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DuPont escolhe
o Brasil para lançar blindagem de carros
Raquel Balarin, de São
Paulo
O fotógrafo está à
espera do presidente da DuPont na América
Latina, Eduardo Wanick. Acaba de montar seu equipamento
em uma escada logo à entrada do prédio-sede
da multinacional em Alphaville, na Grande São
Paulo. De repente, Masao, um dos diretores da empresa,
irrompe no hall: "O que é isso aqui?
Essa área tem de ser isolada já. Isso
é perigoso."
A cena inusitada
mostra um lado pouco conhecido da DuPont: o da preocupação
com a segurança. Na sede, logo na entrada
visitantes são orientados a subir e descer
escadas utilizando o corrimão - regra seguida
rigorosamente pelos que trabalham ali. Os funcionários
são orientados a reportar qualquer acidente
de carro, mesmo num fim-de-semana de lazer com a
família ou quando um desavisado bateu na
traseira enquanto ele esperava o sinal abrir.
A segurança,
na DuPont, virou negócio. A segunda maior
empresa química do mundo presta consultoria
nessa área para empresas como Petrobras,
Pemex e Quattor. E, nesta semana, lança mundialmente
um produto que à primeira vista parece inusitado
para quem é conhecido no Brasil por marcas
como Teflon ou Corian: a blindagem de carros.
A cidade de São Paulo será a primeira
no mundo a ter o novo sistema de blindagem, que
já em 2009 deverá ser exportado para
a Cidade do México. "Fizemos pesquisas
qualitativas de mercado em São Paulo, na
Cidade do México e em Bogotá e detectamos
que a blindagem era um sonho de consumo da classe
média considerado irrealizável",
diz Wanick, ressaltando que, infelizmente, os habitantes
das grandes cidades latino-americanas se sentem
hoje vulneráveis quando estão nos
carros.
Com a pesquisa
em mãos, a DuPont saiu há um ano e
meio a campo para desenvolver um produto que atendesse
os anseios da classe média e que fosse rentável.
O resultado é o sistema de blindagem Armura,
que estará disponível em duas concessionárias
de São Paulo a partir de quarta-feira, a
princípio apenas para dois modelos: o Toyota
Corolla e o Vectra, da Chevrolet. A DuPont aposta
em dois diferenciais do produto para ganhar mercado:
o preço e o peso. O Armura custará
R$ 15,99 mil, em comparação com os
R$ 55 mil a R$ 60 mil pagos pela melhor blindagem
disponível no mercado, a 3A. Com o Armura,
garante a DuPont, o carro ficará 100 quilos
mais pesado. Com a 3A, cerca de 300 quilos mais
pesado (dependendo do modelo).
Isso quer dizer
que o novo produto da DuPont vai arrasar a concorrência?
Não é essa a idéia da multinacional.
Como a DuPont é fornecedora de alguns produtos
usados como matéria-prima pela indústria
de blindagem automotiva (como a fibra de aramida
Kevlar), a empresa tomou o cuidado de desenvolver
um sistema que não concorresse com seus clientes.
O Armura é mais barato, porém, protege
um pouco menos.
"Fizemos uma
análise baseada em um estudo do Exército
sobre o calibre presente nas mãos dos criminosos
em São Paulo", diz Wanick. "O Armura
protege contra 97,6% das ameaças que estão
aí", explica o presidente da DuPont
na América Latina, um carioca que aos 17
anos saiu do Brasil em direção à
Inglaterra porque queria fazer carreira como pesquisador.
Casou-se com uma tailandesa e, hoje, não
guarda nem um pingo do sotaque carioca. Carrega,
na verdade, o "erre" característico
de gringos que falam português.
O Armura oferece
proteção contra tiros de armas calibre
38 e abaixo. A blindagem convencional vai além.
A 3A, por exemplo, protege os ocupantes do carro
contra 99,8% das ameaças existentes, segundo
dados do próprio Wanick. "Quem pode
pagar vai continuar comprando a tradicional. Quem
antes não tinha acesso à blindagem
do carro, passa a ter com o Armura."
Um dos "pulos
do gato" da DuPont está nos vidros.
Na proteção tradicional, o vidro do
carro fica muito espesso, o que obriga a empresa
blindadora a serrar a porta do carro e soldá-la
novamente, para que o vidro corra para cima e para
baixo. Utilizando um polímero batizado de
SentryGlas aliado ao Kevlar e a outro polímero,
o SpallShield, a multinacional conseguiu reduzir
a espessura do vidro blindado, o que evitará
cortes na carroceria do carro.
Com a eliminação
de intervenções na carroceria e o
uso de painéis pré-moldados flexíveis,
a DuPont conseguiu baratear o Armura e permitiu
que as próprias concessionárias aplicassem
a blindagem (hoje, a tradicional não é
feita diretamente nas revendas). Também manteve
a garantia dada pelo fabricante do veículo.
Além da
"exportação" do sistema
de blindagem para o México (onde as pesquisas
indicaram forte preocupação com seqüestros),
a multinacional pretende em 2009 ampliar as vendas
para um total de 13 modelos de carros, nas principais
cidades do país. E para quem se pergunta
por que uma empresa com forte conhecimento na área
química está apostando em segurança,
Wanick lembra que o fundador da DuPont, Éleuthère
Irénée du Pont de Nemours, era um
huguenote francês que fugiu da Revolução
e, em 1799, emigrou para os Estados Unidos. Lá,
começou a vida fabricando pólvora.
Sua casa e a de seus funcionários ficavam
bem em frente dos paióis.
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