Francesa Rafale ataca concorrentes em coletiva. Venda
de caças para a FAB perto do fim
Guilherme Queiroz e Isabel Fleck
Pela primeira vez desde que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva declarou sua preferência —
política — pelo caça francês
Rafale, que disputa a concorrência F-X2 da Força
Aérea Brasileira (FAB) com o norte-americano
F-18 Super Hornet e o sueco Gripen NG, os responsáveis
pela proposta francesa convocaram uma coletiva de
imprensa para “esclarecer as inverdades”
divulgadas pelos concorrentes. O diretor da Rafale
International no Brasil, Jean-Marc Merialdo, refutou
o argumento de que sua proposta seria 40% mais cara
que a da Boeing, e questionou a comparação
de preços com o Gripen NG, da Saab. Para Merialdo,
o avião sueco pertence a uma classe diferente
do Rafale, e é hoje apenas um “demonstrador
de conceito”. Ao Correio, as duas outras concorrentes
reafirmaram suas colocações e rebateram
as críticas feitas pela empresa francesa.
“Infelizmente, os concorrentes começaram
a levar a público informações
que não correspondem à realidade, chegando,
em alguns momentos, à total falta de compostura,
em uma clara tentativa de pressionar a decisão”,
disparou Merialdo. O representante francês chegou
ainda a sugerir que a Boeing e a Saab “fazem
uma campanha em conjunto contra o Rafale”. Ele,
no entanto, negou que a convocação de
uma coletiva para contestar os argumentos alheios
seja uma manobra desesperada. “Sempre há
uma preocupação quando a gente conduz
uma operação desse tipo, (…) mas
estou aqui para ganhar”, afirmou.
Apesar de dizer não saber o preço das
outras propostas, Merialdo argumentou que não
há “fundamentos técnicos”
que garantam um preço 40% menor para a proposta
norte-americana. O coronel aviador da reserva Rogério
Bonatto, consultor da Rafale, não descartou,
contudo, a hipótese de o governo americano
ter oferecido “descontos estratégicos”.
“Se um governo resolver fazer uma parceria com
o Brasil e fornecer 35 aviões de graça,
pode”, exagerou Bonatto. O diretor da Rafale
ainda voltou a afirmar que a autorização
do Congresso dos EUA para a transferência de
tecnologia do F-18 é “uma pré-autorização,
que ainda será revista”.
Confrontado com a afirmação, o gerente
de Desenvolvimento Corporativo Internacional da divisão
militar da Boeing, Michael Coggins, classificou-a
de “bobagem”. O executivo relatou que
a autorização congressual 36-B, como
é chamada, foi aprovada em 5 de setembro e
concede as licenças para armamentos, turbinas,
radares e demais sistemas do Super Hornet. Sobre a
comparação feita com o preço,
Coggins argumentou que não há cláusula
de sigilo sobre valores globais das propostas, mas
sobre valores unitários. “Reafirmo que
nossa proposta é 40% mais barata que a do concorrente.”
Garantia sueca
Sobre o Gripen NG, Merialdo destacou o “risco
financeiro” de fechar contrato com um caça
que ainda está em “fase inicial de projeto”.
“O custo final do desenvolvimento do Gripen
NG é totalmente desconhecido, podendo se tornar
um verdadeiro saco sem fundo”, afirmou. O diretor-geral
da Saab no Brasil, Bengt Janér, respondeu,
dizendo que “está tudo (os custos) incluso
na proposta”, e que qualquer gasto extra será
assumido pela empresa sueca. Ele ainda explicou que
o Gripen NG não parte do zero, mas de um caça
que tem mais de 230 exemplares voando em cinco países,
o chamado Gripen C/D.
A troca de acusações ocorre no momento
em que a FAB finaliza a análise das três
propostas, antes de repassá-la ao ministro
da Defesa, Nelson Jobim, que só chega de viagem
no próximo dia 23. A expectativa é de
que o anúncio da escolha seja feito ainda neste
ano.
“Infelizmente, os concorrentes começaram
a levar a público informações
que não correspondem à realidade, chegando,
em alguns momentos, à total falta de compostura,
em uma clara tentativa de pressionar a decisão”
Jean-Marc Merialdo, diretor da Rafale International
do Brasil