Entrevista
com o Vice-Almirante (RM1) RONALDO FIÚZA DE
CASTRO
Gerente
do Projeto de Desenvolvimento do míssil
nacional superfície-superfície
(SSM)
O
VA (RM1) Ronaldo Fiúza de Castro é o
Gerente do Projeto de Desenvolvimento do míssil
nacional superfície-superfície (SSM
– do inglês “Surface-to-Surface
Missile”) pela Marinha do Brasil (MB).
Esse projeto é considerado um dos mais importantes
em curso atualmente na nossa Marinha, perdendo apenas
para o do Submarino Nuclear. Antes de iniciar a entrevista
o Alte. Fiúza deixou bem claro que ele não
está emitindo opiniões e posições
da Marinha, ele só exporia as suas opiniões
pessoais e comentaria sobre fatos concretos.
DEFESANET:
Alte Fiúza, por que o senhor solicitou que
fosse realizada esta entrevista?
Alte. Fiúza:
É a oportunidade de esclarecer alguns pontos
relacionados a este projeto que estão sendo
divulgados pela imprensa. Tudo o que será comentado
aqui são fatos concretos e as opiniões
e posicionamentos pessoais meus.
DEFESANET:
Qual é, então, o objeto do Projeto do
Míssil Nacional?
Alte. Fiúza:
O Objeto deste projeto é um míssil anti-navio
produzido no Brasil que possa ser lançado dos
lançadores existentes atualmente da MB. O alcance
desse míssil será compatível
com os sensores de bordo, atualmente isto significa
cerca de 60 km. Isto é, as características
do míssil devem ser aproximadamente as do EXOCET
MM40 Bk I.
DEFESANET: Quando foi que a MB decidiu partir
para o projeto de um míssil SSM nacional ?
Alte.
Fiúza:
O projeto do míssil anti-navio nacional é
uma idéia muito antiga. No final da década
de 1970, o Alte Branco, então Diretor da antiga
DACM (Diretoria de Armamento e Comunicações
da Marinha) resolveu que era necessário formar
uma equipe para tratar de um projeto de um míssil
nacional. Vários Oficiais foram naquela época
enviados para se especializarem no assunto. Eu acabei
escolhido para, em 1980, ir cursar mestrado em engenharia
aeronáutica no MIT na área de controle,
navegação e guiagem de mísseis.
DEFESANET:
O que foi feito na ocasião?
Alte. Fiúza:
A idéia, em 1982, quando voltei dos USA, era
a mesma de hoje em dia: produzir um míssil
que tivesse o alcance de nossos sensores. Algo em
torno de 30 milhas náuticas (cerca de 60 km).
Este tipo de míssil sempre será necessário
em qualquer Marinha, é quase que uma continuação
do conceito de “Bateria Principal” nos
navios antigos. É lógico que países
do Primeiro Mundo e Marinhas mais ricas podem se dar
ao luxo de alcances maiores e mísseis mais
caros, esperando uma possível OTHT (Over-The-Horizon
Targeting) oferecidas por outros meios, mas sempre
haverá lugar num navio patrulha ou escolta
de um míssil anti-navio barato que possa engajar
alvos dentro do seu horizonte radar .
Havia, naquele momento, o oferecimento de uma empresa
israelense de se montar uma fábrica para produzir
o míssil GABRIEL III no Brasil. Contudo, como
era apenas uma transferência de “know-how”
e não de “know-why”, a MB decidiu
não prosseguir com as negociações.
Posteriormente, os israelenses partiram para negociar
com a África do Sul e lá fizeram o míssil
SKORPION.
DEFESANET:
Mas essa fábrica não poderia ser encarada
como um primeiro passo na direção do
SSM nacional?
Alte. Fiúza:
Certamente seria um passo, mas provavelmente não
nos levaria a lugar algum. Há uma história
bastante elucidativa a esse respeito: Na década
de 1950, a MB comprou uma fábrica de torpedos
MK 15 que era capaz de fazer tudo daquele torpedo.
Entravam os insumos e saia o produto acabado. Essa
fábrica funcionou durante algum tempo em Niterói.
Contudo, ela fabricou apenas cerca de 50 unidades
e a MB decidiu que não havia mais necessidade
de produzir outros. A fábrica produziu então
material de teste, bancadas e até brindes.
Depois, por falta de demanda, ficou em estado vegetativo.
Quando chegou a hora de partir para o MK 16, lançado
por submarinos, fomos incapazes de fazer o salto tecnológico
necessário. Faltava-nos o conhecimento da engenharia
de projeto. Só sabíamos construir bem
feito aquilo que tinha sido programado.
DEFESANET:
O senhor então não acredita em transferência
de tecnologia?
