COBERTURA ESPECIAL - America Latina - Geopolítica

14 de Outubro, 2013 - 12:41 ( Brasília )

Colombia - Análise - Conversas de Paz encerram sem definição.


Nota DefesaNet

O fim das conversas em La Habana, entre as FARC e o governo da Colômbia anunciado neste fim de semana.

Podemos compreender a situação através do artigo  do Coronel (Exército Colômbia),  Luis Alberto Villamarín Pulido.

O editor

Notícia da imprensa - Correio Braziliense - 14 Outubro 2013
 

O governo colombiano e a guerrilha comunista das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) encerraram, ontem, um ciclo de diálogos com recriminações mútuas pela falta de avanços após 11 meses de negociações de paz em Havana. “Não é sensato que se pretenda mostrar a insurgência como parte do diálogo que freia os ritmos para o avanço do processo” de paz”, declarou o chefe negociador das FARC, Iván Márquez. “Neste fechamento de ciclo, o país deve ter clara uma grande verdade: trabalhamos profundamente a cada dia; não houve dia em que não apresentamos propostas e soluções; não houve dia em que não propiciamos um avanço”, acrescentou.

As partes não divulgaram um comunicado conjunto no fechamento deste décimo quinto ciclo — ao contrário dos anteriores — nem informaram a data em que retomarão as negociações, iniciadas em novembro de 2012.


 

Análise político-estratégica dos onze
meses de conversações em Havana
Publicado 23 Setembro 2013



 Coronel Luis Alberto Villamarín Pulido
Analista de assuntos estratégicos 
www.luisvillamarin.com
 
   Tradução: Graça Salgueiro

   
É muito pobre e quase estéril para a paz da Colômbia, o balanço político-estratégico ao fim da décima-quarta rodada de conversações entre os delegados do presidente Santos e as lideranças das FARC, em Havana, Cuba.
     
Ao analisarmos observamos importantes lucros políticos, propagandísticos e estruturais para o conjunto integral do Plano Estratégico das FARC, e nenhuma vantagem para os objetivos nacionais de segurança, desenvolvimento, paz e direitos das vítimas do narco-terrorismo comunista.
     
Examinados os fatos e avaliadas as 14 rodadas, saltam à vista preocupantes conclusões, tais como:
   
1. Enquanto as FARC chegaram à mesa para impor o plano de governo totalitário desenhado pelo Partido Comunista Colombiano, que é o organismo superior do grupo terrorista, os delegados do governo nomeados a dedo e de última hora, chegaram a Oslo e Havana para cumprir sua parte paga com os impostos dos colombianos, com a finalidade de coadjuvar o desejo vaidoso do Prêmio Nobel e da reeleição do Presidente Santos.
   
2. O desenrolar dos fatos assim o demonstra. As FARC impuseram a agenda, o ritmo, os tempos e a temática do primeiro grande ponto acerca do tema agrário. Deram-se um amplíssimo banho de popularidade, conseguiram que todos os seus comparsas armados e desarmados se colassem na ópera bufa, montada na Universidade Nacional com o coro retumbante de delegados comunistas da ONU, passearam pelos três terços da arena aos delegados de Santos e para culminar a rasteira, cravaram a estocada final com a parada do Catatumbo e a infiltração nas greves agrárias que sepultaram qualquer embromação de reeleição de Santos, mesmo que este não queira ver nem reconhecer.
     
3. Como já se anotou em análises anteriores, o Primeiro Grande Acordo entre as partes acerca do tema agrário, não contém nada concreto que favoreça o desenvolvimento integral do agro colombiano, senão que parece um documento demagógico próprio de uma campanha eleitoreira no qual, por desgraça para a Colômbia, colam-se graves pretensões dos terroristas de construir zonas liberadas, controladas pelas FARC.
     
4. A trituradora comunista, armada e desarmada, pulverizou os fantasiosos congressistas que afanados por fazer conchavos e astúcias para conservar suas imerecidas prebendas, aprovaram um azarado projeto de lei para a paz. Além disso, desenvolveram amplas campanhas de propaganda interna e externa para legitimar o Movimento Bolivariano Clandestino, com um pitoresco nome associado com a “segunda independência”, buscando a candidatura presidencial de sua estafeta predileta, para impor ao governo de transição ao socialismo estabelecido por Tirofijo e Reyes antes de morrer.
     
