COBERTURA ESPECIAL - America Latina - Geopolítica

28 de Novembro, 2014 - 09:35 ( Brasília )

Queda do preço do petróleo abala economia da Venezuela

No país com as maiores reservas do mundo, baixa do petróleo deve acarretar menos gastos com programas sociais e aumento de impostos. Venda do produto equivale a 96% de todas as exportações do país.

A queda do preço do petróleo acerta o "socialismo do século 21" em cheio. Pois no modelo de gestão implementado pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez em 1998, estatização, controle dos preços e redistribuição têm um papel fundamental.

"O preço do petróleo pode causar mais mudanças do que as eleições parlamentares do próximo ano", afirma o economista venezuelano Daniel López. "Se ele cair para o valor de 60 dólares [o barril] e permanecer nesse patamar, os programas sociais no país vão sofrer financeiramente."

Até mesmo o Banco Mundial reconhece que os programas sociais venezuelanos, chamados de "misiones", ajudaram a reduzir a pobreza no país de cerca de 50% em 1998 para 30% em 2012. Entretanto, diante da conjuntura atual, a questão é por quanto tempo Caracas pode arcar com o financiamento desses programas.

De acordo com dados do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), o déficit orçamentário da Venezuela está acima de 15% do Produto Interno Bruto (PIB), a inflação ultrapassou a marca de 60% em 2014, e a economia deve encolher até 3% este ano.

Segundo estimativas do instituto venezuelano de pesquisas econômicas Ecoanalítica, logo o país com as maiores reservas de petróleo do mundo ostentará dívidas bilionárias com companhias aéreas internacionais, empresas de automóveis, indústrias farmacêuticas e fabricantes de alimentos. As causas das dívidas elevadas são a fuga de capital e a falta de divisas.

"A economia da Venezuela é altamente exposta às flutuações dos preços no mercado internacional, porque a venda do petróleo equivale a 96% de todas as exportações do país", diz o Banco Mundial. "A receita com as exportações de petróleo contribuem para metade do financiamento do orçamento do Estado."

Importações de petróleo, apesar das reservas

A produção de petróleo está em retrocesso na Venezuela, pois a estatal PDVSA não tem dinheiro para investir em novas instalações de produção ou para construir refinarias modernas para o processamento da matéria-prima.

De acordo com o jornal El Universal, de Caracas, a Venezuela chegou inclusive a importar petróleo da Argélia, em outubro. Um porta-voz da PDVSA declarou à imprensa local que a matéria-prima importada da Argélia será utilizada no processo de diluição do óleo nacional.

Como o governo tem que compensar o declínio das receitas da venda do petróleo, especialistas preveem não apenas um menor gasto com programas sociais, mas também um aumento dos impostos e dos preços dos combustíveis. Em 18 de novembro, o presidente Nicolás Maduro já emitiu vários decretos, incluindo a introdução de impostos adicionais sobre bens de luxo, bebidas alcoólicas e cigarros.

Um litro de gasolina na Venezuela custa o equivalente a dois centavos de dólar, de acordo com o Banco Mundial. "Nosso combustível não custa nada! O plano é aumentar o preço para quatro centavos, de modo que apenas o transporte seja subsidiado, e não toda a produção", considera López. "Isso deve acontecer em breve."

Esperança por negócios com os EUA

Segundo a imprensa local, o governo venezuelano também está tentando vender a subsidiária americana da companhia estatal de petróleo PDVSA, para conseguir as receitas urgentemente necessárias. A maior subsidiária Citgo possui nos Estados Unidos um rede de aproximadamente seis mil postos de gasolina e três refinarias.

Apesar do agravamento da crise econômica na Venezuela, o economista López descarta que o país peça moratória, como foi o caso da Argentina. "Não quebraremos, pois há dinheiro", garante López. No começo de novembro, a Venezuela recebeu um empréstimo de quatro bilhões de dólares do governo chinês. As reservas internacionais estariam em torno de 23,5 bilhões de dólares.

López já se acostumou aos absurdos da economicamente milagrosa Venezuela. "Todos os anos, de alguma forma, falta alguma coisa. Em 2006, não havia leite, atualmente falta papel higiênico, manteiga e sabonete", diz. "A moeda enfraquece a cada dia. Não conseguimos comprar nada com nossos bolívares. Nossa economia é uma fantasia."