Alte. Fiúza:
É claro que acredito! Porém transferência
de tecnologia só acontece num momento mágico
em que há alguém que sabe o bastante
para ter uma dúvida e existe um outro alguém,
mais experiente, que fornece a resposta correta. Só
nessas condições haverá de fato
uma transferência de conhecimento. Não
adianta mandarem livros, manuais ou darem cursos teóricos
se esta premissa não for atendida. Na ocasião,
os israelenses deixaram claro que não iriam
responder a qualquer pergunta técnica sobre
a engenharia de projeto de mísseis.
DEFESANET:
O que aconteceu a partir de então?
Alte. Fiúza:
Por vários motivos, a MB continuou adquirindo
seus Exocet, exatamente como havia feito desde 1975.
Até que em 2001, a MB recebeu uma carta da
MBDA avisando que o míssil tipo MM38 que possuíamos
não seria mais apoiado pela empresa. Isso depois
de muito alardearem sobre as vantagens de seus novos
mísseis com especificações acima
do que precisamos e por volta de 3 vezes mais onerosos.
Isso gerou uma desconfortável sensação
de impotência na MB e decidiu-se que o projeto
do míssil nacional finalmente seria retomado.
A MB teria que se desfazer de seus MM38 apesar de
serem ainda perfeitamente adequados às tarefas,
ameaças e cenários (TAC) esperados.
Porém, como a confiabilidade e disponibilidade
deles iriam despencar, a MB decidiu adquirir, numa
primeira hora, novos mísseis. Foi então
que a Marinha se conscientizou que não poderia
mais continuar dependendo das condições
de lucratividade de empresas estrangeiras em relação
a sua arma mais letal. A situação não
ficou mais crítica para a MB, pois o MM38 teve
uma sobrevida graças, aliás, a Marinha
Francesa.
DEFESANET:
A decisão, então, foi Estratégica?
Alte. Fiúza:
O preço de mísseis, como o de qualquer
arma importante, é político. O que um
Estado está disposto a pagar a outro Estado
para ter uma arma? No caso de fornecedores como a
antiga URSS, esse preço era aderir a uma ideologia,
no caso dos USA era aceitar uma graduação
tecnológica determinada por eles e no caso
dos europeus era pagar preços exorbitantes
por material de, digamos, “penúltimo”
estado da arte. Por isso, a decisão de produzir
ou não uma arma no seu próprio País
é naturalmente estratégica.
DEFESANET:
Como, então, se iniciou essa empreitada?
Alte. Fiúza:
Houve primeiramente um projeto chamado de “munição
inteligente” que se desenvolveu entre 2003 e
2005. Nesse projeto foram levantados todos os passos
da sequência reversível e, principalmente
da sequência irreversível de lançamento
do míssil. Isso permitiu que o IPqM (Instituto
de Pesquisas da Marinha) com supervisão da
DSAM (Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha, órgão
que sucedeu a DACM) adaptasse um lançador de
MM38 para lançar o MM40. Um lançamento
foi realizado com sucesso no final de 2005. Esse projeto
nos deu segurança para partir com confiança
para o projeto nacional. Além disso, como passamos
a dominar a interface entre o míssil e o sistema
de lançamento, temos como iniciar o projeto.
DEFESANET:
Qual foi o próximo passo?
Alte. Fiúza:
Bem, a MB aceitou descartar os mísseis MM38,
mas resolveu “forçar a barra” e
dizer a MBDA que iria nacionalizar o motor foguete,
parte perecível mais crítica do míssil.
Daí, ela deixou claro que a empresa poderia
aceitar colaborar no desenvolvimento e ser contratada
para isso, ou se negar a fazer o que não impediria
que a MB realizasse todos os esforços possíveis
para montar esse componente. Com ou sem a MBDA, a
MB iria fazer o seu míssil SSM. Felizmente,
a MBDA resolveu colaborar, o que tem feito com grande
competência e dignidade. Ela tem auxiliado nossas
empresas a se capacitarem dentro dos rigorosos padrões
da área de mísseis e nos introduzido
a modernas ferramentas de gerenciamento. Entretanto,
devo frisar que essa transferência de tecnologia
só esta ocorrendo porque há profissionais
com grande conhecimento a respeito de mísseis
não só na MB, como também, nas
empresas nacionais envolvidas.
DEFESANET:
E quais empresas são essas?
Alte. Fiúza:
De início, contratamos a Avibrás e a
MBDA para que a primeira, com apoio da segunda, produza
o motor foguete que será colocado nos Exocet
da MB. Esse motor em nada é igual ao antigo,
sua tecnologia é bem mais moderna mas ele deverá
satisfazer aos requisitos de interface e desempenho
para ser integrado ao MM-40.
