COBERTURA ESPECIAL - America Latina - Aviação

06 de Fevereiro, 2014 - 14:29 ( Brasília )

Argentinos falam em caças Kfir de ação limitada – Roberto Lopes

Em uma manobra destinada a acalmar as autoridades britânicas, militares argentinos deixam vazar informações sobre uma versão de emprego limitado dos caças israelenses que planejam comprar


Argentinos falam em caças Kfir de ação limitada

 
 

Roberto Lopes
Jornalista especializado em assuntos militares.
Em 2000 graduou-se em Gestão e Planejamento de Defesa
no Colégio de Estudos de Defesa Hemisférica da Universidade
de Defesa Nacional dos Estados Unidos,
em Washington (Fort Leslie F. McNair).
É autor do livro “O Código das Profundezas –
Coragem, Patriotismo e Fracasso a bordo dos Submarinos
Argentinos nas Malvinas” (Ed. Civilização Brasileira), de 2012.

 
 
Em uma tentativa de minimizar a importância da aquisição de caças israelenses Kfir que pretende fazer – e, dessa forma, reduzir as resistências de Londres à operação comercial –, a Força Aérea Argentina (FAA) deixou vazar um punhado de informações que apontam para uma versão da aeronave de baixo custo, limitada ao emprego em missões de interceptação e defesa aérea, sem capacidade de lançar mísseis aptos a alcançar targets “além do horizonte”, ou de ser empregada no ataque a alvos no mar.

Um curto texto do respeitado analista argentino de assuntos de Defesa, Marcelo Cimino – titular do site noticioso Interdefensamilitar.com.ar –, informou na noite da terça-feira, 4 de fevereiro, que a compra que está sob exame em Buenos Aires será feita “de governo a governo”, envolvendo a importação de 14 jatos – e não 18 como havia sido inicialmente ventilado –, 12 monopostos e dois de treinamento, para instrutor e instruendo.

A nota, de parcas 21 linhas (intitulada “Refinando sobre a negociação pelos Kfir”), confirma que parte dos aviões – “componentes menores da estrutura”, segundo o autor – será fornecida pela Fabrica Argentina de Aviones Brigadier San Martín FAdeA), da Província de Córdoba. Ano passado o mesmo articulista publicou amplas reportagens sobre as mudanças nos quadros diretivos dessa indústria, e notícias alvissareiras sobre uma terceira versão do jato de ataque leve ao solo Pampa (um desenvolvimento do ultrapassado Alpha Jet franco-alemão).

O texto admite que o modelo de radar a ser embarcado nos Kfirs argentinos não pôde ser revelado, e que cada aeronave será entregue à Força Aérea Argentina acompanhada de dois mísseis, de tipo igualmente não identificado.

O mais curioso é o dado sobre o valor da transação: 220 milhões de dólares, o que permite a especulação de que, cada aeronave, sairá, em média por 15,7 milhões de dólares.

Esse valor está muito abaixo dos 22 ou 25 milhões que a Lahav, de Israel, havia previsto como preço mínimo para os Kfirs da versão Block 60, dotados de radar avançado Elta/M 2052 com antena de varredura eletrônica AESA – aptos para ataque ar-mar –, sonda de reabastecimento em vôo (indispensável nas missões de longo alcance), sistemas Elisra despistadores de mísseis inimigos e sensores de capacidade de abertura sintética e abertura sintética inversa – ou, em outras palavras, aptidão tanto de “enxergar” diretamente para baixo quanto diretamente para cima.

As informações proporcionadas ao analista argentino deixam, contudo, margem para muitas dúvidas.

Qual será, exatamente, o modelo do caça israelense que está sendo negociado entre Buenos Aires e Tel-Aviv?

O governo israelense se dispõe a transferir as aeronaves para a FAA com os motores General Electric J-79, de origem americana? O Departamento de Estado americano autorizou essa operação?

No dia 25 de janeiro, depois que o site defesanet.com informou o temor do governo britânico de que os Kfir fossem utilizados para monitorar (e eventualmente atacar) as embarcações designadas para extrair petróleo ao norte das Ilhas Malvinas, o ministro da Defesa argentino Agustín Rossi descartou essa hipótese, enfatizando que o assunto Kfir tinha como principal meta recapacitar tecnologicamente a Fábrica San Martín.

Em seus textos de 2013 sobre os planos da companhia, Cimino não menciona o pobre desempenho dela ano passado, quando houve descumprimento do cronograma de entregas dos jatos IA-63 Pampa II.

O analista também não se referiu aos débitos da San Martín com fornecedores estrangeiros. Os números conhecidos falam de mais de 60 milhões de dólares, inclusive 27 milhões a duas fábricas israelenses: a IAI, controladora da Lahav, e a Elta, fornecedora de radares – ambas metidas até o pescoço no projeto de fornecer aviões Kfir aos argentinos.

A matéria de Marcelo Cimino informa que parte do pagamento da conta das 14 novas aeronaves deverá ser feito com commodities argentinas (trigo, provavelmente), e que todo esse assunto depende da obtenção de uma fórmula de financiamento que não agrave a situação do Tesouro argentino – cujas reservas no exterior estão, hoje, no patamar de 32 bilhões de dólares (o equivalente a, aproximadamente, 8,5% das reservas brasileiras no exterior).

Um dos pontos que mais chama a atenção no informe de Cimino é a omissão quanto a um dado que circulou de forma extra-oficial no último trimestre de 2013, sobre aeronaves que seriam fornecidas diretamente pela Lahav, prontas, e aeronaves que seriam montadas em território argentino.

A primeira versão dizia que, dos 18 caças, seis seriam entregues em curto espaço de tempo (2015), completos, pelo fabricante de Israel, e os 12 restantes fabricados em co-produção.

Esse aspecto da operação é importante porque a atual situação técnica e financeira da fábrica de Córdoba não inspira confiança. Exemplo: ano passado surgiu a informação de que um bloqueio político urdido em Londres impedia a empresa britânica Martin Baker de vender assentos ejetáveis para a Força Aérea Argentina, forçando a San Martín a cotar o modelo K-36 da empresa russa NPP Zvezda – que produz assentos de emergência para a aviação militar russa desde a década de 1950.

A filial italiana da Martin Baker – que pertence ao Grupo Finmeccanica – gritou, argumentando que não havia motivo para os argentinos mudarem de fornecedor. Bastava, segundo ela, que a San Martín pagasse a dívida contraída com a companhia, de 600 mil dólares...