COBERTURA ESPECIAL - America Latina - Geopolítica

08 de Julho, 2012 - 19:00 ( Brasília )

Sobre drogas e Bolivarianos

O caso do senador boliviano a que o Brasil deu asilo pode jogar luz sobre política e narcotráfico

Clovis Rossi

A acusação dos Estados Unidos contra pelo menos dois altos oficiais venezuelanos de que estariam ligados ao narcotráfico não é a única sombra que pesa sobre governos bolivarianos, para ficar só no quesito drogas.

Uma das sombras, aliás, vincula diretamente o Brasil, porque é na embaixada brasileira em La Paz que se encontra, como asilado, o senador Roger Pinto.

Revisitemos brevemente os antecedentes do caso, conforme contados por Douglas Farah, pesquisador-sênior do Centro Internacional de Avaliação e Estratégia dos EUA.

No começo deste ano, o governo Evo Morales acusou Pinto de homicídio, mas "não se deu ao trabalho de apresentar um corpo ou qualquer outra evidência do alegado crime".

O ataque ao senador Pinto veio na esteira de uma sequência de denúncias de corrupção de círculos governamentais e sobre a crescente presença na Bolívia de cartéis mexicanos da droga.

Pinto apresentou publicamente relatórios que dizia serem dos serviços de inteligência da polícia, redigidos por homens leais a Morales, mas que viam a "maciça penetração" criminosa no governo como uma traição à revolução prometida pelo presidente.

As alegações de corrupção estavam centradas em oficiais ligados ao caso do general René Sanabria, que servira como chefe da unidade de elite antinarcóticos da polícia e fora assessor-sênior de inteligência do presidente Morales.

Sanabria foi condenado, em 2011, em Miami, por tráfico de drogas (mais exatamente, 144 quilos de cocaína).

Segundo Pinto, havia outros altos oficiais envolvidos no tráfico, gozando, no entanto, de proteção oficial.

Sempre de acordo com o analista norte-americano, Sanabria confirmou, da prisão, muitas das informações divulgadas pelo senador Pinto, que se animou a levar cópias do relatório ao palácio presidencial.

Morales, em vez de determinar uma investigação, voltou-se contra o senador, acusado, por sua vez, de sedicioso.

Como Pinto não se calou, veio a acusação de homicídio, seguida de ameaças de morte, o que finalmente levou o senador a pedir asilo na embaixada brasileira.

Douglas Farah surpreendeu-se não com o pedido de asilo, mas com o fato de que ele tenha sido concedido pelo governo Dilma Rousseff, no que o pesquisador considera uma reprimenda ao presidente Morales.

De fato, o vice-presidente Álvaro Garcia Linera chamou a decisão brasileira de "desatinada", enquanto Morales preferia rotulá-la como "equivocada". Para o Itamaraty, com a sua inoxidável cautela, trata-se apenas de atuar "à luz das normas e da prática do direito internacional latino-americano" e com base na Constituição.

De todo modo, ao aceitar Pinto como "refugiado político", o Brasil está rejeitando automaticamente a hipótese de que seja um criminoso, porque criminosos não merecem amparo.

Claro que os "bolivarianos" sempre reagem atribuindo tudo à conspirações do império. O império de fato conspira bastante, mas acreditar na eterna inocência dos "bolivarianos" não é ingenuidade, é estupidez.