5. Do mesmo modo que há três décadas, quando Tirofijo e Jacobo Arenas manipularam Belisario, ou 22 anos atrás quando também manipularam Humberto De La Calle, ou 14 anos atrás quando aproveitaram a incapacidade e falta de caráter de Andrés Pastrana, assim como a carência de estratégia integral de todos os governantes - sem exceção - desde o nascimento das FARC até esta data, em Oslo e Havana as FARC brincaram com a ambição egocêntrica e auto-publicitária de Juan Manuel Santos.
   
6. Onze meses de conversações estéreis, só serviram para ouvir as mesmas argúcias da propaganda comunista: que as FARC não entregarão nunca as armas, porque elas são a garantia para que se cumpra o pactuado. Que não são nem terroristas nem delinqüentes, senão insurgentes políticos. Que não são verdugos senão vítimas. Que a solução é desmobilizar as Forças Militares, reconhecer as FARC como o novo exército do povo, perdoar-lhes todas as atrocidades cometidas e encarcerar todos os militares que os combateram... Que a Justiça Penal Militar deve desaparecer. Que as FARC são governo em determinadas zonas, etc., etc.
     
7. Por sua parte, com arrogante auto-suficiência Santos pontifica que as FARC se sentaram para negociar porque estão derrotadas, sem se dar conta de que para os comunistas é dogma negociar como parte da guerra, e não como a terminação da mesma. Que graças à sua genialidade estratégica e o engenho quase celestial de seu ministro de Defesa, Pinzón, morreram muitas lideranças. Que foram capturados vários chefes de finanças e muito mais, fruto do trabalho incansável dos soldados, aos quais por inexplicável contradição se lhes nega o pagamento legítimo dos salários de acordo com a Lei 4 de 1992, carecem de defesa jurídica por suas atuações para sustentar Santos e sua casta, e padecem de um inadequado serviço de saúde militar em atividade e na reserva, em que pese ser os que executam as operações militares exitosas, das quais Santos se apropria com tanta facilidade como demagogia.
     
A lista poderia continuar, porém essa é em linhas gerais a realidade político-estratégica depois de onze meses de inférteis conversações, nas quais as FARC melhor preparadas para ir à mesa e com um plano de governo estruturado na dialética de seu partido, ganharam tempo, continuando a guerra e utilizando para seu projeto a longo prazo a estultícia do mandatário, a incompetência dos delegados oficiais em Havana e a indiferença do Congresso que, em compasso com a indiferença do povo colombiano, mantêm o mesmo problema de há três décadas ou talvez pior.
     
Embora seja certo que caíram importantes cabeças, as FARC continuam fortes porque nenhum governo que as combateram enfocaram a ação política, social, econômica, cultural e militar do Estado, para se opor ao Plano Estratégico, centro de gravidade das FARC.
     
Por isso a guerra se prolonga. Todos os dias caem terroristas de diversos níveis porém se reciclam outros. Morrem soldados e se incorporam outros, mas claro, sem que os filhos dos aristocratas, dos altos magistrados das altas cortes, dos congressistas e demais burocratas cumpram com o dever de defender a Colômbia no campo de batalha.
     
Para isso estão os estratos 1, 2 e 3 que, além disso, são os que nutrem com seus jovens as guerrilhas, os bandos criminosos, os narco-traficantes, a delinqüência organizada. Porém, aqui não acontece nada porque Santos está embelezado em sua re-eleição e conta com um amplo círculo de acompanhantes que fazem politicagem com os impostos que os colombianos pagamos.
     
Esse é o círculo vicioso da guerra e da paz na Colômbia, e o paupérrimo balanço político-estratégico de onze meses de conversações em Havana com os cabeças das FARC.

E como o Congresso em seu conjunto não tem nem dignidade, nem autoridade moral, nem sentimento patriótico, não há quem ponha os pontos nos “is” para que Santos preste contas ao país em preto e branco de quais são os resultados concretos desta farsa: não as frases de gaveta em comunicados conjuntos das partes, nos quais se assevera que há avanços positivos mas que nada está negociado até agora.