A Mectron, por sua vez, está trabalhando, com
uma cabeça telemétrica com apoio da
MBDA.
A ARES está encarregada de produzir e desenvolver
o lançador. Os sensores inerciais estão
contratados junto ao CTMSP (Centro tecnológico
da Marinha em S. Paulo) e a plataforma inercial será
produzida pelo Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM).
Estamos mantendo contato com empresas que trabalham
na área de radiofreqüência para
o projeto do “seeker” para substituir
o antigo radar ADAC. Estamos, também, mantendo
contato com uma grande empresa na área de integração
de sistemas para nos auxiliar na supervisão
do projeto e temos conversado com o pessoal do CTEX
(Centro Tecnológico do Exército) no
que tange às pilhas térmicas. A carga
útil deve ser produzida pela FAJCMC, a fábrica
de munições da MB. A Grande integradora,
contudo, deverá ser a Avibrás. É
também nossa intenção montar
uma raia de testes adequada no Brasil.
DEFESANET:
Então a MBDA esta contratada apenas para prestar
assistência a essas empresas?
Alte. Fiúza:
Não. Temos mais 2 contratos com a MBDA além
do de cooperação técnica para
desenvolvimento de um motor capaz de substituir o
dos mísseis existentes na MB: 1) Contrato de
Fornecimento de Motores Foguetes, pois foi acordado
que parte dos mísseis da MB será remotorizada
com motores fabricados por eles na França;
e 2) Contrato para fornecimento de itens que a MB
resolveu não partir de início para a
sua nacionalização por serem sensíveis
à área de segurança: iniciadores
e mecanismos de segurança, por exemplo.
DEFESANET: Quais são os prazos e custos do
projeto?
Alte.
Fiúza:
O prazo para se ter o míssil pronto é
de 8 anos contados a partir de 2008. Quanto aos custos,
prefiro não comentar a fim de poder melhor
negociar com as empresas, porém quem tiver
acesso ao SIGPLAN do Governo Federal, é só
verificar os valores no projeto 1N56. No primeiro
ano tivemos R$ 4 milhões e neste ano R$ 7 milhões
não estão incluídos os custos
do motor e cabeça telemétrica que fazem
parte de um projeto separado de certificação
dos atuais MM-40 Acredito que a quantidade de verba
não seja problema no projeto, mas sim, poder
usá-la no que for mais necessário, sempre
dentro da sistemática estabelecida pela MB.
Ou seja problemas, se existirem, serão de ordem
burocrático-legal e não de ordem técnico-financeira.
Daí nossa grande esperança na END principalmente
na regulamentação do relacionamento
Força-Empresa.
DEFESANET: A sua equipe é muito grande?
Alte. Fiúza:
Pelo contrário, é estratégia
do projeto mantê-la o mais enxuta possível.
Somos 5 profissionais, todos contratados pela EMGEPRON.
A sede da GEM (Gerência Especial de Mísseis),
fica na DSAM.
DEFESANET:
O que o senhor nos diz dos riscos do Projeto?
Alte. Fiúza:
A parte do motor esta bastante adiantada. A cabeça
telemétrica também corre a contento.
As demais partes ainda estão no início.
Entretanto, não acredito em obstáculos
intransponíveis. Os riscos de não se
chegar a um motor foguete utilizável são
muito pequenos. O que pode haver são atrasos.
Por exemplo, um dos componentes do propelente sólido,
o PBH/OH era fabricado no Brasil pela Petroflex, empresa
que pertencia à Petrobras. Porém ela
foi vendida a um grupo estrangeiro que, por falta
de interesse econômico, fechou a referida planta.
Portanto, algo que antes era fabricado por uma empresa
estatal deixou de estar disponível e agora
estamos tendo que negociar com outros produtores,
que mesmo fornecendo um produto de boa qualidade tem
dificuldade em manter um padrão. Futuramente,
a Avibrás deve partir para montar a sua própria
planta de PBH/OH, mas problemas como esse são
emblemáticos.
DEFESANET:
Quando o senhor espera realizar os testes do motor?
Alte.
Fiúza:
São motores que queimarão por volta
de 5 minutos. Isso é mais que quase todos os
que já foram feitos no Brasil e comparável
aos do VLS. Por questões de segurança,
o primeiro teste deve ser realizado em terra. Esses
testes devem ser realizados já no ano que vem.
DEFESANET: Finalmente, qual seria o seu lema
nesse projeto?
Alte.
Fiúza: Eu
diria que não desejo reinventar a roda, mas
se for impossível copiá-la, então,
reinventá-la-emos.