Portugal
moderniza a sua frota de
blindados com o Pandur II
Por
Pedro Manuel P. Monteiro
Correspondente Defesa@Net em Portugal
http://pedromonteiro-photography.blogspot.com
Numa cerimónia
a que compareceram militares dos três ramos,
responsáveis políticos, industriais,
diplomatas e adidos militares, a empresa portuguesa
Fabrequipa, localizada no Barreiro, apresentou
o primeiro blindado Pandur II produzido em Portugal.
A cerimónia, realizada na semana em que
o Exército recebe os seus primeiros blindados,
procurou afirmar o papel da empresa no importante
e competitivo domínio da indústria
militar.
Um blindado “made
in” Portugal
Entre a localidade
de Porto Alto e o Barreiro distam cerca de meia
centena de quilómetros. Contudo, existem
outras distâncias, mais simbólicas.
Entre Porto Alto, onde foram produzidas mais de
400 blindados Chaimite, e o Barreiro distam cerca
de quatro décadas de história. Neste
período, a Chaimite, o mais importante
e reconhecido produto da indústria militar
portuguesa, operou em vários países
(Peru, Líbia, Líbano e Filipinas)
e cenários operacionais (desde a exigente
Guerra Colonial até às recentes
missões de paz na invernosa região
dos Balcãs).
Tal legado foi, desde cedo, reconhecido pelos
responsáveis da Fabrequipa. A recuperação
de uma indústria militar nacional poderá,
pois, ocorrer por meio de um dos mais importantes
programas de modernização material
das Forças Armadas nacionais. De facto,
à Chaimite (nota 1) sucede uma outra viatura
produzida em Portugal: a sofisticada Pandur II.
Este processo
teve início com o anúncio, em finais
de 2004, do vencedor de um concurso aquisição
de viaturas blindadas sobre rodas (8x8) para o
Exército português e Corpo de Fuzileiros
da Armada. A austríaca Steyr-Daimler-Puch
com o seu Pandur II foi escolhida pelas autoridades
de Lisboa, em detrimento da suíça
Mowag com a Piranha III e da finlandesa Patria
com o AMV (notas 2 e 3). A proposta da Steyr era,
aliás, a única a contemplar a produção,
em Portugal, de parte dos 260 veículos
encomendados – 240 dos quais destinados
ao Exército.
Consequentemente,
a Steyr procurou um local-partner que pudesse
assegurar a produção de 218 blindados
e, mais tarde, fornecer o apoio logístico
e a actualização necessários
à plena operatividade da frota portuguesa.
A empresa escolhida foi a Fabrequipa, uma empresa
especializada na produção semi-reboques.
Como nota um dos sócios-gerentes, Francisco
Pita, foram também feitos contactos com
vista a assegurar que uma significativa percentagem
de componentes portugueses nos blindados Pandur
II. De acordo com o responsável, espera-se
que, concluídos os contactos, se venha
a “incorporar 65% de componentes vindos
da indústria portuguesa” na versão
básica de transporte de pessoal, percentagem
essa que pode mesmo “chegar aos 75%”.
Mais: a transferência de tecnologia é
total. Para tal, uma equipa de engenheiros portugueses
teve um período de formação
de dois meses na fábrica de Viena, explicou
Vítor Franco, da Fabrequipa.
A produção
dos primeiros blindados teve início em
Janeiro de 2007. Antes, os técnicos portugueses
haviam acompanhado a produção, nas
instalações da Steyr, na região
de Viena, dos primeiros blindados para Portugal.
Segundo Vítor Franco, da Fabrequipa, este
processo envolveu, por um lado, uma componente
de formação teórica e, por
outro, uma componente prática. Os técnicos
da Fabrequipa contam, de resto, com a assistência
permanente de quatro especialistas austríacos.
Segundo Vítor Franco, “cerca de 100
trabalhadores estão directamente envolvidos
na produção dos blindados”.
Com a produção em pleno, cerca de
6 a 8 viaturas deverão ser produzidas mensalmente,
com 120 trabalhadores adstritos ao processo. O
restante quadro continua responsável pela
montagem semi-reboques – que, aliás,
tem mantido o ritmo inicial graças à
parceria com outras empresas.
As primeiras entregas ocorreram, em simultâneo
com a apresentação oficial do Pandur
II. No final de Setembro, sete viaturas foram
entregues ao Exército após terem
sido submetidas, como explicou Vítor Franco,
a um First Article Test (FAT) que envolveu, por
exemplo, testes de tiro (Alcochete), condução
em estrada e fora de estrada (Alcochete e região
do Barreiro) ou o embarque num avião de
transporte C-130H da Força Aérea
(Montijo).
Novos projectos
na área militar
A Fabrequipa
pretende constituir, até ao final do presente
ano, uma carteira de produtos para o mercado militar.
O objectivo, diz Francisco Pita, é assegurar
“uma autonomia na aquisição
de material militar pelas Forças Armadas”.
Mais especificamente, “a empresa deverá
poder oferecer, às Forças Armadas
e clientes externos, um conjunto amplo de viaturas
militares de rodas, blindadas e não blindadas,
até às 25 toneladas”. Desde
viaturas com tracção 4x4 a 8x8,
passando, ainda, por semi-reboques para transporte
de carros de combate, exemplificou.
