duramente os Estados Unidos.

Ao criticar a lista de países patrocinadores do terrorismo elaborada pelos EUA anualmente, Morales afirmou que os americanos são os primeiros a cometerem "terrorismo de Estado, com tantos massacres em nome da democracia".

Os Estados Unidos intervieram na Líbia "para recuperar o petróleo, não pelo povo líbio", argumentou em referência à operação militar liderada pela Otan em 2011 e que pôs fim ao regime de Muammar Kadafi.

Relações suspensas desde 1962

O ministro das Relações Exteriores do Chile, Alfredo Moreno, afirmou nesta quarta-feira que o tratado com a Bolívia está "plenamente vigente", em resposta ao presidente boliviano, Evo Morales, que disse na ONU que o Chile não pode prolongar um aprisionamento geográfico "imposto pela força".

"É um tratado plenamente válido e vigente, que tem mais de cem anos", declarou Moreno, segundo um comunicado divulgado pela chancelaria chilena. O Tratado de Paz e Amizade de 1904 fixou os limites entre ambos os países e a soberania chilena sobre territórios que a Bolívia perdeu durante a Guerra do Pacífico, entre 1879 e 1884. Isso significou para a Bolívia a perda de seu acesso ao mar, questão que dificultou desde então as relações entre os dois países.

Moreno desprezou as afirmações do líder boliviano argumentando que "o diálogo" é o caminho que ambos os países devem seguir. Morales disse ontem que "os tratados, como toda obra humana, podem ser modificados".

O chefe da diplomacia chilena afirmou que o tratado de 1904 estabeleceu direitos para a Bolívia, particularmente de livre trânsito de mercadorias (através da região de Antofagasta), "que o Chile sempre cumpriu".

As relações entre Chile e Bolívia estão suspensas desde 1962, com um parêntese entre 1975 e 1978, quando as negociações sobre a questão fracassaram.