COBERTURA ESPECIAL - America Latina - Geopolítica

09 de Setembro, 2014 - 10:55 ( Brasília )

"Chávez Nosso" reacende discussão sobre fronteira entre religião e política

Oração em homenagem a Hugo Chávez rendeu críticas a partido socialista venezuelano. Mas tentativas de canonizar um regime ou seus líderes não são novidade, aponta teólogo.

"Chávez nosso, que estais no céu", assim se inicia a Oração do Delegado, a versão chavista do Pai Nosso apresentada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) num seminário sobre educação socialista no começo deste mês.

A resposta do arcebispo de Caracas não demorou a chegar: a deificação de um ser humano é um pecado, advertiu o cardeal Jorge Urosa. Ao mesmo tempo, o presidente venezuelano e líder partidário, Nicolás Maduro, rebateu críticas à homenagem feita a seu falecido mentor político: a Oração do Delegado seria apenas uma obra lírica, como a poesia do Nobel de Literatura chileno Pablo Neruda, disse Maduro.

Não se sabe quantas pessoas o presidente venezuelano conseguiu convencer com essa argumentação. As semelhanças com a mais conhecida e mais antiga oração cristã se arrastam por toda a Oração do Delegado: "Santificado seja o vosso nome", "A tua luz de cada dia nos dai hoje", "E não nos deixeis cair na tentação do capitalismo, mas livrai-nos dos males da oligarquia".

Superficialmente, isso pode soar como folclore político ou uma provocação dos adversários. Mas não se deve menosprezar o impacto de longo prazo, afirma Thomas Grossbölting, teólogo e historiador da Universidade de Münster, na Alemanha. "Aqui se ultrapassa deliberadamente um limite para abrir portas para a sacralização de uma determinada política ou de seus líderes", diz.

Meios ideológicos

Esta não é a primeira vez na história que se tenta santificar regimes ou políticos. O culto à personalidade em torno de Adolf Hitler na Alemanha nazista, entre 1933 e 1945, foi rodeado de elementos religiosos, exemplifica Grossbölting.

Isso inclui desde a encenação das reuniões do Partido Nazista em Nurembergue, em que o "Führer" atravessava um arco luminoso, até formas claras de messianismo, segundo o teólogo. "O próprio Hitler falava da providência divina, que proporcionou ao povo alemão a sorte de tê-lo encontrado."

As lideranças da antiga Alemanha Oriental também fizeram uso dessa estratégia, porém, de uma forma bem mais tênue, afirma o historiador. Em 1958, Walter Ulbricht, o primeiro dos secretários-gerais do Partido da Unidade Socialista (SED, na sigla em alemão), anunciou os "Dez mandamentos da moral e da ética socialista".

"O regime recorre a um padrão conhecido entre a população para conferir um caráter sagrado à sua própria mensagem", diz Grossbölting sobre a aparente contradição entre o regime ateísta e alusões religiosas. Afinal de contas, para o cristianismo, os Dez Mandamentos não são regras quaisquer, mas a palavra divina, explica o teólogo.

No entanto, na ex-Alemanha Oriental, isso nunca foi bastante eficaz, mesmo que mais tarde o SED tenha criado uma série de dez mandamentos – parte delas em relação a situações bastante profanas, como "viagens e transportes". Posteriormente, a tentativa de conferir um caráter quase sagrado a decretos do governo evoluiu para o ridículo, diz Grossbölting.

Distinguir religião e política

Hoje, sobretudo na Europa Ocidental, a base religiosa está abalada demais para que a sacralização de uma pessoa ainda pudesse ter algum efeito, afirma o teólogo.

Mesmo assim, Grossbölting diz considerar correta a postura da Igreja Católica de se afastar de tais tentativas e de apontar as fronteiras entre política e religião. Isso poderia ser particularmente importante na Venezuela, onde para muitas pessoas a religião ainda exerce um papel importante, mesmo após 15 anos de governo socialista.

Depois de ter condenado duramente o "Chávez Nosso", o arcebispo Urosa se mostrou despreocupado. "Todo fiel venezuelano vai entender do que se trata", disse em entrevista ao jornal El Espectador.

Opinião: Oração a Chávez é muito mais do que piada de mau gosto
Uta Thofern, chefe do Departamento América Latina da Deutsche Welle.

À primeira vista, achei que se tratava de propaganda antibolivariana. Afinal de contas, os opositores do socialismo nem sempre são escrupulosos.

Mas o vídeo online não era uma farsa: num recente congresso do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), um ativista realmente recitou uma versão do Pai Nosso dedicada a Hugo Chávez. E, na hora do amém, foi acompanhado por centenas de vozes que gritavam "Viva Chávez". Eu não sabia se ria ou chorava, então decidi simplesmente desconsiderar. Mas a história estava longe de terminar.

Como era de se esperar, a Igreja Católica na Venezuela reclamou e exigiu respeito à principal oração do Cristianismo – algo justo. Menos esperada, no entanto, ao menos a partir de uma perspectiva racional, foi a reação do novo presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

É claro que ele não poderia abandonar seus camaradas, mas comparar a oração à obra de Pablo Neruda, um ganhador do Prêmio Nobel, e chamar os cardeais de novos inquisidores foi ir um pouco longe demais. Até a emissora estatal defendeu o poema, chamando a "poesia" de uma "correção necessária das distorções da oposição de direita".

O que assusta nessa irracionalidade é que ninguém mais ri disso na Venezuela. Quando Maduro afirmou, durante a campanha presidencial de 2013, que o espírito de Chávez o havia inspirado na forma de "um pequeno passarinho", isso ainda poderia ser visto como uma metáfora infeliz. Mas já naquela ocasião ele se referiu a Chávez como "um líder que incorporou os valores de Cristo".

Tudo indica que Cristo não se faz mais necessário na Venezuela: o finado Chávez parece bastar em termos de exaltação religiosa. O movimento bolivariano parece estar evoluindo de confissão político-religiosa para seita, incluindo o fanatismo intrínseco a elas, a incapacidade de debater e, é claro, a tendência ao isolamento e às teorias conspiratórias. Se algo dá errado na Venezuela, a culpa é sempre das maquinações do inimigo – seja ele a oposição, seja o capitalismo estrangeiro.

Já é suficientemente assustador quando a oposição política é transformada em inimigo. Mas, quando uma ideologia vira a única doutrina verdadeira, a crítica se transforma em heresia, e a mudança de governo passa a ser o apocalipse. Isso não tem mais nada que ver com democracia.

Como alemã, o que mais me assusta é a suspeita de que uma psicose coletiva esteja sendo introduzida de forma intencional na Venezuela, de que Maduro não seja apenas um crente ingênuo que tenta desajeitadamente compensar sua falta de carisma com o enaltecimento de Hugo Chávez – mas, em vez disso, que a liderança bolivariana esteja deliberadamente explorando símbolos religiosos e emoções e, assim, abusando das necessidades espirituais do povo. Porque, na Alemanha, ações desse tipo sempre vieram acompanhadas de uma ditadura.