Em declarações posteriores, Francisco
Pita deixou em aberto que, no âmbito da
parceria com a norte-americana General Dynamics,
a Fabrequipa poderá assegurar a manutenção
dos novos carros de combate Leopard II A6 do Exército
(nota 4) e trabalhos nos blindados M113. Possível,
mas menos provável face ao conjunto de
aquisições previstas, é a
produção, no Barreiro, da viatura
blindada de combate de infantaria sobre lagartas
Ulan.
Para já, a prioridade é a escolha
de um parceiro para a produção de
veículos ligeiros blindados com tracção
4x4. Francisco Pita explica que o objectivo é
o fornecimento destes veículos à
Brigada de Reacção Rápida
do Exército. Até ao momento, a Fabrequipa
foi já contactada por três empresas
- destas, uma será escolhida.
A continuidade da produção militar
para lá da entrega dos Pandur II às
Forças Armadas, em 2010, poderá
passar pela opção de compra de mais
viaturas. De facto, existem planos para a aquisição
de 33 VBR para o Exército, dotadas de uma
peça de 105mm. Um protótipo já
foi testado na Áustria, com uma torre da
belga CMI. Uma outra torre – a do blindado
italiano Centauro – será testada
na plataforma. Conforme explicou Vítor
Franco, os testes a realizar na Áustria
e em Portugal visam “avaliar o comportamento
da torre e, igualmente, do conjunto do veículo
e torre”. Isto é, até que
ponto este blindado, previsto para a Brigada de
Intervenção, cumprirá os
requisitos dos militares portugueses.
Por outro lado, a actividade da Fabrequipa poderá
alargar-se com a criação de uma
unidade de protecção balística
- em cooperação com a Steyr. Esta
poderá produzir blindagem para os blindados
e viaturas tácticas não blindadas
da Fabrequipa, Forças Armadas e clientes
estrangeiros.
A manutenção
de uma indústria militar portuguesa depende,
necessariamente, da penetração em
mercados externos, conforme reconhece Francisco
Pita. Deste modo, a Fabrequipa pretende exportar
para outros mercados, nomeadamente países
com os quais Portugal mantém relações
de grande proximidade como Angola, Marrocos, entre
outros.
Um blindado moderno e polivalente
As VBR Pandur
II terão tracção às
oito rodas, ar condicionado e protecção
contra elementos NBQR. Entre os equipamentos da
versão base encontram-se um sistema GPS,
visão nocturna para o condutor, sistemas
de aviso de aproximação de mísseis
e um sistema de supressão de fogos nos
compartimentos da tripulação e do
motor.
No capítulo da protecção,
a sua blindagem protege os tripulantes contra
o impacto de munições de até
12,7mm (NATO STANAG 4569 Level 3) e minas (NATO
STANAG 4569 Level 2ª). No plano da mobilidade,
a quase totalidade das versões pode ser
transportada pelos aviões C-130H da Força
Aérea e o futuro Navio Polivalente Logístico
da Armada poderá transportar um elevado
número de VBR.
No total, Portugal receberá 16 versões
diferentes, sendo 11 destinadas ao Exército
e cinco, com capacidade anfíbia, para a
Marinha.
Ao serviço do Exército
e Corpo de Fuzileiros
No Exército,
os Pandur II irão equipar a Brigada de
Intervenção, a força média
do Exército com comando na cidade de Coimbra.
Em declarações à imprensa,
o Major-General Campos Gil, director coordenador
do Estado Maior do Exército, afirmou que
estes blindados irão fornecer uma “maior
capacidade de protecção e mobilidade
no terreno”. Por outro lado, afirmou a expectativa
do ramo militar em relação aos testes
com o protótipo armado com uma peça
de 105mm, realçando que este “tipo
de viaturas são necessárias e há
interesse em que seja a mesma plataforma das restantes”.
Já na Armada, as Pandur II proporcionarão
maior autonomia e flexibilidade na transição
do mar para terra da componente anfíbia
e constituirão um importante elemento de
apoio em operações do tipo NEO (Non-Combatant
Evacuation Operation). As 20 viaturas previstas
integrarão o futuro Pelotão de Viaturas
Blindadas Anfíbias.
Na
segunda-feira, dia 1 de Outubro, o Ministro
da Defesa, Professor Severiano Teixeira,
cancelou a entrega ao Exército dos
novos blindados Pandur por "não
estarem cumpridos os requisitos técnicos"
estipulados no contrato, disse à
Agência Lusa fonte governamental.
De acordo com o Ministério da Defesa,
os problemas técnicos foram detectados
nos novos blindados produzidos na fábrica
da Steyer, na Áustria, e não
no blindado produzido na Fabrequipa, no
Barreiro.
Três dos novos sete blindados Pandur
8X8 que foram entregues ao Exército
pela empresa austríaca Steyr apresentavam
deficiências, razão pela qual
o ministro da Defesa cancelou a cerimónia
de entrega oficial.
Os problemas estavam associados a pouca
confiabilidade dos sistemas digitais dos
veículos.
Pedro Monteiro |
Referências
(1) Blindado Chaimite 4x4, http://www.defesa.ufjf.br/fts/Chaimite.pdf
(2) Nuevos blindados portugueses, Fuerzas Militares
del Mundo nº30
(3) Portugal adquire novas Viaturas Blindadas
de Rodas (VBR), http://www.defesanet.com.br/tecno/portugalvbr/
(4) Portugal acerta compra de 37 tanques Leopard
para o Exército à Holanda, http://jn.sapo.pt/2007/09/26/ultima/portugal_acerta_compra_37_tanques_le.html