Venezuela
aprova lei que autoriza grampos
Reforma
prevê que órgãos públicos
e empresas de telecomunicações
gravem telefonemas e repassem ao Estado
CARACAS.
A Assembleia Nacional da Venezuela aprovou ontem em
primeira discussão uma polêmica reforma
do Código de Processo Penal que obriga órgãos
públicos e empresas privadas de telecomunicações
a montarem unidades 24 horas de gravações
de ligações telefônicas, e a repassarem
essas gravações ao Ministério
Público "no prazo requerido ou em tempo
real". A medida foi considerada pela oposição
como inconstitucional por ferir o princípio
da inviolabilidade das comunicações
privadas.
-
A Constituição só permite a violação
de comunicações privadas em caso de
investigação de narcotráfico,
segurança do Estado e corrupção
que envolve patrimônio público. O que
essa medida pretende é fazer com que o governo
tenha acesso a qualquer tipo de comunicação,
pelo motivo que achar conveniente. Vamos lutar contra
isso - disse o deputado Juan José Molina, do
opositor Podemos.
O
texto da reforma ainda precisa ser aprovado numa segunda
votação, mas o governo tem maioria.
Segundo os críticos, a medida dá margem
para que o governo, por meio do Ministério
Público, consiga obter sem processo gravações
telefônicas de quem quiser, no prazo que determinar.
Manifestações
contra o fechamento de TVs
O
vice-presidente da Assembleia Nacional, Saúl
Ortega, disse, no entanto, que o projeto não
vai institucionalizar a espionagem e acusou os veículos
de comunicação de fazerem campanha contra
a reforma:
-
Não é a oposição e sim
os donos de jornais que estão lutando contra
a reforma. Eles demonstram o pouco compromisso com
o combate ao crime.
No
mesmo dia em que a Assembleia Nacional aprovou a gravação
de ligações, manifestantes em Caracas
protestaram contra as ameaças de fechamento
de TVs, principalmente a Globovisión. Hoje,
os jornalistas farão uma passeata exigindo
liberdade de expressão. A manifestação
chegou a ser proibida pelas autoridades, mas foi autorizada
no fim da tarde.
No
Equador, manifestantes também protestaram contra
a decisão do governo de multar a TV Teleamazonas,
ameaçada de ser suspensa por 90 dias, e de
suspender o anúncio de publicidade oficial
em jornais considerados de oposição.
As medidas foram anunciadas pelo presidente Rafael
Correa, que também disse que vai processar
o jornal americano "Wall Street Journal",
por causa de uma notícia que afirma que o presidente
equatoriano tem ligações com guerrilheiros
da Forças Armadas Revolucionárias da
Colômbia (Farc).
-
Vou processar esse jornal porque estou farto de mentiras.
Exijo que o Wall Street Journal apresente provas das
graves acusações que fez - disse o presidente.
Na
segunda-feira, uma coluna do "Wall Street Journal"
informou que dados obtidos no computador de Raúl
Reyes - guerrilheiro morto das Farc em uma operação
do Exército colombiano - mostram que o presidente
equatoriano mantinha relações com a
guerrilha.
A
Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) criticou
as atitudes do governo.
"Lamentamos
as atitudes de retaliação do presidente
Correa, que sempre se mostrou intolerante diante das
críticas, opiniões e investigações
dos jornalistas e dos veículos de comunicação",
disse a SIP em nota.