COBERTURA ESPECIAL - America Latina - Geopolítica

11 de Julho, 2012 - 11:39 ( Brasília )

Brasil é como um elefante em loja de cristal, diz Caballero


A decisão da Secretaria Geral da OEA (Organização dos Estados Americanos) de não adotar retaliações contra o Paraguai pela deposição do ex-presidente Fernando Lugo, no dia 22 de junho, deixou um diplomata de sorriso no rosto: o representante paraguaio na entidade, Bernardino Hugo Saguier Caballero.

O resultado da missão da OEA ao país joga um balde de água fria na postura dos órgãos sul-americanos, o Mercosul e a Unasul, que suspenderam o Paraguai de seus quadros alegando "ruptura" política no país, sem que Assunção sequer estivesse presente à reunião onde a medida foi decidida.

Analistas especulam se o isolamento político do Paraguai do Mercosul poderia levar o país a procurar alternativas de integração - inclusive uma maior relação com os Estados Unidos, um dos países por trás da decisão da OEA de não adotar sanções.

Por ora, a avaliação dos analistas é que é difícil ver um futuro para o país longe de esquemas de integração com seus vizinhos. No entanto, em entrevista à BBC Brasil, o embaixador paraguaio disse que a decisão do bloco "feriu" o seu povo e amargou a relação do país com o Brasil.

Durante a sessão da OEA, Hugo Saguier se mostrou particularmente ofendido quando o representante brasileiro no órgão, Breno Dias da Costa, disse que o colega paraguaio estava ali "por generosidade" - indicando que fazia parte de um governo ilegítimo. Quando a OEA não seguiu a decisão do Mercosul, Hugo Saguier sentiu-se vingado.

"Saibam medir as suas consequências, vocês são como um elefante metido dentro de uma cristaleira: quando se movem, quebram tudo", disse o representante paraguaio à BBC Brasil. Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil - O sr. acha que as medidas do Mercosul podem afastar de vez o Paraguai do bloco?
Hugo Saguier - Nós não nos afastamos, eles é que nos afastaram. Nos afastaram sem nos dar o direito sequer de estar presente, violando a letra e o espírito -que é o mais importante- de todos os tratados do bloco.

BBC Brasil - Mas agora o Paraguai tem a opção de tentar se aproximar ou continuar se afastando do Mercosul.
Saguier - Nesse momento, o Paraguai iniciou uma ação nos Tribunais do Mercosul questionando as decisões, já que foram feitas sem a nossa presença. Por outro lado, o presidente Federico Franco manifestou que não iniciará nenhuma medida em seu governo para se separar do Mercosul, já que ele considera que em seu período, que é curto, não pode estar hipotecando uma decisão do futuro presidente. Me parece uma atitude séria e responsável. No entanto, há muitos setores da opinião pública paraguaia e setores políticos que se sentem muito incomodados com o Mercosul hoje em dia.

BBC Brasil - Ou seja, o Mercosul será um grande tema das eleições paraguaias.
Saguier - Sem dúvida nenhuma. Mercosul e Unasul serão temas centrais dentro dos programas internos dos partidos políticos e nas eleições nacionais. Será a primeira vez que temas internacionais serão mais importantes nas eleições que a agenda doméstica.

BBC Brasil - O sr. crê que o Mercosul chegou a um impasse ao fechar a porta com o Paraguai?
Saguier - Acho que sim. Acho que cometeram um erro, não mediram as consequências, e a prova está no profundo debate interno que se produziu no seu país.

BBC Brasil - O Brasil?
Saguier - Sim. Nós mesmos já não sabemos quem no Brasil é a favor ou é contra. O embaixador José Botafogo, que foi ministro da Integração, disse que é contra o procedimento do Mercosul. Eu tenho muitos colegas embaixadores brasileiros de quem recebi palavras de alento. Outros bloquearam o nosso número de telefone.

BBC Brasil - E como o sr. crê que sairemos desse impasse?
Saguier - Eu estou muito preocupado. A relação entre Brasil e Paraguai é um casamento forçado. Quando assinamos o Tratado de Itaipú, em 1973, um chanceler disse que os países haviam finalmente assinado um tratado de paz - cem anos depois da guerra. E assim fomos funcionando. Mas essa atitude prepotente, ilegal e irracional do Mercosul afetou e feriu o povo. O que tem o povo a ver com as decisões dos seus governantes? Saibam medir as suas consequências, vocês são como um elefante metido dentro de uma cristaleira: quando se movem, quebram tudo.

BBC Brasil - Mas o Brasil desde o princípio manifestou que não queria e não quer sanções de ordem econômica contra o Paraguai.
Saguier - Pergunte às cidades fronteiriças como está o comércio nesse momento. Não vou dizer, o sr. mesmo pergunte para ver se não houve consequências econômicas.